10 janeiro 2015

je suis Titanic


Em jeito de entrada: como comentou Martin Sonneborn, eurodeputado e antigo chefe da revista satírica alemã Titanic, a tragédia do Charlie Hebdo?
- Isto na Titanic nunca teria acontecido - só temos seis redactores.


A quem entende alemão, recomendo um passeio pelo site da Titanic. Continuam iguais a si próprios.


(O que se segue é uma tradução rápida de alguns artigos do site. Sublinho: rápida. Se tropeçarem nalguma ideia, antes de se atirarem ao Titanic venham falar com a tradutora. Pode ser apenas um problema da tradução.)



[07.01.2015]
+++ Na sequência do ataque à revista satírica francesa Charlie Hebdo, a redacção do TITANIC reage com solidariedade ("Ai!") e firmeza ("Continuaremos a fazer piadas – logo a seguir ao almoço!") +++ UPDATE: Já há mutilados, e dores de cabeça devidas a telefonemas irritantes ("Olá, o meu nome é Gamperl, do Tittlinger Wochenblatt, será que nos quer fazer uma declaração?") e à leitura de comentários no facebook ("Seus covardes, porque é que não se deixaram matar?? Estão com medo, ou quê?") +++ UPDATE: A pouco e pouco, na redacção cresce a convicção de que o assassínio "em princípio não é uma boa ideia", e ataques a revistas satíricas são "desagradáveis". +++ AVISO TERRORISMO: está marcada para as quatro da tarde uma reunião na redacção do TITANIC, na qual participarão também media privados e do sistema como RTL, Hessischer Rundfunk, Frankfurter Rundschau e outros. Para os terroristas, esta é uma oportunidade de eliminar não apenas uma redacção satírica, mas também toda a imprensa mentirosa alemã. Haverá sanduíches (no fim)!

por Tim Wolff, Chefe de Redacção TITANIC
Perante o horror dos assassínios em Paris é necessário repetir o fundamental sobre a comédia e a sátira. A nossa experiência no Titanic tem mostrado que não são apenas os terroristas islâmicos que desconhecem alguns conceitos essenciais. A comédia é, antes de mais, um meio de reagir ao peso da vida que nos atinge mesmo quando ninguém está a disparar numa Redacção - na melhor das hipóteses, um meio de continuarmos a ser senhores de nós mesmos. E quanto mais difícil for o momento, mais importante é o humor. A comédia cria distância em relação a situações opressivas, permite falar de modo pouco sério do que é seriamente insuportável - e assim combater o pavor. Muitos dos que não entendem a comédia - sejam eles fundamentalistas islâmicos, racistas ou jornalistas alemães medianos - incorrem frequentemente no erro de tentar reduzir uma piada a um núcleo não-cómico, sério (e muitas vezes também baseado num mal-entendido). Uns, porque querem eliminar a piada; outros, porque acreditam que a sátira e a comédia a propósito de temas sérios só são adequadas se forem "valiosas" ou "espirituosas" ou algo do género. Naturalmente é mais bonito quando a comédia transporta uma mensagem sábia, mas mesmo quando isso não acontece ela mantém o seu valor. A maior parte das pessoas devia saber isso, porque o praticam em privado. Muitos dos cerca de cem jornalistas que ontem me contactaram para entrevistas ou comentários, usaram expressões como "não o quero invadir" ou "agora pode disparar em todas as direcções". Qual foi a sua reacção, quando se deram conta do que estavam a dizer involuntariamente e de modo rotineiro? Riram-se. Não porque tivessem feito humor à custa dos humoristas assassinados, mas porque descobriam que as suas expressões habituais, num contexto diferente, ganhavam um significado que não deviam ter. Não se trata de uma mensagem valiosa, mas por uns instantes retirou poder à gravidade do momento.
Talvez seja o motivo pelo qual os fanáticos, em especial os religiosos, desprezam a comédia. Eles representam uma verdade única, eterna e extremamente séria, e o humor - independentemente de quão inteligente ou engraçado possa ser, no caso - ameaça essa verdade. A religião (e algumas outras crenças) é loucura disfarçada de racionalidade; a comédia e a sátira é racionalidade disfarçada de loucura. Não se podem entender. É por esse motivo que os representantes da Santa Seriedade enfrentarão sempre a comédia com raiva. E estão no seu direito. Desde que usem as mesmas armas dos satíricos: palavras e imagens. Em vez de metralhadoras.
A frase "viva o humor!" é cada vez mais importante, nomeadamente a partir dos acontecimentos de ontem. Viva o humor. O inteligente. O pateta. O que fizer rir as pessoas. E para quem não gostar dele, esta resposta é cada vez mais importante: aguentem, ou ignorem. Vocês não se vão tornar donos da comédia!

[Por falta de tempo, não vou traduzir - são piadas sobre a queda do valor das acções da Citroën, e a subida nas empresas Faber-Castell, Edding, Pelikan e sobretudo no grupo francês BIC. Etc.]

Futebol: (...)
Grécia: Sem que o mundo se desse conta disso, anteontem os gregos regressaram ao dracma. À tarde assistiu-se a um milagre económico, ao anoitecer o país soçobrou na decadência, desde esta manhã o Estado-Gyros está oficialmente falido.
Tradição de ano novo: Como todos os anos, ontem Angela Merkel "estendeu-se a fundo no esqui de fundo" (citámos o porta-voz do Governo Steffen Seibert). Os cidadãos alemães são de novo convidados a ir em peregrinação até à cama da chanceler doente, em Berlim, para esfregar o seu cóccix (2014: fractura da bacia). Em especial os adeptos da CDU acreditam que isso lhes trará sorte para o ano de 2015.
Pegida: Os organizadores dos Ocidentais Preocupados preparam para as manifestações da próxima segunda-feira algo realmente especial: tendo em conta o que aconteceu em Paris, e para darem um sinal inequívoco sobre a liberdade da imprensa e da sátira, planeiam fazer um suicídio colectivo no centro de Dresden. Como habitualmente, a imprensa mentirosa não noticia estes factos... 


4 comentários:

Paulo disse...

Também gosto da fotografia. Principalmente do Je t'aime.

Helena disse...

:)
A fotografia foi o que primeiro me chamou a atenção. Depois comecei a ler, e gostei: eles não precisam de ser o Charlie, porque são quem são.
Muita-malucos, pá!

(Não concordo com tudo o que está escrito no texto sério. Mas a liberdade de expressão existe para isso mesmo: para cada um dizer o que pensa. Por isso o traduzi integralmente.)

Vítor Santos Lindegaard disse...

Que não seja por falta do meu like que deixes de nos traduzir coisas, Helena! E não é um like só por interesse, não penses, que eu laico mesmo!

Helena disse...

Pronto, depois deste já não preciso de mais likes.

Hoje estou bíblica: basta um justo como tu, e não destruirei a cidade. ;)