31 janeiro 2015

Richard von Weizsäcker 1920 - 2015




Richard von Weizsäcker era o Presidente da República da República Federal da Alemanha, em 1989, quando vim viver para este país. Um homem com ar inteligente e distinto, de quem todos gostavam. Muitos anos mais tarde encontrei-o na Filarmonia de Berlim, onde ia muitas vezes, e vi-o rodeado de sorrisos: as pessoas gostavam sinceramente dele.

Foi Richard von Weizsäcker quem explicou aos alemães, num discurso que fez no Parlamento por ocasião do 40º aniversário do fim da guerra, que não se tratou de uma capitulação mas de uma libertação. Befreiung - é dele a palavra que os meus filhos usam para falar desse momento.

Morreu hoje, com 94 anos.
No programa dos Filarmónicos de hoje estava a Segunda Sinfonia de Mahler, a da Ressurreição. O concerto foi-lhe dedicado, e começou com um minuto de silêncio.
       


Pouco depois, a magnífica voz da Magdalena Kožená:

Eu venho de Deus e hei-de regressar a Deus!
O Deus da bondade há-de iluminar-me,
Iluminar-me-á até à vida eterna! 

(no vídeo, de um concerto de 1998, esta passagem é a partir de 46:10; no quinto andamento, o coro e solistas estão a partir de 1:09:30:)

Ressuscitarás, sim, ressuscitarás,
Cinza minha, depois de um curto repouso!
A vida imortal 
ser-te-á dada por Aquele que te chamou!
Serás semeada para florir de novo!       
O Senhor da colheita
vai recolher como feixes,
nós, os que morremos!

Crê pois, meu coração, crê!
Nada irás perder!
É teu, sim, é teu o que desejaste,
É teu o que amaste, aquilo por que lutaste!
Crê: não nasceste em vão,
Não viveste, não sofreste em vão!

O que foi, é passageiro
O que passou, tem de ressuscitar!
Não tremas!
Prepara-te para viver!

Ó sofrimento! Tu, que penetras em tudo,
Já te escapei!
Ó morte, tu que tudo conquistas,
Agora estás derrotada!
Com as asas que ganhei,
Na ardorosa luta do amor,
Voarei
para uma luz que olhos nenhuns viram.

Com as asas que ganhei
Levantarei voo
Morrerei, para viver de novo!
Ressuscitarás, sim, ressuscitarás,
Meu coração, em breve!
Aquilo por que bateste,       
Levar-te-á para Deus!  

concerto promenade - andamento alegre e majestoso

Esta manhã, o passeio com o Fox estava como o parque dos palácios de Potsdam no Outono: para onde quer que apontasse a máquina fotográfica, era bonito.

Cruzei-me com uma vizinha que estava a tirar a neve do carro. Disse-lhe "Devia ter trazido a melhor máquina fotográfica" e ela respondeu "Hoje, qualquer máquina serve." Depois viu o Fox, mas não o chamou, para ele não atravessar a rua feito o estabanado que é - atravessou ela, para lhe fazer uma festinha.

Mais à frente, outra vizinha andava de máquina fotográfica na mão, e sorriu-me. "Está lindo, mas temos de nos despachar, que já está a derreter outra vez." Não derreteu logo, mas o sol foi-se embora antes de eu chegar às minhas árvores. Da próxima vez, já sei: passeio e tiro as fotografias antes de limpar a neve do passeio.

(Como são muitas fotografias, pus a maior parte delas em formato pequeno. Podem carregar sobre as fotos para as ver com mais detalhe.)



























corajosa, a Michelle Obama? pfffff...




Corajosa, a Michelle Obama?
Se fosse uma questão de coragem, muito mais corajosa era a Angela Merkel: o casaco que usou na Arábia Saudita era bem mais curto, as calças mais justas, e o decote era uma extravagância desbragada: desnudava-lhe uns bons 2,5 cm² de colo. Na Austrália foi ainda mais ousada, parecia que lhe deu o vírus Je suis Charlie: até um bocadinho do braço mostrava!


(foto)


A onda de admiração que anda pelos jornais e nas redes sociais é um triste sinal da nossa ignorância e arrogância. Tanto queremos acreditar que "eles" são "todos" uns horrorosos machistas retrógrados, que fazemos da Michelle Obama uma heroína, quando ela se limitou a seguir as regras sobre o que é habitual em mulheres ocidentais com altos cargos, ou com maridos que têm altos cargos.
Coragem, o que se chama coragem, teria sido ela cobrir a cabeça em sinal de respeito pelas tradições do país que estava a visitar - porque isso teria dado força aos que nos EUA acusam o casal Obama de serem muçulmanos.
Coragem teria sido ela comparecer na recepção do papa Bento XVI sem cobrir a cabeça. Mas é claro que o véu no Vaticano é uma tradição nossa, não há que questionar, e as moças até ficam bonitinhas com ele, muito elegantes e compostinhas. Um je ne sais quoi même presque rive gauche, e tal.

(foto)

O meu problema é que eu sou muito velha. Lá onde nasci, a minha avó usava lenço na cabeça quando saía à rua. A minha mãe punha um véu para ir à missa, e chamavam-lhe "leviana" porque na igreja se sentava ao lado do marido, e quando lhe apetecia ia ao café com as amigas, e sem nenhum homem da família. Não podia sair do país sem autorização do marido, e tinha uma autonomia jurídica bastante reduzida. No que diz respeito à emancipação feminina, e com maior ou menor quantidade de tecido, a Arábia Saudita está a meia dúzia de décadas de Portugal. Louvemos, pois, a coragem da Michelle Obama: parecemos novos-ricos a rir dos remediados.

hoje descobri no Fox curiosas tendências religiosas





Primeiro ladrou ao boneco de neve, muito desagradado,




depois deu o corpo ao manifesto para livremente exprimir a sua opinião, e tratou de desviar os olhos do pecado.


30 janeiro 2015

violins of hope - histórias de um filme



Queria muito fazer um filme sobre o concerto e a exposição dos "violins of hope" em Berlim. Queria mostrar o trabalho da memória que se faz tão bem na Alemanha, queria que os organizadores revelassem como conseguem lembrar o horror com verdade e dignidade, sem cair na armadilha do patético e na prisão dos sentimentos de culpa.
Queria contar a tensão extraordinária entre a emoção do proprietário dos violinos, cujos pais perderam no Leste da Europa todos os familiares, e a racionalidade do organizador da exposição, um alemão que se dedica a recuperar a música proibida pelos nazis.
Queria mostrar a peça "violins of hope", lindíssima, composta de propósito para este concerto.

Mas, por causa da maldita crise em Portugal, entre outras dificuldades, o filme acabou por não se tornar realidade. No entanto, há coisas que ganhei, e ficam comigo:

Uma conversa com o Guy Braunstein, violinista extraordinário, que me contou a história deste projecto, e repetia "Esperança" com os olhos brilhantes, e se emocionou ao falar dos Filarmónicos de Berlim, onde já foi concertino (dos melhores que esta orquestra já teve). Os olhos dele ao contar sobre o momento em que um violino o escolheu, esse arrebatamento de perceber "é este!". Falava do seu próprio violino, um Stradivarius que veio ao seu encontro em Paris; mas falou também do violino de Auschwitz, que, de toda a colecção do Amnon Weinstein, era o que vibrava de modo mais especial na sua mão. Comentou ainda, num apontamento à margem, algo em que tenho pensado bastante: hoje em dia estamos todos fixados na beleza; não basta ser bom músico, é preciso ser bonito.

Uma conversa com a assistente do director da Filarmonia, que estava instruída para me dizer que não, não me deixavam filmar na Filarmonia. Mas ouviu-me, e no fim, em vez de dizer que não tinha a menor hipótese, pediu-me que enviasse o projecto para apreciação. Sem me dar garantias, deu-me alguma esperança.

Uma conversa com uma equipa de realização, já bem perto do acontecimento. Eu dizia que ia desistir, e eles davam-me ânimo, e números de telemóvel de gente com cargos importantes nas televisões.

Uma conversa com um empresário de cinema, que me ouviu e disse "empresto-te o dinheiro necessário para não perderes a oportunidade de entrar nessa aventura."

Uma conversa com a Katrin Sandmann, que já estava a fazer um filme sobre estes violinos e este concerto. Na corrida, ia claramente à minha frente. Aliás, era por sua causa que a Filarmonia não nos queria deixar filmar - era impensável ter duas equipas de filmagem no concerto. E que faz ela? Telefona-me, e diz-me que posso eventualmente usar parte do seu material.
(Esta mulher é um portento, e ligeiramente louca: filmou a primeira parte do concerto, e em meia hora meteu essas imagens no filme que passou na televisão mal o concerto chegou ao fim.)

Em suma: não fiz o filme, mas a minha confiança na bondade das pessoas saiu ainda mais reforçada.


O filme da Katrin Sandmann pode ser visto na Mediathek do RBB nos próximos dias.
É um documentário doce e poético, com alguns momentos muito especiais. A partir do minuto 15 entrevista a Anita Lasker-Wallfisch, que tocava violoncelo na orquestra de raparigas de Auschwitz (e conta, a partir de 18'18 que alguém da orquestra sabia de cor as notas da Patética, e reescreveu de memória essa peça, com arranjos para uma orquestra de cordas. "Foi incrível: música de câmara em Auschwitz!"); a partir de 24' começa a música - do ensaio geral e da primeira parte do concerto; a 25', Guy Braunstein confessa que está nervoso, como nunca esteve em tantos anos de carreira - e os outros músicos também. O filme termina com o violinista sozinho, prestes a entrar em palco, enquanto a sua voz repete como um mantra "não é para chorar, este concerto não é para chorar".


concerto promenade - andamento em cedo piaste

Quando pensava que a Primavera já vinha ali na curva, nevou.









28 janeiro 2015

violins of hope - o concerto no 70º aniversário da libertação de Auschwitz




Onde começar esta história? Talvez em Yaakov Zimmerman, o luthier de Varsóvia, que ensinou o seu ofício a Moshe Weinstein, que o transmitiu ao filho, Amnon Weinstein. Diz-se que Zimmerman tinha um coração ainda mais excelente que os violinos que fazia. Desapareceu no gueto de Varsóvia. Moshe Weinstein conseguiu fugir com a mulher para a Palestina em 1938. Anos mais tarde, o choque de descobrir que o Holocausto não poupara um único dos seus familiares fez com que nunca mais falasse da família que deixara para trás no Leste da Europa. O filho Amnon, nascido em 1939, comentaria que em criança se sentava à mesa com os pais e quatrocentos ausentes.
Um dia, pouco depois da guerra, um músico entrou na oficina de Moshe Weinstein, para lhe oferecer o seu violino. Era um instrumento alemão, do tempo em que esse músico vivia na Europa e era um artista muito apreciado. Com ele conseguira sustentar-se e aos seus em tempos terríveis, e por ele conseguira fugir para a Palestina, onde se criava a Palestine Orchestra com o objectivo de salvar o maior número possível de músicos judeus, juntamente com as suas famílias. "Se não o comprares, eu deito-lhe fogo!" - Moshe comprou esse violino, e vários outros que lhe foram sendo oferecidos pelos músicos, em boicote dos instrumentos alemães. Esse boicote, curiosamente, tem ainda hoje repercussões: os instrumentos de corda alemães são mais baratos que os outros, porque o mercado se orienta pelos instrumentos dos músicos mais famosos, e muitos deles são judeus. De modo que a colecção de violinos e violoncelos foi crescendo, mas ficou esquecida num canto da loja, uma vez que ninguém os queria comprar.
Amnon herdou a colecção do pai, e o seu trauma. Durante muitos anos evitou olhar para o abismo que atravessava a sua história. Até que um dia entrou na sua loja um homem que tocara violino em Auschwitz. Queria que Amnon arranjasse o instrumento, para o dar ao neto. O luthier descobriu na madeira as marcas do uso à chuva e à neve. Depois abriu-o, e da caixa caíram restos de cinzas.

Ontem ouvi estes instrumentos na capital do país que quis calar para sempre os seus proprietários: um concerto único, inesquecível, para lá de todas as palavras.

Tocaram o Adagietto da 5ª de Mahler, Melodias Hebraicas op. 33 de Joseph Achron, o Adagio de Kol Nidrei de Max Bruch, o Andante do Concerto em Lá menor de Bach, a Elegy for String Orchestra de Samuel Adler (o compositor veio ao palco), o Adagio do Romance para violino e orquestra nº 2 em fá maior op. 50 de Beethoven. No final, apresentaram "Violins of Hope", uma peça de Ohad Ben-Ari composta especialmente para este concerto (1. A questão; 2. Guerra; 3. Tocar, sem palavras; 4. Sirene; 5. Lágrimas; 6. Violins of Hope.)

Para mim, o momento mais insuportavelmente belo da noite foi quando Ulrich Matthes, num lugar discreto por trás da orquestra, leu esta passagem de Elie Wiesel:

Je réfléchissais lorsque j'entendis le son d'un violon. Le son d'un violon dans la baraque obscure où des morts s'entassaient sur les vivants. Quel était le fou qui jouait du violon ici, au bord de sa propre tombe ? Ou bien n'était-ce qu'une hallucination ?
Ce devait être Juliek.
Il jouait un fragment d'un concert de Beethoven. Je n'avais jamais entendu de sons si purs. Dans un tel silence.
L'obscurité était totale. J'entendais seulement ce violon et c'était comme si l'âme de Juliek lui servait d'archet. Il jouait sa vie. Toute sa vie glissait sur les cordes. Ses espoirs perdus. Son passé calciné, son avenir éteint. Il jouait ce que jamais plus il n'allait jouer. 
Je ne pourrais jamais oublier Juliek. Comment pourrai-je oublier ce concert donné à un public d'agonisants et de morts ! Aujourd'hui, encore, lorsque j'entends jouer du Beethoven, mes yeux se ferment et, de l'obscurité, surgit le visage pâle et triste de mon camarade polonais faisant au violon ses adieux à un auditoire de mourants et de morts.
Je ne sais combien de temps il joua. Le sommeil m'a vaincu. Quand je m'éveillai, à la clarté du jour, j'aperçus Juliek, en face de moi, recroquevillé sur lui-même, mort. Près de lui gisait son violon, piétiné, écrasé, petit cadavre insolite et bouleversant. 

Elie Wiesel, La Nuit, 1958




A luz saiu de Ultrich Mathes. À frente do palco Guy Braunstein ergueu o violino e começou a tocar - a tocar no violino que traz nos poros as cinzas de Auschwitz - a tocar como só ele consegue, junto à nascente frágil e teimosa da sua própria esperança.

(Neste site há excertos do ensaio geral e algumas entrevistas.)


desleixo parental - uma sequela



Desleixo parental, escrevia eu num post anterior - e devia ter sublinhado. Confundi México com New Mexico. O Matthias perdeu o avião e passou a noite num aeroporto americano. Embora isso não faça assim tanta diferença: calculo que o chão seja igualmente duro.
Para quem acompanha esta saga, um update: passou uma noite à espera que os guichets das companhias de aviação abrissem, a United abriu e mandou-o para a Lufthansa, eu disse-lhe que a Lufthansa lhe devia ter arranjado um quarto num hotel e que o mínimo que ele devia exigir, além da ligação para San José, era um voucher para o restaurante e uma escova de dentes, a Lufthansa abriu e arranjou-lhe a ligação (mas não sei se também lhe deu o tal voucher).
O coordenador do programa, aqui em Berlim, mandou uma mensagem ao Matthias, ao responsável em San José e a mim dizendo a que horas é que o rapaz chegava e a pedir para confirmarmos que tínhamos recebido a mensagem e que o podíamos ir buscar ao aeroporto. Eu (a minha bocagrande!) agradeci a informação, confirmei que tinha recebido a mensagem, mas não podia ir ao aeroporto. O coordenador respondeu perguntando se não era normal na Costa Rica irem buscar os voluntários, e se o Matthias sabia como ir ter com a família que o esperava. Oooops! Expliquei que sou a mãe do voluntário e era uma piadinha, e ele pediu desculpa pelo mal-entendido - tinha passado a noite em claro, por causa de todos os problemas ligados à vaga de frio nos EUA, e as dezenas de voluntários que estavam a caminho da América Central nesse dia.
Entretanto eu disse ao Matthias que tinha de sair por umas horas, mas que se ele precisasse de mim ficava em casa, ligada a ele por este cordão umbilical do facebook.
Resposta: "Não preciso de nada. I'm a strong black independent woman!"
A Christina corrigiu-o: "You're a  strong black independent and BEAUTIFUL woman!
Eu sabia que este ano de trabalho voluntário no estrangeiro os muda muito, mas ignorava que os mudava tanto e tão depressa.

Entretanto já chegou, diz que a família é muito simpática e acolhedora, e nunca mais ouvi nada. Deve estar a dormir como alguém que fez uma directa na véspera da saída e depois passou 36 horas em bolandas para conseguir chegar ao destino.


27 janeiro 2015

27 de Janeiro de 1945 - libertação de Auschwitz










 A ARD escolheu Esther Bejarano, uma prisioneira que tocava na orquestra de Auschwitz, para assinalar este dia. Uma mulher com uma vitalidade impressionante, que conta que em Auschwitz decidiu sobreviver para se vingar. E vinga-se bem, diz ela: vai às escolas contar o que viu e viveu.

Traduzo (rapidamente) partes de uma entrevista que deu à ARD. As fotografias são do mesmo site.

Esther Bejarano era uma jovem mulher quando foi deportada para Auschwitz. Um lugar na orquestra feminina salvou-lhe a vida. Em conversa com o tagesschau.de conta o que sofreu no campo e como viveu a libertação. 


- O que significa o 27 de Janeiro para si?
- É o dia da libertação de Auschwitz, e do princípio do fim do fascismo de Hitler. Mas nesse dia em Auschwitz não havia muitos prisioneiros. Apenas os que não podiam andar, ou estavam demasiado doentes para sair nas marchas da morte. Os que estavam nas marchas não foram libertados nesse dia. Foi um grande dia, mas não foi ainda a libertação completa.

- Onde estava a 27 de Janeiro de 1945?
- Já não estava em Auschwitz. Os nazis tinham seleccionado os chamados „Mestiços" – e eu tinha uma avó cristã. Por isso, depois de sete meses em Auschwitz, fui enviada para o campo de Ravensbrück com 70 mulheres que também tinham pais ou avós “arianos”. Era um campo de concentração para mulheres horroroso, mas não era um campo de extermínio. Fui libertada em Maio de 1945. Estávamos numa marcha da morte, em Mecklenburg, eu e sete mulheres que também tinham vindo de Auschwitz para Ravensbrück. Não sabíamos para onde nos levavam, e ouvimos um SS dizer a outro que já não podiam disparar. Foi aí que decidimos abandonar a marcha. Uma após a outra fugimos para a floresta. Vagueámos pela região e acabámos por chegar a uma quinta. Deixaram-nos dormir num palheiro. No dia seguinte o lavrador veio ter connosco e disse „Se forem para a esquerda encontram os americanos, se forem para a direita encontram os russos.” Mas não tivemos de tomar nenhuma decisão, porque nesse momento apareceram dois tanques americanos. Mostrámos aos soldados os números tatuados no braço. Os soldados içaram-nos para os tanques e levaram-nos para Lübz, onde nos convidaram para ir a um restaurante. Eu e uma amiga minha sabíamos inglês e contámos o que tínhamos vivido – inclusivamente sobre a orquestra de raparigas de Auschwitz. Daí a pouco entrou um soldado com um acordeão e disse que era altura de cantar. A seguir ouvimos uma grande barulheira na rua: soldados do Exército Vermelho tinham entrado na aldeia e anunciavam que o Hitler estava morto e a guerra tinha terminado. Os soldados americanos e russos festejaram juntos e queimaram uma grande fotografia do Hitler, enquanto eu tocava acordeão. Foi fantástico.

- Antes da libertação, das marchas da morte e de Ravensbrück, esteve em Auschwitz. Havia lá algo parecido com uma normalidade quotidiana?
- Naturalmente, havia um quotidiano, e era horroroso. Trabalho – no princípio tinha de carregar pedras. Das sete da manhã às sete da noite. As pedras eram imensamente pesadas e eu era uma miúda pequena e frágil. Tinha mesmo de sair dali – e tive sorte. Uma noite um dos prisioneiros veio em busca de mulheres que tocassem algum instrumento. Disse logo que sabia tocar piano. Mas não havia pianos Auschwitz. Ele disse que havia um acordeão, e eu devia tocar nele "Du hast Glück bei den Frauen Bel Ami". Nunca tinha tocado um acordeão, mas menti e disse que já não tocava há muito e precisava de alguns minutos para me habituar de novo. Fui para um canto da barraca experimentar. A mão direita não tinha problema, porque é como no piano. Mas o acompanhamento na mão esquerda – não fazia a menor ideia. Um dos botões estava marcado, era o dó maior. A partir daí, descobri os outros. Finalmente, toquei a música que queriam, e aceitaram-me na orquestra. Caso contrário, teria sido o meu fim.

- Quando é que os SS de Auschwitz deixavam tocar uma orquestra?
- Punham-nos ao portão a tocar quando as colunas de trabalho saíam de manhã e regressavam à noite. Mais tarde, ocorreu-lhes que também devíamos tocar quando chegavam os transportes da Europa, em cais diferentes. Nós sabíamos que estas pessoas iam directamente para as câmaras de gás. Elas acenavam-nos. Provavelmente pensavam que um lugar onde há música não pode ser muito mau.

- 70 anos mais tarde, a música ainda é muito importante para si. Faz parte da banda Microphone Mafia. O que há de especial nesta banda de rap?
- Na Microphone Mafia encontram-se três gerações e três religiões num palco. Entre outros temos um muçulmano, um católico – e eu e o meu filho, que somos judeus. Queremos ser um exemplo para todos os que pensam que as pessoas que têm raízes diferentes não podem viver em harmonia umas com as outras. Nós entendemo-nos lindamente.


primeiras conclusões sobre a vitória do Syriza:

Deixa-me é comprar rapidamente as passagens de avião para a Costa Rica, para irmos visitar o rapaz, que o euro está a perder valor e sei lá se as companhias de aviação fazem as contas em dólares.

Ai, espera, as companhias de aviação dependem do preço do combustível, e o petróleo começou outra vez a encarecer por causa da morte do rei Abdulah. Portanto: primeiras conclusões sobre a morte do rei Abdulah: deixa-me é comprar rapidamente as passagens de avião para ir visitar o rapaz.

Ontem vi na televisão alemã vários políticos europeus e cá da terra a fazer pocker face: Oh, estamos descansadíssimos, oh, não há motivo nenhum para estarmos preocupados. Obrigadinha, obrigadinha, pode ser que assim as minhas passagens de avião não fiquem mais caras.

Também vi um bocadinho do "Hart aber Fair" (aqui, em alemão), com a conversa do costume, "a Grécia tem de fazer reformas", "a Grécia já recebeu muito e continua a receber", mas também uma alemã que vive na Grécia há 14 anos e conta como é o dia-a-dia. Por exemplo, a empresa na qual o marido trabalha: com pessoal excelente, com projectos excelentes, mas completamente bloqueada porque nenhum banco lhes concede crédito para avançar com os negócios. E uma Sarah Wagenknecht, dos Linke, assertiva e confiante. Gostei muito de algumas das suas intervenções: quando falou de uma nova Europa, mais unida e mais social, e quando disse que era perfeitamente legítimo o governo grego expropriar 1/3 das posses dos mais abastados, tal como se fez na Alemanha no fim da guerra.

Eu a gostar do que os Linke dizem?! Não me digam que a eleição do Syriza iniciou um dominó esquerdista que até a mim vai arrastar?! A ver vamos.


pequeno elogio do desleixo parental

Por causa da tempestade de neve que está a provocar o caos nos aeroportos americanos, mandaram o Matthias para a Costa Rica por outra rota - a do México. Mas não lhes ocorreu que tinha de correr tudo mesmo muito bem para lhe dar tempo de recuperar a mala, passar a fronteira, arranjar um bilhete, passar a fronteira, e apanhar o avião para San Jose. De modo que perdeu a ligação e passou a noite no aeroporto do México, rodeado de malas. Esta manhã tinha uma mensagem dele no facebook: a avisar que já tinha internet e que estava bem, e a dizer que ia exigir à Lufthansa uma passagem gratuita porque foi a funcionária em Berlim que fez mal as contas. E repete: "Mas estou bem! :)"

Portanto: está do outro lado do mundo, praticamente sem dinheiro e sem bilhete para seguir viagem, passou a noite no aeroporto, e a sua primeira preocupação é descansar os cotas.

(Eu sabia que todos estes anos em que não lhe perguntei se tinha deveres para fazer ou pela data dos testes, nem lhe disse "vai estudar piano" e "vais chegar atrasado ao futebol!", todos estes anos em que desleixei o meu dever de lhe fazer a papinha iam ter algum resultado positivo.)


25 janeiro 2015

we'll always have lullabies


Porque é que o raixparta do Chico Buarque tinha de escrever o raixparta do poema Oh Pedaço de Mim? Porque é que eu tinha de o aprender de cor? É o meu ear worm agora que o Matthias está a partir para um ano de voluntariado na Costa Rica, triste vida.
Em resposta, o Matthias trauteia "não posso ficar, não posso ficar..."
Cantigas de amigo.

Ontem tivemos um jantar de despedida, e os dois pediram que cantasse a sua canção de embalar preferida. "A minha", disseram. Era a maneira de fechar o dia em paz com cada um deles, devem ter ouvido essas canções mil vezes. Ontem quiseram voltar a um lugar onde foram felizes - e eu cantei, fazendo das tripas coração.
No início desta nova fase da vida, é bom saber que we'll always have lullabies.

Lullabies, já as temos. Chegou o tempo de descobrir música nova, inventar outras pontes entre nós.
O Matthias anda a tentar entusiasmar-me para a música electrónica. Espertinho, mostrou-me isto, sugeriu que a Filarmonia de Berlim fizesse o mesmo:



E assim vai a vida.


24 janeiro 2015

Fanatika 2015

Peça do programa satírico Extra 3 de 22.01.2015 (vale a pena ver tudo - mas é em alemão).
Se me explicarem como posso pôr legendas em português no filme, eu traduzo. Para já, deixo a tradução em texto.



Fanatika 2015 - aqui apresentam religiosos extremistas e também organizações sem fins lucrativos novos produtos e tendências.
Há CDs dos "quatro fanáticos", radicalendários com as datas de tumultos mais importantes, ou, para os extremistas mais novos, o "Salafinho", a divertida mascote dos salafistas.

- Bom dia, como é o seu nome?
- Hassan.
- Hassan com um S?
- SS.
- SS? Fantástico! O meu avô também era desses, posso contar-lhe algumas coisas.

- Bom dia, onde é o pavilhão doj ijlamijtas? [sotaque suábio]
- Por causa da afluência, este ano estão no pavilhão 2, que é o maior. Passe ao lado do pavilhão 1, o dos nazis, e logo a seguir a um pequeno stand com muitas cores do Hamas tem uma porta à esquerda, e já está no pavilhão 2.
- Muito bem, obrigado.

Este jovem visitante da Feira é o Winfried Schafbäcker, está desempregado há três anos, não tem namorada e a sua personalidade é bastante instável. Procura na Fanatika novas oportunidades de carreira.

[Canção:] Vai para o ISIS, meu amigo, / Não tens jeito para nada, / Então começa por fazer todas as loucuras

Winfried começa por se dirigir ao stand do ISIS para se informar sobre a profissão de mártir. Aqui acena-lhe uma fantástica carreira como carne para canhão, se estiver disposto a fazer atentados suicidas.
- ...e no segundo atentado o pagamento é ainda melhor.
- Parece-me bem.

- Ei, irmão! Não vás para a cópia barata! Anda para o original! Anda para a Al-Qaeda!
- Ei, ei! A Al-Qaeda está a perder poder de tal maneira que é o HSV das organizações terroristas!
- Seu filho de uma cabra sem mãe!

- Ei, tu: devias vir para o Boko Haram.
- Hahahahaha

- Desculpe, onde são os colonos judeus radicais?
- Pavilhão 7.

Agora é o momento de comparar ofertas...
- Mas olhe que o seu colega do ISIS prometeu-me 73 virgens.
- 73 virgens? Um momento, tenho de falar com o chefe... (....) OK, oferecemos-lhe 74 virgens.
- 74, não me parece mal. Mas têm mesmo essas virgens todas para tantos mártires?
- Oh, temos sempre virgens que chegue. Não é, Fátima?
- Claro que sim.

- Esta é a minha última oferta: 75 virgens, e um saco de tâmaras.
- Tâmaras? Negócio feito!

A Fanatika 2015 continua aberta até ao fim do ano.


22 janeiro 2015

Berlin interiors

Tenho estado a ver o BnB de Berlim, e estou fascinada: agarrem-me, que me apetece mudar para as casas dos outros!
(Ou isso, ou arrumar e limpar a minha, para ficar mais ou menos parecidinha...)

As fotografias estão com pouca definição - nos respectivos links estão muito melhores, e há mais para sonhar à vontadinha.
(Será que uma simples vassoura me transportará para um lugar de sonho como estes? meu reino por um aspirador!)