27 dezembro 2014

Natal feliz








Conseguimos pôr a árvore de pé e fazer a decoração um bom par de horas antes da Consoada. 

Por ter um cão enorme cá em casa, muito dado a alegrias e poderosas abanadelas de rabo, optei por pôr o presépio em cima do piano. Por trás do piano há vários quadros de nus femininos, e um deles tão explícito que a Christina até me pediu para disfarçar um bocadinho, por causa de pessoas mais sensíveis que possam frequentar a nossa casa. Disfarcei a nossa "origem do mundo" com orquídeas, pior a emenda que o soneto.
Pois foi lá que pus o presépio, mas até para mim é uma alegoria demasiado forte ter uma "origem do mundo" a servir de cenário ao presépio. De modo que não iluminamos muito a sala, pode ser que ninguém repare. A sagrada família não vê - os pais estão de costas para as poucas-vergonhas, e o menino Jesus só tem olhos para nós, que é ao que vem.



(As velas acima da linha de alcance da cauda da Noomi, e um recipiente cheio de água ao lado, porque nunca se sabe...)




Este Natal temos cá a minha sogra e a família de quem eu fui au-pair há quase um quarto de século. Éramos dez pessoas à mesa, e todos ajudaram a preparar o jantar (só estragaram um bocadinho a cozinha magnífica). Sabe tão bem sentar-me a uma mesa cheia sem o cansaço de a ter enchido sozinha!

A cantoria tradicional junto à árvore com as velas acesas correu mais que bem: chorámos a rir. Já nem me lembro porquê, mas chorámos a rir enquanto cantávamos aquelas canções lindíssimas, como Adeste Fideles e Es is ein Ros'entsprungen. O menino Jesus deve ter gostado. Mesmo quando cantámos "Ovi lacht" ("o Ovi ri" em vez de "oh, como ri!") na Noite Feliz.
Depois a Christina cantou The Twelve Days of Christmas, que me deixa sempre surpreendida e encantada, porque apesar da letra dificílima e da melodia nada fácil, ela consegue dar a esta canção uma poesia que passou ao lado do Bernstein num CD que cá temos. (Porque é que eu não consigo deitar fora os CDs que me irritam?)

Também rimos ao ler o Evangelho, porque o Joachim não se tinha preparado e ia começar a ler a extensa genealogia de Jesus. Desatámos todos a protestar, mas eu aproveitei a deixa para falar das tataravós de Jesus, a prostituta e a estrangeira, de modo que eles aprenderam algo que não sabiam e eu pude fazer um brilharete com uma das poucas coisas que sei (sou um bocadinho como o Adrian Mole, uma especialista em indústria norueguesa de curtumes, e fico sempre contente quando arranjo audiência para os meus temas tão interessantes).

Sobre as prendas, a única coisa que vale a pena mencionar é que as melhores são as feitas à mão, e as cartas que escrevemos para as acompanhar. Numa sociedade de abundância, o mais valioso que se pode oferecer é o tempo e o amor posto na confecção de um presente. Ficámos todos muito impressionados com a prenda que a "minha menina au-pair" deu ao irmão - um rolo de "papel" de cozinha costurado: uma longa tira de quadrados com um lado de felpo absorvente e outro lado de tecido colorido, presos com velcro uns aos outros, e enrolados como um rolo de papel. Horas e horas e horas de trabalho para oferecer ao irmão, que algum dia comentara que os rolos da cozinha são um enorme desperdício de papel.



(Esta não é a minha casa, mas fotografei para copiar no próximo ano: uma corda com os saquinhos dos presentes de advento, e por cima uma fieira de luzes. Tão simples e tão bonito.)

 

No dia 25 fomos à missa da comunidade de língua portuguesa, com músicas africanas e tradicionais portuguesas. O padre ofereceu-nos uma bela homilia, com alguma escatologia natalícia: a parte em que lembrou que Jesus não nasceu num cantinho idílico como nos habituámos a imaginar o presépio, mas num estábulo a tresandar a esterco de vaca: o pior sítio que se podia imaginar.
No fim cantámos Noite Feliz em alemão e português. Em alemão bem foi. Mas o português deu-me uma tareia, porque de repente tinha outra vez cinco anos, era enfim meia-noite e avançávamos num grupo enorme com os avós, os tios e a criada-avó Bina pelo corredor estreito para a sala onde estava o pinheiro, e o Pai Natal deixara os presentes. A voz segura e clara da minha mãe cantava "Dorme em paz, ó Jesus" sem a mínima hesitação naquele fá agudo. Tudo era perfeito como é perfeito o Natal aos cinco anos, e tudo estava tão irrecuperavelmente longe. Mas logo a seguir veio a estrofe em alemão, e eu recuperei o pé.





E ao terceiro dia  - ontem - nevou. A seguir o céu abriu-se muito azul. Fui ao quarto do Matthias (que esteve na conversa com os outros até às quatro da manhã) buscar o Fox e levei-o a passear na sua primeira neve do ano.  
Depois a neve derreteu.
Esta manhã havia "flores de gelo" nas janelas. O sol arrumou com elas num instante.
Estes dias quatro-estações são um bocadinho estranhos.
Mas foram dias felizes, isso sem dúvida.

(Apesar de certas picadas venenosas, não digo de quem. Só para que conste que no nosso Natal também houve veneno familiar como no de todas as famílias normais. Por sorte não veio de alguém que me seja realmente importante.)



10 comentários:

Pedro disse...

Não sei por onde comece: pela beleza da vossa árvore ou da do Fox; se pela vossa Origem do Mundo, que fica muito aquém, em termos pornográficos, Santa Teresa de Bernini, se das picadas venenosas, que também marcaram o Natal cá de casa.
Há quem critique a hipocrisia desta quadra; eu continuo a ver pelo lado positivo, que ao menos nesta quadra se faça um esforço para encurtar distâncias (sejam elas físicas ou não). Infelizmente nem toda a gente pensa assim... mas são opções e respeitá-las é perceber também que não somos responsáveis pelas opções dos outros.
Feliz Natal :)

(vou querer saber melhor essa genealogia de Cristo, que me estou a sentir um verdadeiro ignorante)

Helena disse...

hehehe

A beleza da nossa árvore: descobri que na casa nova dá-lhe o sol (quando há sol) que é uma beleza.
O Fox: olha que neste post há dois cães. O Fox é o mais amarelinho. :)
A Noomi é linda, mas tem cá uma energia e uma força! Levei os dois a passear ao lago, e ia dando em maluca. Na rua gelada e lisa parecia que ia a ser puxada por um cão de trenó, mas sem trenó...

A diferença entre a nossa origem do mundo e a Santa Teresa é que na do Bernini ela está a ver coisas e na nossa quem está a ver coisas somos nós... ;)
(conheces a Beata Ludovica Albertoni em Trastevere?)

Esta manhã falhou-me o espírito de Natal, e desta vez não me fiquei. O espírito de Natal tem de ser de parte a parte, não pode ser só uns a dar as bicadas e os outros a receber mansamente, como se fosse essa a ordem natural das coisas. Tempos houve em que pensava "vou transformar isto numa história para me rir com as minhas amigas" - mas quando é demais é demais.
E é isso mesmo: não somos responsáveis pelas opções dos outros. Mas somos responsáveis por lhes darmos sensação de que se podem espraiar à vontadinha sem haver consequências.
Hoje houve. Parece que nos próximos tempos vou ter sossego.

A genealogia de Cristo: vem logo no princípio de Mateus, Raab (a prostituta que escondeu espiões dos israelitas) e Rute (a mulher que depois de enviuvar acompanhou a sogra de regresso à terra desta).
A terceira mulher referida nesta passagem é a mulher de Urias, a inocente que o rei David cobiçou (e por isso arranjou um estratagema para matar o marido).
(Podes procurar as histórias na internet)

Helena disse...

E feliz Natal, claro!
Mesmo que não seja perfeito. :)

jj.amarante disse...

Ambiente acolhedor, muito belas flores de gelo, o post aos amigos que escrevem também foi de mestre!

Helena disse...

Obrigada, jj.amarante.
O seu Natal também teve um ambiente acolhedor, tenho a certeza!
(ainda tenho presente aquela mesa de lanchinho que uma vez mostrou no seu blogue - quem põe uma mesa assim é bem capaz de fazer um Natal feliz!)

camalees disse...

Lena, que descrição tão bonita ( mais veneno, menos veneno). Adorei o cenário escolhido para o presépio. O menino-Deus e a Origem do Mundo é de antologia.

Um grande beijinho

Ceridwen disse...

Estava tudo maravilhoso, mas confesso a minha estupefação face ás velas na árvore. Nunca tinha visto - e, na verdade, acho que acreditava que só mesmo em postais é que os pinheiros de natal eram iluminados com velas. Fica mesmo maravilhoso. Acho que cá nunca vi à venda - velas com suportes próprios para pinheiros (digo eu). Talvez possa ser comum para outras pessoas, para mim, perceber que era mesmo possível ter velas numa árvore de natal, foi um momento quase mágico.
Mas, por falar em pinheiro... a vossa árvore de natal é mesmo um pinheiro de verdade? Se sim, diz-me que pode ser transplantado. Já há imensos anos que não acontece, mas recordo-me da angústia que sentia todos os anos ao ver dezenas de árvores abandonadas junto aos caixotes do lixo, logo nas primeiras semanas de Janeiro. Aproveito para desejar já um bom ano :)

Helena disse...

Ceridwen,
gulp... não pode ser transplantado.
Dizem que é levado para o jardim zoológico e que os animais fazem um festim. Não sei. Imagino que também possa ser aproveitado para lenha e energia.
Porquê essa angústia?
Dantes íamos à floresta buscar um dos pinheiros que o guarda florestal escolhia para libertar espaço para os outros crescerem. Agora compramos os pinheiros que se vendem por aí. Qual é a diferença entre um campo de pinheiros para vender no Natal e um campo de tulipas ou outras flores quaisquer?

Ceridwen disse...

Helena,
O meu avô materno era resineiro (nem sei bem se é assim que se diz), mas ele colhia a resina dos pinheiros. Aprendi que são árvores de crescimento muito lento, que demoram anos a atingir a maturidade e a ter troncos robustos de onde escorre resina quando se golpeia. Costumava brincar com os líquenes que cobriam os troncos grossos. Julgo que foi com o meu avô que aprendi a amar pinheiros. Na verdade, nunca tinha pensado nisto desta forma, no sentido de amar esta árvore. Há anos que não vejo pinheiros com o vasinho da resina, os que vejo são todos demasiado novos, de tronco fino. Vi a minha avó derramar lágrimas quando os camiões passaram em frente à nossa casa carregados com os pinheiros queimados de um dos muitos incêndios que assolaram a região. Tinham sido plantados por um seu antepassado, fazia muitos anos. Pinheiros muito altos, largos, lindos, agora reduzidos a um tronco negro desvalorizado. Já não temos pinhais. Fico enternecida quando vejo pregado no chão um pinheiro bebé. Talvez seja por me lembrar que o meu avô dizia serem necessárias décadas para a árvore ser adulta. Talvez seja por isto tudo que me angustiava ver toda aquela potencialidade no chão no início do ano, após o natal. Pensar que se havia interrompido o crescimento de uma jovem árvore apenas por um mês. Isto (os despojos do natal) acontecia na cidade. Na zona rural, em alguns anos, durante o verão, os montes cobriam-se de negro dos incêndios. Talvez seja por isto tudo que sinto mesmo angústia quando vejo pinheiros abandonados - certamente, que se passará algo similar com outras árvores, não sei, mas eu tenho este particular apego ao pinheiro, pese embora adore árvores no geral; as tulipas ou outras flores não demoram décadas a ser adultas.

Helena disse...

Estamos a falar de coisas diferentes, não é?
Eu falo a partir da Alemanha, com uma paisagem florestal fabulosa e sem incêndios, onde as árvores cortadas para o Natal são de plantações próprias para esse fim ou então cortadas na floresta para dar espaço para as outras crescerem bem.
Os pinheirinhos de Natal na Alemanha não são as últimas vítimas de uma espécie em vias de extinção.