03 setembro 2014

portas abertas



No fim-de-semana passado a Chancelaria abriu as suas portas para deixar entrar o povo. O costume: "visita de Estado", tapete vermelho, banda de música, aparato de motas e carros de luxo, passar por dentro do helicóptero da chanceler, etc. etc. - e ainda a comidinha e o palco no jardim ao longo do rio Spree. Já lá estive duas ou três vezes, já quase podia fazer as visitas guiadas, mas resolvi ir de novo, com uma amiga, mais para a acompanhar que por curiosidade. Ora bem: sabem aquelas histórias com moral tipo "faz o bem, e Deus te dará a recompensa"? Pois é: este ano comemoram-se os 25 anos da queda do muro, e no palco havia pessoas que ajudaram cidadãos da RDA a fugir: o que construiu o túnel 29, o que deu um jeito a um Cadillac para esconder pessoas no tablier, o que acompanhava grupos de fugitivos e ajudantes. De modo que eu, que estava ali só para a minha amiga não ir sozinha, dei comigo a pedir-lhe que se calasse e se desenrascasse como pudesse, porque queria ouvir aquela conversa.
(Se um dia resolvem escrever as sequelas daquelas tais histórias moralistas, vou passar mal.)

O túnel 29 foi feito para ajudar uma família a fugir da RDA, e nele trabalharam dezenas de voluntários dia e noite. Contava um dos seus operários: "fizemos vários erros, por exemplo, cavámos demasiado perto da superfície, e furámos as canalizações. De repente, o nosso túnel começou a encher-se de água. Com o coração nas mãos, fomos falar com os serviços camarários, na esperança de encontrar um berlinense às direitas que nos ajudasse sem fazer perguntas. Tivemos sorte. Mandaram logo um grupo de operários, sem quererem saber como é que nós descobrimos que havia ali um cano rebentado."


O dono do Cadillac era uma figurinha. Bem disposto, divertido, explicava como modificou o carro para esconder as pessoas no sítio mais improvável, e a seguir reconheceu que esse não tinha sido o seu melhor truque. O melhor - e ele nem conseguia explicar como é que funcionava - era o de passar duas vezes a fronteira com dois passaportes diferentes, para no regresso poder trazer um fugitivo.
- E o momento mais perigoso que viveu nessa altura?, quis saber a moderadora.
- Ia ajudar uma estudante de medicina - como eu - a fugir. Mas ela queria trazer uma caveira humana, porque era muito cara, e significava muito para ela. Eu disse-lhe que aquilo era capaz de correr mal, e que nesse caso tínhamos de fazer de conta que éramos namorados. Fomos apanhados, e eu fui interrogado durante várias horas. Armei-me em apaixonado, fiz fitas parvas, fartei-me de contar mentiras. E quando finalmente me deixaram sair, com a temeridade dos palermas, que tinha na altura, virei-me para a polícia e perguntei "e se eu tivesse estado a mentir-lhe o tempo todo?" Ela pensou um pouco, e respondeu "somos capazes de fazer uma boa avaliação das pessoas" - e mandou-me sair. Só duas semanas mais tarde é que a Stasi descobriu que tinham estado a interrogar um dos elementos mais activos da ajuda às fugas de cidadãos da RDA.
- E qual o momento mais memorável?, perguntou ela.
- Foi quando tentei encaixar uma grávida de nove meses debaixo do tablier do carro. Não havia maneira de o fechar sobre a barriga dela. Mas ela insistia: "tentem, não desistam, que eu quero fugir daqui para fora". Passados quinze dias enviou-me um postal que me comoveu: "o meu bebé conquistou o seu caminho para a liberdade a gritar."

O terceiro participante do debate lembrou factos importantes: que as coisas não eram a preto e branco, que os maiores traidores estavam entre os alemães ocidentais, que a determinada altura o Erich Mielke juntou os responsáveis do muro para lhes ralhar, porque era inacreditável que os seus soldados precisassem em média de mais de sessenta balas para acertar num fugitivo, quando nos campos de treino três balas bastavam para atingir o alvo. Falou também de um soldado morto num episódio de fuga, que a RDA transformou em herói nacional, e depois da queda do muro se soube que fora afinal morto pelos seus próprios camaradas. Lá foi preciso mudar o nome a tantas ruas. Mas foi porque não me deixam mandar, porque, por mim, devia ficar mesmo assim: vítima é vítima, e qualquer vítima da estupidez do muro devia ter direito a nome de rua.

Como tantas vezes em Berlim, o confronto com a História não nos roubou a alegria. Estava-se bem no jardim da Chancelaria, a ver passar os barcos. A ver como as árvores já se começam a tingir de Outono, nesse dia de céu azul glorioso.








2 comentários:

manuelpereirabarros Meira disse...

Sabes quantas pessoas passavam,por dia,no Charlie Point? Não deves saber,mas eram mais de meio milhão!!! Grandes coisas estes teriam para esconder, a ponto de fazerem um túnel!

Helena disse...

Manuel, não percebi o comentário.
Eu estou a falar de pessoas que fugiram da RDA, depois da construção do muro.
Antes da sua construção era bastante mais fácil fugir, é verdade. Conheço um casal que atravessou simplesmente a fronteira, com o filho bebé - e sem nenhuma bagagem, excepto uma fralda limpa para o pequenito, para não levantar suspeitas.
Em que altura da história da RDA passavam pelo Charlie Point meio milhão de pessoas por dia? Quem eram essas pessoas, e que medidas é que a RDA tomava para que elas não fugissem?