04 março 2014

"Mein Kampf für mein Land"

(Estava eu aqui a tentar lembra-me das referências irónicas que há na Viagem a Tralalá aos tártaros da Crimeia, e eis que descubro que o Kaminer escreveu no seu blogue, muito a sério, a propósito da crise da Crimeia. O que se segue é uma tradução, rápida como de costume, desse texto)



A minha luta pelo meu país




Envergonho-me do meu país que, seguindo irresponsavelmente aquele que se diz presidente, está a conduzir o mundo para uma guerra. Não, nem todos os russos rejubilam com a invasão russa da Ucrânia, é óbvio que as pessoas na Crimeia não querem ser governadas por uma unidade armada. Dificilmente se encontram dois povos mais próximos que os russos e os ucranianos.

Ando há anos a lutar, aqui na Alemanha, para defender o bom nome da minha gente. Não, repito eu nas entrevistas, nem todos os russos são homofóbicos, nem todos são racistas, nem todos apoiam os jogos de guerra do presidente. Os anos passam, e torna-se cada vez mais difícil defender a Rússia.

Sempre que vou à Rússia, pergunto aos meus amigos: "que se passa aqui? Como é que vocês conseguem viver assim? A liberdade de expressão, melhor dizendo, qualquer tipo de liberdade é reprimido, na televisão mentem com quantos dentes têm na boca, vocês não vêem como as pessoas andam nas ruas, olham em volta a cada cinquenta metros para verificar se não estão a ser seguidas?" "Sim, isso vemos nós, não somos parvos", dizem os meus amigos. "Mas porque pensas tu que a liberdade iria salvar estas pessoas? Que liberdade? E de quê? As pessoas daqui não precisam de liberdade, precisam de créditos baratos e apartamentos que consigam pagar, e o Putin dá-lhes isso. Tudo o resto são valores ocidentais, que nos são impostos para confundir os espíritos fracos. Ninguém precisa de liberdade aqui, a não ser os homossexuais, os menores e um par de jornalistas. Nunca foi de outra maneira, e nunca será de outra maneira. Só assim é que este país pode funcionar, com um tirano em vez de um governo, com uma burocracia corrupta, preparada para pisar os fracos e lamber as botas aos fortes, e um povo pensativo, que tudo vê, mas nada diz contra isso. Os Estados não têm de se desenvolver todos da mesma maneira. Esta também pode ser uma possibilidade, ou não?

A amarga experiência tem mostrado que quando um povo renuncia à sua liberdade, mais tarde ou mais cedo acaba em guerra, e no caixote de lixo da História. O tirano actual não foi eleito, foi apresentado há 15 anos ao povo como "sucessor". Desde então fez-se eleger algumas vezes e, pelo sim pelo não, faz ele próprio a contagem dos votos. Um homenzinho educado na escola do KGB soviética, sem mulher nem amigos, afastado do mundo, atormentado por complexos de inferioridade, dirige um país gigantesco cujos habitantes já perderam há muito qualquer esperança de fazer uso dos seus direitos de cidadãos e de elegerem eles próprios o presidente. O Ocidente esforça-se para entender o que se passa na cabeça daquele homem, os russos nem se dão a esse trabalho. Limitam-se a segui-lo. Se ele é homofóbico, eles saem às ruas para fazer manifestações contra os homossexuais; se ele não gosta de arte moderna, eles saqueiam galerias. Se ele deixa o exército invadir o país vizinho, eles gritam "a Crimeia é nossa". E não pensam na vida depois de Putin, que virá daqui a alguns anos. Se ele um dia se despenhar durante um voo com cegonhas, ou mergulhar a demasiada profundidade, ou for comido por um leopardo - o que é que vão fazer?


P.S. No próximo sábado, na Russendisko só haverá música ucraniana.

P.P.S. O homem da fotografia está a ser preso porque tem um cartaz onde se lê "Paz para o Mundo".



4 comentários:

Gi disse...

Os russos parecem-me semelhantes aos portugueses. Bem, nós ainda sorrimos, vá lá.

Helena disse...

Pois... estava a traduzir e a pensar isso mesmo.

José Nogueira disse...

Bem...Os russos têm fama de guardarem o seu riso para os amigos e para quem gostam. Atitude respeitável. Gosto do nosso riso mais aberto, mas anda cá a parecer-me que não só aceitamos que nos fustiguem os costados, como andamos em maré de sorrisos para quem nos fustiga :-(...

Helena disse...

:(