02 março 2014

Johannes-Passion



Ontem, durante o concerto da Paixão segundo São João com encenação de Peter Sellars, lembrei-me várias vezes de um cartaz que vi há mais de uma década: uma criança sentada à janela de um carro com formas inovadoras, perguntando: "mãe, como eram os carros dantes?"

Como era esta Paixão de Bach antes do Peter Sellars, do Simon Rattle com a sua Filarmónica, do Simon Halsey com o seu Rundfunkchor, e do Mark Padmore?

Como ser tocado por esta obra sem o equilíbrio da voz de um Mark Padmore no papel de evangelista, e sem a sua linguagem corporal a sublinhar a intensidade das frases que outros cantam? Como entender todo o alcance do berro "Crucifica-o!" sem um coro transformado em mob contra Jesus? E que melhor maneira haverá para nos dar conta da intensidade do diálogo joanino entre um Cristo fisicamente subjugado e um Pilatos aterrorizado com a História que se desenrola nas suas mãos, e à qual ele quer escapar, se não for esse Pilatos a ajoelhar e a deitar-se ao lado do Cristo prostrado?

Estava sentada no palco, junto aos músicos e cantores. Várias vezes quis fotografar o momento para deixar aqui, e não o fiz. Não valia a pena - aquilo tem de ser vivido em toda a sua intensidade.

No final, saboreámos longamente a sala aplaudindo em delírio, Simon Rattle e Simon Halsey mostrando a amizade que os une, o brilho nos olhos de todos os que participaram neste projecto, o entusiasmo redobrado para acolher Peter Sellars quando subiu ao palco, e no fim o gesto simples e amoroso dele dirigindo-se ao coro para lhes dizer "I love you", e depois "I love you" virado para os músicos da orquestra.
We love you too, Peter Sellars - podes voltar sempre a Berlim.

Daqui a alguns dias o Digital Concert Hall vai disponibilizar este concerto. Apesar de eles não me pagarem uma comissão pela publicidade, insisto: quem puder, use 9,90 € para entrar nos arquivos do DCH durante uma semana. Por esta Paixão segundo São João, pela Paixão segundo São Mateus, e por tantos outros concertos que lá há.

Com certeza que a encenação de Peter Sellars virá mais vezes a palco, mas há algo que torna este concerto único: a figura de Maria Madalena junto ao Cristo em agonia, composta por uma Magdalena Kožená vastíssima de fertilidade. O Evangelho segundo São João em edição revista e melhorada.


4 comentários:

Paulo disse...

Deve ter sido um grande momento na História tua vida. Gostava de ter lá estado também.

Quanto a Peter Sellars, o meu coração divide-se. O que vi no pequeno excerto pareceu-me muito interessante, embora me recorde trabalhos seus semelhantes ("Theodora", de Handel - olha: está aqui). Aquelas coreografias das mãos podem tornar-se cansativas, porque expectáveis, já que ele usa e abusa delas.

Mas o Mark Padmore... sim, um evangelista de sonho.

Helena disse...

Paulo, eu bem te digo que devias vir morar para Berlim...
Foi um grande momento, mas a Paixão segundo São Mateus foi ainda maior. Gosto mais da música, e também teve o efeito da descoberta primordial - deste tipo de encenação, e do Mark Padmore.
(O Mark Padmore, o Mark Padmore - olha que desta vez, se ele nos aparecer no caminho, não te dou a dianteira como daquela vez com o Brad Pitt - aviso já! ;) )

O Peter Sellars variou bastante, neste caso. Mas o melhor é veres tu próprio. Eu já estou à espera da próxima vez que o Digital Concert Hall oferecer vouchers para umas horitas de paraíso.

(Outro dia descobri que um voucher que estava aqui a guardar religiosamente passou o prazo de validade - há quase um ano! É tão triste ser sovina...)

Paulo disse...

ahahahahahah

Vou esperar também por um voucherzinho misericordioso. Quando souberes de algum, avisa, sim?

Helena disse...

Claro! :)