12 janeiro 2014

fidelidade



A Christina levou o Fox à rua, e depois deixou-o correr no pátio da nossa casa. Uma vizinha avisou que havia ali veneno de ratazanas - justamente debaixo do arbusto onde ele estava a mastigar qualquer coisa. Grande susto, telefonema para o veterinário e tratamento completo: injecção para vomitar, injecção para acalmar, e carvão diluído em água pela goela abaixo. Esta última parte coube-me a mim. Ele debatia-se, tentava fugir, mas não mordia os dedos que lhe forçavam a boca. Aninhava-se entre as minhas pernas, os olhinhos dele pediam-me compaixão, e eu forçava de novo. Ele ia e vinha, aninhava-se outra vez, "protege-me". Quase me convenceu - e só não parei devido ao óbvio: se ele realmente comeu veneno, era uma questão de vida ou de morte.

Querido Fox. Que cega fidelidade o fazia regressar a mim, e ao meu colo de carrasco?


14 comentários:

Luis Novaes Tito disse...

Vai correr tudo bem. Isto não é cão para se deixar ir abaixo

Helena disse...

Ah, pois não! É um rafeirito português, não é qualquer veneno de rato que lhe pega.
(A verdade é que provavelmente não comeu veneno nenhum - demos-lhe o tratamento completo por uma questão de segurança. Mas está ali a dormir muito abatido, o nosso rafeirito.)

Cristina Gomes da Silva disse...

Dá-lhe mimo e diz-lhe que os amigos P & C esperam que ele fique bom. A gente dá-lhe mimo em pensamento. Beijinhos para todos e muitas festinhas para ele

Paulo disse...

Oh, raposinha! Já passou, pronto.

Helena disse...

:)
Já quase passou. Obrigada a todos!

Gi disse...

Os cães são mesmo assim, não há seres melhores no mundo.
Dá festinhas nossas ao Fox. Ele nem sabe os amigos que tem a torcer por ele!
Bj.

calita disse...

Talvez a certeza de que havia uma boa razão para o que lhe estavas a fazer.
Tenho saudades de ter um cão.

Helena disse...

Parece-me que a frase "tem de ser, Fox" ficou rota, de tanto a ter usado...

Helena disse...

Obrigada a todos.
:)

Cristina Torrão disse...

Helena, é proibido espalhar veneno de ratazanas, podes até denunciar o caso às autoridades públicas. Só estas o podem fazer e, nesse caso, o local é assinalado com placas e o veneno é colocado em caixas, aos quais as ratazanas têm acesso, mas os outros animais, não (pelo menos, cães e gatos não têm). Uma qualquer pessoa, ou mesmo o senhorio, não o pode fazer num pátio, ao qual os moradores têm acesso. Imagina que uma criança pequena por ali anda e resolve meter alguma coisa à boca! Resta saber se a vizinha disse a verdade, talvez ela apenas não tenha gostado que o cão andasse lá sem trela. Há gente disposta a tudo. De qualquer maneira, se ela tem razão, trata-se de algo ilegal e que pode ser denunciado.

Helena disse...

Cristina,
há um papelinho na porta, uma coisa minúscula, mas oficial, a avisar que puseram ali veneno.
As caixas têm aberturas enormes, cabe muito bem o focinho do Fox.
Não sei se foi a vizinha que pôs lá o veneno, ou se de facto foi o Kammerjäger. Tudo indica que terá sido ele.
Para piorar, fomos ler o nosso contrato de arrendamento: descobrimos que devíamos ter pedido autorização ao senhorio para ter um cão. Com que cara vamos agora protestar por terem posto veneno no pátio?

O pior disto tudo é que me sinto muito parva: toda preocupada com a saúde do Fox, e sem compaixão nenhuma pelas desgraçadas das ratazanas. Elas merecem?

Cristina Torrão disse...

Pois, assim fica difícil protestar. E se o Fox continua bem, o melhor é mesmo ficar "caladinha" ;)

Quando passámos uns dias numa pequena localidade perto de Paderborn, ao passear com a Lucy, num pequeno parque, demos com placas bem visíveis, a avisar que havia sido espalhado veneno. E as caixas tinham uma abertura bem pequena, até nos perguntámos se as ratazanas conseguiam meter lá o focinho.

Pois, as ratazanas... São seres inteligentes que até se adequam a animais de estimação. Uma vez, na sala de espera do veterinário, estava uma moça com um animal no regaço. O animal estava coberto por uma pequena manta e ela, de vez em quando, erguia a manta e fazia-lhe uma festa. Mas sem o mostrar. Só estávamos as duas(com a Lucy, claro). Começamos a conversar e eu perguntei-lhe que animal era o dela. Depois de muito hesitar, ela disse-me que era uma ratazana, mas costumava escondê-la por as pessoas terem pouca compreensão. Confesso que também me arrepiei um pouco, mas comecei a perguntar como era ter uma ratazana em casa, se era limpa, se estabelecia alguma empatia connosco, etc. Ao ver tanta abertura da minha parte, ela perguntou-me se a queria ver. Eu disse que sim, mas que tivesse cuidado, até por causa da Lucy, que gosta de caçar tudo o que mexa. Ela ergueu então um pouco a manta e eu vi as costas da ratazana... um pelo limpo e sedoso, bem mais claro do que o que conhecemos!

O problema é que as ratazanas não domesticadas andam pelos lixos e esgotos e podem espalhar doenças. E, infelizmente, nalgumas situações, receio que se ponha o dilema: ou elas, ou nós.

Helena disse...

Mas temos de as matar com estes venenos?
Uma amiga minha tinha ratos em casa. Arranjou uma ratoeira que os prendia, mas não lhes fazia mal. Quando apanhava um, ia largá-lo bem longe de casa.
Dá muito mais trabalho (e nojo...) mas é mais correcto.
Sempre que compro veneno para pôr na minha casa velha, no meio do campo, em Portugal, penso nessa ratoeira. E sinto-me um bocado envergonhada do meu comodismo.

Cristina Torrão disse...

:-)