15 dezembro 2013

domingo da alegria (2)



Um belo concerto, o da Mitsuko Uchida esta tarde (se descontarmos o Adagio do Alban Berg, mas também ninguém disse que a vida tem de ser perfeita).

O Notturno (trio Es-Dur D897) de Schubert, interpretado com incomparável delicadeza, trouxe o sossego que me tem faltado nestes dias.





E o Quatuor pour la fin du temps, de Messiaen, levou-me para muito longe.

Transcrevo partes do programa deste concerto:
Olivier Messiaen compôs o Quatuor pour la fin du temps quando estava preso num campo alemão perto de Görlitz. A peça foi escrita para os músicos profissionais franceses (violino, clarinete, violoncelo) que por acaso também estavam nesse campo. (...) Foi inspirada pelos primeiros sete versos do décimo capítulo do Apocalipse segundo São João: "E eu vi outro anjo forte, que descia do céu...". Messiaen: "A fome que passei naquele campo provocava-me alucinações: vi o arco-íris do anjo e um estranho rodopiar de cores".

Como católico, e em situação tão desesperada, Messiaen escolheu uma citação da Bíblia como base espiritual para este quarteto - a aparição do anjo que, em nome de Deus, anuncia que "não haverá mais demora". Os oito andamentos resultam naturalmente do texto de base. Como explica Messiaen: “Sete é o número perfeito; a criação em seis dias é santificada pelo Sábado divino. O sete, de repouso, prolonga-se na eternidade e converte-se no oito da luz inextinguível e da paz inalterável”. O compositor esperava com a escolha deste texto dar alento, naqueles tempos tão duros, ao que restava das forças anímicas dos prisioneiros.

A estreia do Quatuor pour la fin du temps, num pavilhão do campo de prisioneiros, foi um enorme êxito. (...) O compositor sentiu-se compreendido pelos ouvintes da música que ele criara com o intuito de lhes dar algum consolo. Com uma mistura de felicidade e gratidão, anotou: "nunca a minha música foi ouvida com tal atenção e entendimento."




Gostei especialmente de:
- Abîme des Oiseaux (7'48''),
- Louange à l'Éternité de Jésus (17'56''),
- Louange à l'Immortalité de Jésus (38'55'').

Ouvia, e não conseguia deixar de pensar naqueles prisioneiros num campo alemão, a quem Messiaen tentou dizer, em Janeiro de 1941, que "não haverá mais demora".

(Mais informações sobre esta peça: aqui)

A Christina, que tinha ido comigo, estava deliciada e agradeceu efusivamente o convite. No carro, a caminho da casa de uma amiga, pôs-se a cantar "Happy". Cantava com a sua voz lindíssima, dançava dentro do carro e estalava os dedos, enquanto íamos desbravando as ruas cinzentas de Inverno. Domingo da alegria, sem dúvida.



(Apontamento para os amigos: a minha filha resolveu imitar não apenas o talento musical da Sinéad O'Connor, mas também o penteado. E tinha um cabelo comprido tão bonito, snif snif! Hoje à noite o Joachim chega de uma viagem, e temo que lhe dê uma coisa má. A mim também vai dar uma coisa má, porque acaba à meia-noite o período que ela me concedeu para mandar bocas. Sem poder mandar bocas, acho que vou rebentar. Uma amiga tenta chamar-me à razão: o cabelo cresce, e tal, imagina se fossem tatuagens, e coisa. Outra fala-me de um professor universitário octogenário, que teve agora um coming out como punk, ou algo assim. Está bem, está bem, mas não sei que me parece, snif.)

6 comentários:

Paulo disse...

Pois, o corte de cabelo da Christina não é o fim do tempo e tal... mas eu também estou aqui a mandar-lhe bocas. Não precisas de lhe contar, está bem?

Helena disse...

Não conto, não. Vai ser o nosso segredinho...
Mas não mandemos demasiadas bocas. Uma miúda que chega ao fim do Quatuor enlevada e comovida não merece que a gente dê demasiada atenção a essas minudências. :)

Paulo disse...

:)

jj.amarante disse...

Mas não tem frio com a falta de cabelo? Eu estou à espera de Março para cortar os poucos que me restam...

Helena disse...

jj.amarante, em Portugal não se vendem gorros?
(uma das piadinhas que eu faço é dizer-lhe que não precisa de tirar o gorro dentro de casa) (coitada da miúda, um dia destes vai pedir a outra família para a adoptarem...)

Carla R. disse...

Ora, aposta como lhe fica bem. Ela tem uma cara bonita. :)