05 setembro 2013

o que cabe numa semana

Tenho este post preparado há 10 dias. Comecei a escrevê-lo no próprio dia em que os amigos regressaram a Portugal, quando a nossa casa ficou subitamente muito oca. Queria juntar fotos melhores que as que fiz com o telemóvel, mas é impossível escolher entre os milhares de imagens que eles aqui deixaram. Tanto mais que muitas delas foram feitas nos museus, e de repente dou comigo a passear de novo por aquelas salas, com os olhos que eles me emprestam.

Desisto de tentar juntar as melhores fotos da semana. Ficam as possíveis, a acompanhar um roteiro de uma semana em Berlim.

***

Começar pela nossa vida: a cave da casa nova (yes! já temos uma cave em Berlim! já temos onde guardar a famosa mala que os amigos cá deixam...), o "nosso" lago. Seguir para o Checkpoint Charlie. Subir à cúpula do Reichstag. Passear entre os edifícios parlamentares, ver duas esculturas coloridas num jardim da Paul-Löbe-Haus e tentar descobrir quem são os dois alemães famosos que representam. Apreciar a cantina dos funcionários, numa sala envidraçada virada para o rio.

Ter de escolher entre um mergulho no lago e percorrer o mercado de sábado de manhã na Karl-August-Platz. Vida de mil faces transbordantes.

[Tantas comidas que lhes prometi enquanto passeávamos ao longo das barraquinhas de legumes - por exemplo: Pfifferlinge - e tantas promessas que não cumpri.]

Festa dos 150 anos do SPD no coração de Berlim. A frase "um país melhor não acontece por acaso".

[A avenida 17 de Junho fechada, quatro palcos, stands dos vários movimentos e organizações. O candidato do SPD a falar para 300.000 pessoas. Miúdos a fazer bowling contra mecos com figura de anõezinhos neonazis. Eu a comprar umas canecas de café, um set de 3 com a cara dos políticos socialistas: "Dá para trocar o Schröder por outro Willy Brandt?" O vendedor a sorrir: "infelizmente, não é possível..."]

Atravessar a cidade com quatro bancos de cartão que nos deram na festa do SPD. Memorial do Holocausto, e o respectivo centro de informação.

[Já estive lá várias vezes, e é sempre o mesmo choque. Desta vez, tropecei num postal enviado por uma mãe na véspera da deportação, e a exposição acabou-se-me aí. Ocorreu-me fotografar a expressão das pessoas que vão avançando lenta e penosamente por aquelas salas. Mas talvez seja melhor respeitar esses momentos de cada um.]

Uma raposa calmamente sentada junto a uma estátua no parque, ao lusco-fusco, após um concerto formidável do Konstantin Wecker.

[ - o último que fazia com aquela banda. Eu com pena dos meus amigos, que não entendiam o que ele dizia. Eles deliciados com a música.]

Os pátios na zona dos Hackesche Höfe (também o da oficina de cegos do Otto Weidt, cheio de graffiti e guerilla knitting, o do restaurante Pan Asia, os Rosenhöfe do arquitecto Hinrich Baller). O show que está no Chamäleon: Beyond.

[Um show com excelentes ginastas, e tema inesperado: os homens aparecem como ursinhos fofos e as mulheres como seres estranhos, fortes, ameaçadores.]

O Fox e o Matthias em dueto musical. O Memorial do Muro, na Bernauer Strasse.

[Dias antes, a 13 de Agosto, tinham deixado lá coroas de flores lembrando as vítimas do muro. As flores dos Verdes eram as mais murchas. Rimos muito, mas depois pensámos que provavelmente seriam as únicas realmente naturais.]

Dois "moon walkers" no Karaoke no Mauerpark. Chuva. Um cheirinho de Prenzlauer Berg: Oderbergerstrasse (com paragem para waffles no Kauf Dich Glücklich) e Kastanienallee. O violoncelista Bruno Borralhinho e o seu Ensemble Mediterrain a tocarem Schubert na curva mais bonita da ilha dos museus. A lua cheia.

O lago Wannsee. A Villa Liebermann. As tortilhas à maneira alemã num restaurante tosco junto ao lago. A Casa da Conferência de Wannsee, e o horror estampado na cara da Leni Riefenstahl, ao assistir ao fuzilamento de alguns judeus. O enclave claustrofóbico de Klein-Glienicke - no meio de nada, o muro ao fundo dos jardins. A ponte onde se trocavam espiões. Um Kaiser que fez a Europa dos Pequenitos às portas de Potsdam: de Inglaterra à Itália, atravessando uma aldeia Suíça (há malucos para tudo). O concerto quase bom no Hexenkessel (o teatro de madeira em frente ao Museu Bode). No palco de dança junto ao rio, o casal já de certa idade em rodopios dos anos sessenta - entregues um ao outro como se fossem "Fulano & Fulana, a ser felizes desde 1963".

A Ilha dos Museus: museu antigo e museu novo, Pérgamo e galeria nacional antiga. A Gemäldegalerie com a sua colecção de pintura europeia até ao séc. XVIII, e gravações áudio intermináveis. A nova galeria nacional.

[Eu nos museus a resmungar "passam a vida a tirar-me as coisas do sítio!"
Marx e Mao na sala da Pop Art, juntamente com Andy Warhol e parte do filme Yellow Submarine. As esculturas ao ar livre - marcas de pneus de bicicleta no Broken Obelisk de Barnett Newman, cujo aluguer por 10 anos custa, segundo ouvi dizer, a módica quantia de um milhão de euros.]

A Pietà da Käthe Kollwitz. O memorial dos livros queimados a 10 de Maio de 1933 na Bebelplatz. A loja de chocolates Ritter e a Fassbender und Rausch. A praça Gendarmenmarkt. Os centros comerciais de luxo na Friedrichsstrasse. The Tour of Klythie, uma escultura de Chamberlain feita com sucata colorida, que parece que vai ser retirada. Uma exposição de design contemporâneo, na cave por baixo de um dos famosos Bugatti, na esquina com Unten den Linden. A Dussmann.

O Street Food Market em Kreuzberg. O Bonjour Tristesse, que agora tem mais uma inscrição, "bitte lebn". O Clube dos Visionários. O Badeschiff (dois minutos antes de fechar). Um bocadinho do filme sobre a história do Parlamento Alemão, que este verão é projectado na fachada da biblioteca parlamentar, para um público sentado nos degraus junto ao rio.

Potsdam com os seus palácios e parques, a aldeia russa e a cidade holandesa. Matjes sobre Pumpernickel (e ir para a Filarmonia com hálito de cebola crua). Rattle e Mozart na Filarmonia: as três últimas sinfonias.

[À porta, junto ao tapete vermelho, uma manifestação de artistas independentes, pedindo apoios no valor de 18 milhões de euros. Simon Rattle a dirigir sem batuta nem partitura, mimando a música um compasso antes de ela acontecer, e no seu melhor "license to kill". Eu a pensar pela milésima vez que os bancos do coro são o melhor sítio para assistir aos concertos com este maestro. A sala cheia de famosos que nós não conhecíamos - excepto a Herta Müller e o antigo presidente do Deutsche Bank que festejou um aniversário seu nos salões da chancelaria. O passatempo no intervalo: "para quem são aqueles três guarda-costas ali em pé ao fundo do bloco A?" (não conseguimos descobrir).]

Uma magnífica lua cheia sobre tudo isto, e uma tranquila alegria entre nós.

Parte das fotos que se seguem foram feitas por mim com um telemóvel fanhoso. Outras foram feitas pelos meus amigos. Para não ficar aqui meia hora a pôr créditos, ficamos assim: as melhores são deles. Pronto.




















(infelizmente não encontrei nenhuma gravação dos artistas que vimos)























3 comentários:

Maria de Jesus Lourinho disse...

Estas imagens deixaram-me nostálgica. Visitei Berlim em 2004 O meu filho mais novo estava a fazer Erasmus em Amesterdão e decidimos encontrar-nos em Berlim que ainda ninguém conhecia. Adorei a cidade e tive uma vontade louca de ficar - nesse tempo era primeiro-ministro o Santana Lopes e pensávamos que tínhamos batido no fundo. Puro engano. Estávamos lindamente e com um governo muito "atinado". Hoje, tenho muita pena de estar em completo desacordo com a visão para a Europa da sra. Merkel ( não é só para Portugal, é para a Europa e o futuro dos nossos filhos nela.
Não publique este comentário. Não tem nada de interessante, são apenas os pensamentos que me vieram quando revi Berlim pelas suas fotos.
Abraço.

Paulo disse...

Ai a minha mala, onde estará?

Helena disse...

Debaixo da minha cama, Paulo, do lado do coração. Não te preocupes.
:)