08 setembro 2013

chauvinismo masculino

(Adenda muito importante: depois de o publicar, dei-me conta de que este post está todo errado. No cartoon, o António representou o Passos Coelho e não a Juíza do Supremo Tribunal de Justiça. Peço desculpa ao António pelas críticas tão injustas que lhe fiz. Só não apago o post porque devo ao autor do cartoon este pedido de desculpas público.)






A ver se entendo: como reacção a uma entrevista em que uma Juíza do Supremo Tribunal de Justiça afirma que  o Estado deve ter uma palavra a dizer sobre o problema do assédio e das agressões verbais de que as mulheres são vítimas no espaço público, o António fez este cartoon.
Está de parabéns: conseguiu uma fantástica caricatura do seu próprio machismo.

Portanto: o António entende que é normal e admissível que miúdas de 12 anos ouçam, no caminho da escola, mimos do género "que rica boquinha de broche". E que a sociedade não tem de meter a colher entre uma mulher e o desconhecido que na rua lhe assobia e a seguir chama "ganda puta" só porque ela fez de conta que não ouviu.

Nem vou perguntar se o António tem uma filha de 12 anos, porque estas coisas não se discutem em função da dignidade das mulheres que estarão sob a alçada de um António qualquer. Só queria mesmo entender se o António, e de um modo geral todos os homens que ridicularizam aquela juíza, acham bem que as situações descritas na reportagem da Fernanda Câncio continuem a acontecer nas ruas de Portugal.

(Também gostava de perceber porque é que, quando se está a falar de frases desagradáveis, invasivas e por vezes até de grande violência, o pessoal insiste em afirmar que os piropos são uma mais-valia das nossas ruas - como se fossem abordagens do género "minha senhora, permita-me dizer-lhe o quanto me alegro por vê-la passar aqui". Mas já devo estar a pedir demais.)

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ADENDA: algum dia havia de me acontecer um falso cognato, e foi neste post. Chamei-lhe "chauvinismo", porque "Chauvinism" é a palavra que imediatamente vem à baila quando falo destes temas com os meus amigos alemães. Em Portugal usa-se mais "machismo". Para não haver equívocos, corrigi o título e uma frase do post.

5 comentários:

Izzie disse...

Oh, Helena, reacções destas causam-me uma tristeza tão funda. É que se quando era mais nova era eu o alvo dessas agressões, hoje em dia temo que seja a minha sobrinha a ouvir o mesmo que eu ouvia, e lamento assistir a tristes cenas em que garotas são assobiadas e assediadas de forma torpe. Depois penso que em 30 anos mudou quase nada, ou muito pouco, tenho a alegria de as mulheres da minha geração e mais novas andarem a trazer o assunto à discussão, e de novo a tristeza pelas reacções retrógradas de quem acha que não é nada.
(li por acaso a reportagem e gostei muito; a posição da juíza conselheira é lapidar, fabulosa, e assino por baixo)

O carteira vazia disse...

Não é mais um blog… É um blog para vos fazer rir, com crónicas, coisas que vocês também passam no vosso dia-a-dia. Serve isto para divulgar e humildemente vos peço para me ajudarem a divulgar, por favor ajudem-me. Pode ser? Obrigado

http://ocarteiravazia.blogspot.com/

Helena disse...

Também gostei imenso do que ela disse. E não consigo entender como possa haver gente que em vez de conversar civilizadamente sobre as ideias se põe a ridicularizar a pessoa. No caso deste cartoon, forçando-a à condição de "bela fêmea".
("Bela fêmea", contaram-me há dias, era o "piropo" que as miúdas açorianas mais ouviam, começando aí pelos 11 anos de idade. Acompanhado por um roçar da mão.)

mar disse...

Não tinha lido a reportagem e gostei bastante: vou guardar o ficheiro para 'esfregar' o relato da rapariga de 20 anos na cara da próxima pessoa que me vier com o argumento de que basta responder. (Obrigada pela partilha.)

Quanto à ideia de que na Alemanha não há piropos nas ruas, talvez tenha muito azar mas já ouvi um 'Gutes paar' pela manhã numa rua do Mitte em Berlim (e não, a avaliar pela direcção do olhar, não se referia aos meus olhos). O senhor não parecia de origem turca mas era idoso e talvez por isso ainda ache esse tipo de comportamento tolerável. (Um pouco como o Rainer Bruderle que não percebeu bem o que estava errado na história do dirndl...)

D.S. disse...

Só tive oportunidade de ler agora o artigo e gostei mesmo muito. Especialmente da análise ao Código Penal português e onde, caso fosse criminalizado, o piropo se poderia inserir. A entrevista com a juíza é muito lúcida, desmente mais algumas ideias que foram lançados a propósito de não ser possível legislar contra o piropo. Um exemplo de bom jornalismo, esta peça.