10 agosto 2013

batam-lhes, batam, que eles depois vão-vos agradecer por se terem tornado pessoas bem-educadas


Ia eu hoje a caminho do supermercado para comprar leite para o pequeno-almoço, e dei comigo a pensar no adolescente Froilán, que aos 15 anos apanhou da mãe, a ilustre infanta, em frente a uma multidão de jornalistas. Ele tinha atirado uma adolescêntice bastante legítima aos fotógrafos, "quantas já fizeram?", e a mãe, sem tergiversar no sorriso, pô-lo na ordem com uma palmadinha na nuca. A um rapaz de 15 anos, à frente dos fotógrafos. Ó adeptos da palmada bem aplicada no momento certo, para "domesticar" esses "animais" que vos nasceram e fazer deles "meninos bem-educados" (o que está entre aspas é vocabulário usado nos argumentos pró palmada): ponde aqui os vossos olhinhos, porque é um bom exemplo de aonde podeis ir dar com os burros.

Na fila do supermercado havia um miúdo a choramingar, porque queria um chocolate e a mãe não o deixava comer logo ali, dizendo que estava demasiado mole. Olhei para ele com pena, porque ainda só era sábado de manhã, e a vida já parecia tão dura. Deu-me um pequeno empurrão, muito zangado. A mãe deu-lhe logo uma palmada. Eu não bati na mãe porque sou a favor de quebrar estas cadeias de violência. Só lhe sussurrei que entendia o miúdo: com aquele "chega pra lá" quis-me dizer que se estava a sentir devassado pelo meu olhar (mas guardei para mim o evidente: um miúdo que é educado com a mão em vez de palavras, aprende que o normal é usar a mão em vez de palavras). Depois saí do supermercado a pensar que da próxima vez que vir um miúdo a fazer uma birra o melhor é ignorá-lo, trocando antes um olhar de solidariedade com a mãe.
De palmada em palmada, os meus pensamentos voltaram ao pobre do Froilán, e dele para o mais recente príncipe inglês:



Ponham o filme a correr, fechem os olhos, e imaginem o que será a vida de uma criança que vai crescer no meio de um barulho assim. Espero que à Kate não lhe escorregue muito a mão, porque o miúdo corre grandes riscos de, em chegando a adolescente, lhe dar vontade de correr todo aquele pessoal histérico à bofetada.

9 comentários:

Relógio de Corda disse...

Gostei do texto. Sou uma adepta da palmadinha na hora e no momento certo.
Também levei umas quantas em criança (não por ser mal educada mas mais por ser um bocadinho a modos que traquinas). Verdade que hoje não sinto qualquer trauma por causa disso, nem tenho qualquer sentimento de mágoa para com os meus pais (como diz o povo, "só me fizeram bem" ou "só se perdem, as que caem no chão").

snowgaze disse...

nao lhe invejo a sorte. Todo aquele posar, sorrir e acenar, acho que so la ia com uma plastica.

Helena disse...

Relógio de Corda,
não sou nada adepta da palmada. Já nem com cães se usa, quanto mais com seres humanos.

Snowgaze,
pois, nem eu. Quando este miúdo nasceu, lembrei-me de um texto que o Luís Stau Monteiro escreveu a propósito do nascimento do pai dele. O título era algo assim: "Se o William soubesse preferia não ter nascido".

Cristina Torrão disse...

Esse Froilán começa a preocupar-me. Parece que, por problemas de aproveitamento escolar, foi enviado para um colégio interno, na Inglaterra. Com métodos de educação destes (palmadas, desterro), não me admira que ele, há dias, tenha agredido o primo, filho da outra infanta, numa escola de vela, parece que em Mallorca, onde estão a passar férias.

Coitado do Froilán...

Helena disse...

Coitado do Froilán, sim.
Um século destes, alguma ONG vai-se lembrar de proteger os direitos das crianças dos famosos.

Devia ser proibido sujeitar alguém a atravessar a infância e a adolescência sempre sob a ávida mira dos meios de comunicação social.
Esses miúdos devem precisar de um security room para poderem tirar macacos do nariz sem correrem o risco de ser fotografados.
E se penso na zanga do miúdo do supermercado, que não queria que eu olhasse para ele, imagino a violência constante que acompanhará a infância desses miúdos dos famosos.

Cristina Torrão disse...

Mesmo assim, acho que os pais podem fazer bastante para minorizar os "estragos". Mas esta não é, seguramente, a melhor maneira. É gente de tanta posse, não lhes passa pela cabeça aconselhar-se junto de quem entenda do assunto?

Se bem que, às vezes, quantos mais métodos e opiniões, pior...

Helena disse...

Cristina,
não sei o suficiente da vida dessa família para poder comentar. Não sei se e com quem é que eles se aconselham, e o que lhes dizem.
Parece-me que andam todos a dar com a cabeça nas paredes, e isso acontece perante o olhar impiedoso dos jornalistas e dos fotógrafos.
A cena da mãe a dar uma palmadita ao filho sem perder o sorriso da pose é o cúmulo. Parece de um filme humorístico.
O pobre do Froilán, pensando bem, ainda é capaz de ser o mais saudável deles todos... Pelo menos dá-se ao luxo de continuar a ser um rapaz de quinze anos.

Filomena Crochet disse...

Eu penso que as sras estão a exagerar....... e como !!!

Helena disse...

Filomena, não entendi: pensa que estamos a exagerar quando dizemos que é uma violência para as crianças crescerem rodeadas de paparazzi e grandes ajuntamentos de gente a aplaudir?