08 junho 2013

traições


Por ocasião do 18º aniversário da sua filha, uma amiga minha reinventou o famoso poema de Eugénio de Andrade  - e achei tão bonito, que lhe pedi autorização para copiar para aqui:



Pastiche (com a minha filha em marca d’água) 


No mais fundo de mim, 
eu sei que tenho de ser traída, filha 

Tudo porque já não és
um retrato parado
no fundo dos meus olhos.

Tudo porque já sabes
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Nem por isso, às vezes, as palavras que te digo
deixam de ser duras, filha,
e o nosso amor deixa de ser construção
incondicional.

Tudo porque guardo as rosas brancas
que apertavas junto ao coração
no retrato da moldura.

Deves lembrar como ainda amo as rosas,
que enchem as horas dos sonhos.

Sou eu agora quem esquece muita coisa;
esqueço que as tuas pernas cresceram,
que todo o teu corpo cresceu,
e até o teu coração
ficou enorme, filha!

Olha — queres ouvir-me? —
quantas vezes ainda és a criança
que adormece nos meus olhos;

quantas vezes aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que me deste

ainda oiço a nossa voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — eu sei como quem sente —
a noite é enorme
e todo o teu ser cresceu.
Saíste da moldura,
deste às aves os teus olhos a beber,

No fundo, não me esqueci de nada, filha.
Guardo a tua voz dentro de mim.
como guardo as rosas.

Boa viagem. Aguardar-te-ei sempre
como quem espera pelas aves.

03.03.2013


***

Gosto muito deste pastiche, como ela lhe chamou. Os dois últimos versos comovem-me, de tão certeiros e ternos.
Mas continuo a tropeçar na palavra "traição" - e parece-me que é hoje que me vou desentender com o Eugénio de Andrade (que engraçado: "desentender-se com" - o desacordo é diálogo).

- Mas que traição, ó homem?!
Traição era o que faziam as nossas avós, quando decidiam que o filho primogénito tinha de ser padre; ou os nossos avós, que destinavam os filhos a determinada profissão (ou clube de futebol...)
Traição é o que fazem os pais hoje em dia, quando desenham os filhos numa pintura familiar naïf e ficam desapontados por eles mostrarem que são pessoas reais, e não figurantes de filmes cor-de-rosa.
Mais do que traição aos filhos, é uma traição à própria lógica da vida.

O Khalil Gibran é que sabe:

Os vossos filhos
Não são vossos filhos:
São filhos e filhas
Do chamamento da própria Vida.

Vêm por vosso meio
Mas não de vós;
E apesar de estarem convosco,
Não vos pertencem.

Podeis dar-lhe o vosso amor;
Mas não os vossos pensamentos:
Porque eles têm pensamentos próprios.

Podeis acolher os seus corpos;
Mas não as suas almas:
Porque as suas almas
Habitam a casa de amanhã
Que não podeis visitar,
Nem sequer em sonhos.

Podeis esforçar-vos por ser como eles;
Mas não tenteis fazê-los como vós.
Porque a vida não vai para trás,
Nem se detém com o ontem.

Sois os arcos, e os vossos filhos
As setas vivas projectadas.

O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,
E reteza-vos com o seu poder
Para que as setas
Possam voar depressa para longe.

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro
Seja de alegria.

Porque assim como Ele ama
a seta que voa,
Também ama o arco que fica.

***

A minha filha fez há pouco 19 anos. Escolheu passar um ano do outro lado do mundo. Enternece-nos e faz-nos rir com alguns sinais que nos dá da sua vida. Como a fotografia deste post, que me lembra uma mãe pata com os seus patinhos num lago de Primavera.

Regressa em Agosto - e nós estamos como quem espera pelas aves.
A traição é não percebermos que eles nos nasceram aves.

12 comentários:

Pedro disse...

Até a mim, que não sou pai nem quero, este post me tocou. Obrigado

Helena disse...

:)

sem-se-ver disse...

ich liebe dich

Helena disse...

:)
(Isto quase é um "casa comigo", não é? hehehe, valeu a pena ter esperado com paciência todo este tempo!) (hihihi)

Mar* disse...

Obrigada, mais uma vez.

(Ich liebe dich auch! E só não te peço em casamento, porque a fila de pretendentes já vai longa e não quero ficar com o coração despedaçado ;) )

Helena disse...

hahaha
então na internet é monogamia?...
;-)

Mar* disse...

E o trabalho que dá a poligamia?! Nahh, sou demasiado preguiçosa... ;)

(além disso, segundo me disse uma miúda de 9 anos esta semana, o casamento é para pessoas que não sabem o que querem, por isso há tantos divórcios!)

Helena disse...

hahaha
essa frase é fantástica!

Interessada disse...

Ao contrário do que possa pensar, eu não quero casar-me consigo. Espero que não se sinta ofendida. Mas sinto um prazer imenso em tê-la conhecido. E por vezes também me zango consigo. Obrigada Helena.

Helena disse...

Interessada,
em havendo "prazer imenso" e "zanga", parece-me que estão reunidas as condições essenciais para um casamento. Não quer reconsiderar?
;-) ;-) ;-) ;-)

Carla R. disse...

Tão linda a Christina e a mãe dela.
Continuo com muita pena que não tenha continuado com o blogue sobre esta aventura, mesmo se fosse em alemão.
Quanto ao casamento, tudo bem, também entro.

Helena disse...

Carla,
cada vez acho mais graça à ideia desta poligamia bloguística. :)
(Pois é, a Christina é pouco escrevedeira, e é pena. Mas eu estou a tentar escrever esta semana os posts atrasados sobre a nossa viagem à Bolívia e ao Peru. Não prometo, porque estou cheia de trabalho, mas queria muito)