19 maio 2013

Yuja Wang em Berlim



Tinha bilhete para um lugar confortável, mas quando vi que havia lugares vazios no estrado, bem perto do piano, nem hesitei. Pensando bem, o que me convinha mesmo era o lugar de viradora de folhas dos pianistas - mas corria o risco de ser despedida à primeira página: sei lá quanto tempo me demoraria a regressar da aurora boreal ao compasso certo do livro?

Tocou a sonata nº 2 em gis-Moll op. 19 de Alexander Scriabin (e arrumou comigo logo aos primeiros acordes: que beleza, a suavidade daqueles dedos no teclado)



e a sonata para piano nº 6 op. 62 do mesmo compositor.
Gargoyles op. 29 de Lowell Liebermann, e a sonata para piano nº 2 b-Moll op. 36 de Rachmaninov - arrebatadora!
Terminou com Maurice Ravel, La Valse.



Neste Maio de 2013 tocou-a de uma forma diferente da do vídeo, mais leve, mais fluida - e trouxe para o meio de nós este par, nesse preciso momento de abandono e quase desequilíbrio:



A Yuja Wang entrava na sala como quem não está lá, ia directa ao piano, curvava-se timidamente para o público, e começava logo a tocar. No fim de cada peça levantava-se como se o piano desse choques eléctricos, fazia uma vénia rápida enquanto empurrava a saia para baixo, saía do palco com pressa. Voltava, sentava-se ao piano, começava imediatamente. 

Daqui a uns anos posso dizer: assisti a um concerto da Yuja Wang quando ela já tinha metafísica nas passagens suaves, ainda usava minissaia, e só queria fugir do palco. E foi maravilhoso.  

***
Para que não vos falte nada, aqui vai a secção Caras da Filarmonia de Berlim:

Na primeira parte trazia um vestido preto, de decote assimétrico, em pele. Curto e muito justo. Fiquei desiludida, porque estava a contar com o famoso vestido vermelho, mas pelo menos os sapatos pretos não tinham sola vermelha, o que ma tornou muito simpática e - como disse - aos primeiros acordes do Scriabin esqueci tudo. O problema é que o vestido era em tiras horizontais, e ela nas passagens mais velozes entusiasma-se e toca quase em pé, e de cada vez que se senta de novo o vestido sobe um pouco mais, formando pequenos pneus ao nível da cintura. Entre o princípio e o fim de cada peça o vestido subia uns bons 20 centímetros, e eu nas passagens delicadas esquecia tudo porque os dedos daquela mulher devem ter alguma espécie de campos magnéticos para o piano, ou então para mim, mas quando vinham os momentos mais velozes, onde a técnica tomava o lugar da poesia, aí eu começava a reparar no vestido, e nas pernas cada vez mais compridas, e perguntava-me se aquilo ainda ia acabar bem. 
Talvez fosse boa ideia sugerir-lhe o seguinte: se for para tocar uma peça suave, pode ir de minissaia. Se for para correrias enérgicas, leve antes uma maxizinha, ou umas calças. 

Na segunda parte trouxe o vestido vermelho. Aaaah! E, ainda assim, consegui reparar na beleza do seu Rachmaninov, do seu Ravel! Uma grande pianista.

3 comentários:

Catarina disse...

Obrigado.

http://www.youtube.com/watch?v=3y91EInOfQo

Helena disse...

Catarina, obrigada por esse link.
Lindíssimo!
(eu bem digo: metafísica, esta mulher tem metafísica)

Catarina disse...

: )
Welcome!