16 março 2013

"os ricos que paguem a crise"

Uma das condições impostas para o actual plano de ajuda financeira ao Chipre é um imposto de 9,9% sobre depósitos superiores a 100.000 euros. O Público explica como é que essa medida vai ser levada a cabo. Infelizmente, falta nesta notícia uma informação muito curiosa, dada ontem pelo noticiário da ZDF, Heute Journal (aqui, em alemão - clicar em "Analyse: Zyperns Vermögen"): os bancos centrais europeus fizeram um estudo sobre a distribuição das poupanças privadas nos países da Europa, e chegaram à conclusão que os bens privados nos países em crise têm um extraordinário volume, especialmente se comparados com países financeiramente mais estáveis.

Aparentemente, os bancos centrais não querem publicar esta análise antes de Abril - ou seja, antes de terminado o processo de ajuda ao Chipre - porque os números têm potencial explosivo. Mas alguns deles já são conhecidos - por exemplo, os valores da riqueza privada per capita, que andarão por:
   Chipre:  86.000 euros
 Espanha:  80.000 euros
       Itália: 163.000 euros
Alemanha: 134.000 euros
Obviamente que se coloca a questão da distribuição: nos países em que há muita pobreza, há riquezas colossais nas mãos de um pequeno grupo.

Parece-me bem que no Chipre se crie tal imposto sobre os capitais. Parece-me mal que se afirme com tanta convicção que é caso único e que não vai alastrar a toda a Europa. Porque não?
E pergunto-me porque é que não se lembraram de fazer isto em Portugal, em vez de aumentarem o IVA e os impostos sobre os rendimentos do trabalho.

11 comentários:

Pedro disse...

Porque os ricos querem continuar ricos e os políticos querem continuar no poder... (a oeste, nada de novo...)

Helena disse...

Mais uma ideia fantástica que... ;-)

Estou a pensar que no Chipre fizeram isso porque o que vão apanhar é o dinheiro dos russos. Parece que há lá muitos depósitos russos de origem um tanto duvidosa.

jj.amarante disse...

Este discurso é esquizofrénico. Então dizem tantas vezes que não vai haver dinheiro para pensões, as pessoas poupam uns euros e depois vão lá sacar-lhes a massa? É assim que querem estimular a poupança? Entretanto em Portugal onde havia um IRS que se dizia neutro em relação à origem dos rendimentos instituiram taxas liberatórias para os rendimentos de capitais há uma data de tempo e agora também, pasme-se, para os rendimentos provenientes de rendas. Claro que assim não se chateia os senhorios nem os detentores de capital e pode-se taxar à vontade os restantes rendimentos, que ou provêm do trabalho ou das pensões.

Helena disse...

jj.amarante,
Pensei nisso a propósito dos mais de 6% que vão tirar a quem tem depósitos até 100.000 euros.
Acima de 100.000 euros, sinceramente, custa-me muito menos que o que em Portugal se está a fazer, de tirar mais de 40% às pessoas que recebem por recibos verdes.
Se é preciso ir buscar o dinheiro a algum lado, ir buscar 10% a quem tem mais de 100.000 euros no banco não me parece tão grave. Em todo o caso, não tão grave como subir o IVA, que afecta os mais pobres com uma assimetria cruel.

E então em Portugal os rendimentos de capital não pagam imposto?!
Quanto aos rendimentos das rendas das casas, imagino que faça sentido, para melhorar o parque habitacional e haver casas para arrendar. Ou não?

Finalmente: convém informar também que aqui na Alemanha já se fala em expropriar os privados para pagar a dívida pública. Não me admira nada que venha por aí um imposto semelhante ao do Chipre. Nas taxas sucessórias, por exemplo, já foi feita uma reforma bem pesada.

jj.amarante disse...

Existem imensas casas vagas em Portugal, não percebo porque é que os rendimentos de rendas de casas hão de ser taxados de forma mais favorável do que os provenientes do trabalho. Quer dizer, percebo muito bem, segundo os actuais governantes de Portugal os rendimentos do trabalho e das pensões são excessivos e devem ser pesadamente taxados. Os rendimentos dos senhorios são virtuosos e devem contribuir com moderação para os cofres do Estado.

Helena disse...

jj.amarante,
tem razão: depois de descontados os juros (os juros, ou o serviço da dívida?) e as despesas para manutenção do estado da casa e para modernização, bem se podia pagar impostos sobre o "lucro" a uma taxa normal.

Atenção, que eu não estou a dizer "depois de ir aos funcionários públicos, às reformas, ao IVA, vamos agora também aos capitais". Eu queria é que se tivesse começado por aí.

Izzie disse...

Confesso que esta notícia me abalou, porque faço parte do grupos dos "ricos" que têm (boas) poupanças no banco. Não são 100.000 (um dia espero lá chegar), mas é dinheiro de ordenados que fui pondo de lado, que não gastei em férias no Brasil ou em Punta Cana, em sapatos ou malas de marca. Se me tirassem 6% dessas minhas poupanças, depois de durante anos me convencerem que a poupança dos particulares era um aforro para o futuro e também uma forma de os bancos terem liquidez para porem a economia a funcionar, não ia reagir bem. Era como se tributassem o produto do meu trabalho uma segunda vez...
Claro que acho injustíssima a tributação dos recibos verdes, mas mais injusto acho que haja tanta gente a trabalhar a recibo quando o que têm é uma relação de trabalho subordinado. São exploradas duas vezes. Mas uma coisa não tem que ver com outra; estamos todos a ser muito penalizados, e de forma muito injusta.
Juro que só tenho vontade de pegar nas minhas poupanças e as por debaixo do colchão. Ou isso ou dar-me a maluca e gastar tudo em viagens, que ao menos as recordações ninguém mas tira.

Helena disse...

Izzie,
entre perder tudo, ou perder 6%, o que preferias? O facto é que os bancos cipriotas estão falidos. Se não receberem ajuda, os depositantes vão perder todo o seu dinheiro.
Também é verdade que estão a tentar mudar essas taxas: 3% para os depósitos abaixo de 100.000, 12,5% para os depósitos acima.

Não ponhas as poupanças debaixo do colchão. Além de perderes os juros, perdes devido à inflação. Às tantas dá um prejuízo acima de 6% por ano.
Já gastar em viagens... ;-)
(Ultimamente ando a contar esta história repetidamente: na casa da avó do meu marido havia um quadro na cozinha onde se lia: "come e bebe tudo o que te apetecer - já por duas vezes perdeste o dinheiro todo". É isso: a geração dos avós do meu marido (alemães) assistiu por duas vezes ao total descalabro financeiro. Perdeu duas vezes todas as poupanças. A seguir à guerra, o avô do meu marido usava o abono de família, um dinheiro que o Estado dava para alimentar as crianças, para pagar salários da sua pequena empresa. O meu sogro passou tanta fome que sessenta anos mais tarde ainda era incapaz de deitar fora uma fatia de pão seco. Tudo isto para dizer que o que se está a passar agora ainda não é nada, comparado com o que pode acontecer se as coisas correrem realmente mal. Era melhor debatermos como é que se deve resolver o problema, em vez de nos digladiarmos por os beneficiários da ajuda comunitária para salvar os seus próprios depósitos nos bancos cipriotas falidos serem obrigados a contribuir com /% ou 10% do seu dinheiro.)

Izzie disse...

Helena, claro que entre perder tudo ou uma percentagem, a opção é óbvia. Agora que é um grande abalo, para quem sempre viveu do seu trabalho e se habituou a poupar porque é a coisa certa a fazer... Caramba, confiámos tanto nas instituições, na Europa, em tudo. E a Europa também foi "feita" para nos garantir que não se voltaria a viver esses cenários de pobreza extrema e fome, certo?
Ando muito baralhadinha, muito triste, e sem saber o que vai acontecer.

Helena disse...

Izzie, e como é que achas que os alemães se estão a sentir?
Baralhados e descrentes, andamos todos.

O que acho surpreendente é que as pessoas aqui aceitam sem protestar os cortes sucessivos, e o facto de a Merkel estar a usar as suas poupanças privadas como garantia para os pacotes de ajuda aos países em crise.
Talvez seja assim porque todos sabemos que este é o mal menor. São apenas os anéis, quando a faca já está apontada aos dedos. E sabemos todos que está.

Conde de Oeiras e Mq de Pombal disse...



Helena,

à tua pergunta se em Portugal os rendimentos do capital não pagam imposto, acho que a resposta é óbvia: pagam imposto os rendimentos, não o próprio capital!

É que uma coisa é taxar um ganho, outra é taxar uma posse. O dinheiro que eu possuo, deriva do facto de eu o ter poupado, não do facto de ter fugido aos Impostos! AGORA VOU PAGAR IMPOSTO OUTRA VEZ?


E por que razão confiscam apenas dinheiro? E quem não tem nada em seu nome, mas tem colecções fabulosas de jóias, relógios e outros bens mobiliários ou mesmo imobiliários?

Como se diz em boa linguagem futebolística, quando alguém faz uma falta mais feia e maldosa, isto que fizeram agora em Chipre "NÃO É NADA"...