29 janeiro 2013

às vezes dá-me um cansaço...


(Desenho do oblogouavida - concurso para a mascote de uma livraria. Na altura alguém criticou o camaleão, por não ter a cor dos livros. Eu rebati que só quem lê muito consegue encontrar a sua própria cor. Continuo a pensar o mesmo, e assim defino a minha posição em relação à lista de livros da Opus Dei.)


Como se nos faltassem problemas verdadeiros, resolvemos agora embirrar com a lista de livros que a Opus Dei considera perigosos para a boa formação religiosa e moral dos seus membros.

Bem sei que o argumento "temos problemas mais importantes" não colhe, mas este escândalo sobre os "livros proibidos" parece um tema de quando não há tema. Calma, ainda não estamos na Praça da Ópera em Berlim a 10 de Maio de 1933. É apenas Agosto de um ano qualquer.

Tenho andado por aí a debater com pessoas que criticam a lista: eles falam de acesso à cultura e de obscurantismo; eu pergunto como lidar com grupos que têm outras ideologias, outros princípios morais, ou uma vivência religiosa muito forte.
Que é que a nossa sociedade deve fazer, e segundo que princípios e critérios, para impor o serviço militar aos pacifistas, o darwinismo aos criacionistas, as transfusões de sangue às Testemunhas de Jeová, livros do Saramago a quem o considera o anticristo, a descrição queirosiana das imoralidades da sua sociedade a quem quer criar os filhos longe desses maus pensamentos? A nossa sociedade pode - e deve - intervir nas famílias que ensinam aos seus filhos que a Democracia é chão que nunca deu uvas, e que o que é preciso é uma ditadurazinha do proletariado, ou que o futuro pertence à raça ariana?

Onde e como se traça a fronteira entre os limites do poder dos pais e da sociedade na educação e formação dos menores?

Era isto que me interessava discutir, e é o que tenho feito por aí, com pessoas que educada, honesta e inteligentemente defendem o seu ponto de vista. Mas hoje encontrei um comentário de alguém que, para defender a perspectiva da Opus Dei, ofende a autora do blogue. A coberto do anonimato, claro.
Às vezes dá-me um cansaço...
Não será possível falarmos uns com os outros, tentarmos encontrar uma plataforma de coexistência (que não significa nem imposição nem indiferença e ignorância), em vez de nos agredirmos e ridicularizarmos mutuamente?

E porque insisto eu em defender a posição de pessoas com as quais não concordo, pessoas essas que não se ensaiam nada para ofender a coberto do anonimato (como naquele blogue), e que dão aos seus filhos o exemplo de ofender cruelmente aqueles que não cabem nos seus esquemas (os homossexuais, por exemplo)?

***

A propósito, traduzo (rapido, rapido) um texto do diário de Ruth Andreas-Friedrich, que pertencia a um grupo de resistência em Berlim. Em 1939 esse grupo transportava para fora do país pertences dos judeus que fugiam sem poderem levar nada com eles. Esta página do seu diário refere uma dessa viagens ("Amanhã chegaremos a Paris. Finalmente poder falar sem ser em surdina. Sem ter de usar metáforas ou olhar em volta com medo.").


Paris, Domingo 16.07.1939

Durante todo o dia o vaivém no nosso quarto não pára. Amigos, conhecidos, amigos de amigos, conhecidos de conhecidos. Todos querem saber o que se passa na Alemanha, trocar impressões, receber saudações, aliviar a alma. Nem todos continuam como eram antes desta breve, ou longa, separação. É-me difícil falar com alguns deles. Porque é que começaram a pensar que somos simpatizantes dos nazis? Apenas porque regressaremos à Alemanha? Porque dizem agora "nós, judeus" quando antes diziam "nós, amigos"? Não éramos amigos quando os ajudámos a fugir do país? Hitler inventou a separação das raças, e eles próprios reforçam esse discurso quando se reconhecem naquela diferença. Algumas conversas deixam-me muito desanimada. Mas Andrik chama-me à razão.
- Não caias também tu no erro de pensar que todos os judeus são anjinhos. Nem todos aqueles que os nazis transformaram em seus inimigos são amigos nossos. Um ou outro senhor Abraão, Isaac ou Jacob seria alegremente nazi, se o deixassem.      
- Mas, os emigrantes...
- Não há "os" emigrantes. Há o amigo A que emigrou, a amiga B que emigrou. O problema central está nas generalizações. Todos os polacos são assim. Todos os franceses são assado. Todos os judeus têm de ser isto e aquilo. Avaliação do carácter segundo um esquema simplista, centenas de milhares numa única gaveta. Se não nos libertarmos desse hábito, nunca chegaremos a bom porto. Nem no que diz respeito ao diálogo entre os humanos, nem à tolerância. 

Vejo-me obrigada a dar-lhe razão. E já não exijo que "todos" os emigrantes partilhem os nossos pontos de vista. 

8 comentários:

Manuel Pinto disse...

Gostei, Helena.
Obrigado pela tradução (rapido, rapido).

Helena disse...

O livro é fantástico, Manuel Pinto.
É uma pena que não o queiram traduzir para português.
Mas existe em inglês:
http://www.amazon.com/Berlin-Underground-1938-1945-Ruth-Andreas-Friedrich/dp/1557781591/ref=ntt_at_ep_dpt_1
(e tem também o diário após o fim da guerra, até 1948, quando Berlim ainda não estava inteiramente dividida)

O que é muito bom neste livro é esse testemunho da matéria tão humana de que os heróis são feitos. E também a insegurança e a falta de informação daquele quotidiano.

Ou seja: recomendo.

Gi disse...

Muito interessante. Talvez se devesse (eu devesse) escrever uns post-its dizendo "Não generalizar. O que há são indivíduos." ou coisa assim, e pespegá-los por aí, na mesa de trabalho, no écran do computador, na porta do frigorífico... O que achas?

Rita Maria disse...

Em princípio estou de acordo contigo na distinção entre o que é essencial discutirmos e o que não é (e também na irritação com os fait divers, que inquinam a discussão pública e são também parcialmente responsáveis por um efeito estranho de "irrealidade").

Mas, quando estruturas fechadas como a Opus Dei têm uma intervenção pública, revelar documentos internos como esse pode ser do interesse público porque já não estamos apenas a falar de regular o que os seus membros devem ler - estamos a falar de uma filosofia que provavelmente transparece também para as escolas que dirigem, por exemplo.

Helena disse...

Gi: sim. Algo assim.
É uma aprendizagem.

Helena disse...

Rita,
alguém tinha dúvidas de que esta lista existia? Alguém tem dúvidas de que as escolas se regem por esta lista, e por regras muito claras de conduta? Aliás: é mesmo por haver essas listas e essas regras que muitos pais preferem passar mal para pagarem determinados colégios para os seus filhos, nos quais eles crescerão num ambiente "protegido" das influências nefastas deste nosso mundo pecador e perdido.

Qual é a surpresa de sabermos que o Saramago não deve ser lido? Qual é o motivo para escândalo? Então não sabíamos que o Saramago ataca a Igreja e a Fé?
Escândalo era a Opus Dei ter lançado uma fatwa contra o Saramago. Não lançou. Limitou-se a pôr os livros dele numa lista de livros que não devem ser lidos pelas pessoas daquele grupo.

Quanto às escolas e às leituras dos jovens: o que me interessa debater é onde se traça a fronteira do "superior interesse da criança", e como se deve dividir o poder entre os pais e a sociedade (ou o Estado). Estes pais entendem que o actual Estado português lhes quer "contaminar" os filhos, e protegem-se/protegem-nos. Têm ou não têm esse direito?

Quanto às filosofias das estruturas fechadas que têm uma intervenção pública: não é só a Opus Dei. Há muitas mais. Parece-me que, dentro de certos limites, a sociedade vai ter de viver com isso. Ou vamos abrir a caça às bruxas? Vamos fazer uma lista de grupos fechados que actuam na sociedade portuguesa e investigar os seus dossiers, publicar tudo?
Por mim, tudo bem. Desde que façam isso com todos, e não apenas com os de determinada cor política.
Pensando melhor: por mim, tudo mal. É um passo para o totalitarismo.

Rita Maria disse...

Credo, eu não sugeri nada disso, pelo contrário: o que disse é que se essas organizações tiverem intervenção pública, perceber e discutir os princípios e regulamentos em que se apoiam é também coisa pública, enquadramento dessa intervenção e pode legitimamente ser discutido enquanto tal, aliás merece ser discutido enquanto tal. Não disse que devia ser proibido nem regulamentado nem defendi qualquer tipo de intervenção.

Aliás, defendo desde sempre o contrário - que é naturalíssimo por exemplo que a Igreja tenha posições sobre sentidos de voto, que não há separação entre a espiritualidade e a vida civil porque as pessoas têm no máximo uma moral, uma consciência.

Não disse nunca que as organizações fechadas não devessem juntar-se a uma conversa pública nem que devessem ser obrigados a revelar tudo nem a publicar dossiers. Mas se se juntam à liça, se participam da discussão pública, não podem depois à mínima crítica a aspectos da sua prática, ideologia ou doutrina refugiar-se no "isso é cá connosco e ninguém tem nada a ver com isso".

Quanto ao resto, respondendo-te directamente, acho que nas sociedades democráticas há uma evolução moral e política que se traduz num sistema e em políticas de ensino que são, elas também, morais e ideológicas, e se constrói um corpo de conhecimento que também ele tem poucos absolutos. Há pessoas que estão na vanguarda destas evoluções e as apoiam, pessoas que as aceitam como naturais e pessoas que as combatem, é assim desde sempre.

As fronteiras dentro das quais acomodamos tudo isto são aquelas das quais fazemos lei: dizemos por exemplo que podem existir escolas religiosas, mas que têm de dar pelo menos os programas nacionais. Que os pais são livres de educar as suas crianças mas que não podem sujeitá-las a maus tratos. Que as Igrejas podem receber contribuições financeiras, mas que em certos casos específicos como milagres prometidos constituem burla.

Legislamos o mínimo e deixamos o resto existir em liberdade e abertura. E de vez em quando enganamo-nos, ou evoluímos, e ajustamos as leis. A mim não me parece mal.

Helena disse...

Rita, desculpa, entendi mal.
Gostei do teu comentário. Especialmente da parte do erro e do ajustamento. Nada é definitivo e irrevogável.