09 novembro 2012

a ver se acabo com alguns mal-entendidos


A propósito de um comentário no post finalmente uma carta que me apetece assinar!:
reconheço que há bastante violência no modo como tenho comentado as cartas à Angela Merkel, que é sobretudo fruto do tom insultuoso das mesmas. Para insulto, insulto e meio...?

Talvez pareça que eu penso que a Merkel tem toda a razão e que a austeridade é o deserto que temos de atravessar para nos salvarmos. Não é. O que eu tenho andado a escrever é sobretudo uma reacção aos excessos retóricos de alguns portugueses.

Para evitar mais mal-entendidos, e sinteticamente:
penso que Portugal cometeu excessos graves (se me lembro que, na altura em que as PPPs começaram a rebentar nas mãos dos contribuintes, ainda queriam construir um TGV e um aeroporto - quando os limites de endividamento acordados em Maastricht já estavam largamente ultrapassados!), que tem um problema de corrupção e promiscuidade entre o Estado e as empresas, problemas com a Justiça e a Comunicação Social, e que - last but not least! - a economia tem problemas estruturais complicados que urge resolver. Penso que o Estado tem de reduzir a sua dívida, mas esse processo deve ser muito mais lento e controlado, e respeitando sempre os critérios básicos de um Estado Social. Penso que é preciso repensar a economia, que para isso precisamos da ajuda da UE (nomeadamente um esforço comum de melhoria do tecido produtivo da União, para que se torne mais homogéneo), e que o futuro da Europa não passa, de modo algum, por ter países que tentam competir com a China ao nível dos custos da mão-de-obra. Penso que o euro é um erro terrível, mas está feito e agora há que construir a partir daqui, porque as alternativas, no contexto actual, são ainda piores: se a Alemanha sair do euro, os outros países ricos não vão querer ficar; se se criar um euro-norte, nenhum país vai querer ficar no euro-sul; se a Grécia e Portugal saírem do euro, vão ficar em muito maus lençóis - os outros países também, aliás). Penso que a Europa está num ponto de viragem muito difícil, porque o caminho necessário é o federal, mas os povos estão a refugiar-se no nacionalismo. Irrita-me que, perante problemas tão grandes, os portugueses entrem numa dinâmica simplista que culmina na frase "vem aí a gorda!"  (excelente povo: além de saber agonizar de pé, ainda tem força para trocar as exigências da realidade por uma piadinha de mau gosto) (ai! descaí-me outra vez!)

Posto isto, volto ao comentário que deu origem a este post, no qual se dizia que a minha diferença de perspectiva deriva naturalmente do facto de viver na Alemanha. É, com certeza: por um lado, tenho acesso aos debates que aqui se fazem sobre esses temas. Por outro lado, por conhecer este povo, sou mais sensível e reajo muito às palermices que em Portugal se dizem sobre os alemães e a sua Merkel.

Mas também conheço muitas pessoas que vivem em Portugal e pensam da mesma maneira que eu - ou bem pior. Alguns exemplos do que ouvi no Verão passado:
- Numa aldeia do Douro, uma mulher com um ordenado muito baixo dizia-me que ainda bem que o Governo estava a acabar com o rendimento social de inserção, porque ela irritava-se muito por ter de trabalhar tanto para se sustentar, e ver ao mesmo tempo o espertalhão do vizinho a passar os dias no café, por conta do RSI.
- No Minho, um empresário dizia-me que todas as semanas lhe apareciam desempregados a pedir que assinasse o papel a provar que eles tinham ido lá pedir emprego. Só quando o período em que têm direito a subsídio de desemprego se está a acabar é que se começam realmente a esforçar por arranjar trabalho.
- Um desabafo de uma amiga, ao passar numa das milhentas rotundas com "obras de arte" no meio: pelo menos a crise teve a vantagem de me acordar. Agora olho para isto e penso: "está aqui o meu rico dinheirinho!" Dantes, achava que era feito com o dinheiro dos outros, e não me preocupava.


11 comentários:

Pedro disse...

Fico doente quando a chamam de gorda.

txticulos disse...

Ao invés do "Vem aí a gorda" prefiro o "Ignorem a loira".

Resolução da crise europeia para dummies
«Jonh Nash, o matémático, não o esquizofrénico, deduziu numa formula o comportamento de agentes em competição e colaboração. Em jogos não cooperativos descobriu o equilíbrio de Nash onde apesar dos participantes não cooperarem, é possível que a busca individual da melhor solução conduza o jogo a um resultado em que se verifique estabilidade, não havendo incentivo para que nenhum deles altere o seu comportamento.

Chegados aqui a Europa não é mais do que um grupo de rapaziada que a qualquer momento pode decidir unilateralmente apenas em seu proveito.

Para começar, “Ignorem a loira!”(o ignorem a loira vem do filme "Uma mente brilhante.")»
http://txticulos.wordpress.com/2012/11/08/resolucao-da-crise-europeia-para-dummies/

Miguel Marujo disse...

eu não gosto da Merkel, e este texto tem pano para mangas para conversa. mas já lá vou, quando tiver tempo... agora: no desemprego não se tem de ter um papel de empresários a dizer que fomos à procura de emprego; temos de provar que estamos ativamente à procura de emprego, seja lá isso o que for, porque depois há uma sucessão de entraves que tornam o desempregado um cidadão com termo de identidade e residência; mais: quando estive desempregado - e estive 9 meses!, numa altura já má mas não tão má - recusei algumas ofertas de emprego, sim, porque ficava a ganhar menos que o subsídio que recebia (diga-se: esse subsídio era-me devido porque descontei durante anos para ter direito ao mesmo, naquele valor) e porque era reduzir o meu salário face aquilo que entendia ser um valor justo por um salário.
bem sei que a Merkel se regozijou por os salários estarem agora mais baixos nos países do Sul, mas de facto recuso-me a ser o chinês da Europa.

Helena disse...

Pedro,
pois é... (tanta coisa horrorosa por trás dessa forma de tratamento!)

txticulos,
a "loira" começou por tentar ignorar a Grécia ("eles que resolvam os seus problemas") mas obrigaram-na a entrar no jogo. Parece-me que essa teoria, sendo interessante, não é exequível.

Conde de Oeiras e Mq de Pombal disse...

Helena,

não vou comentar todos os assuntos, mas apenas o essencial.

Para lá de todas questões emotivas e irracionais, que incluem a "gorda", a "bola de Berlim" e tudo o que de pior a alma de impotente atávico que há em cada português consegue criar para se "desforrar" dessa impotência congénita, restam as questões racionais e objectivas.

Portugal mudou radicalmente a partir de Abril, mas apenas mudou materialmente a partir da adesão à Europa, à qual portanto muito deve.

Portugal cometeu erros (desde Cavaco a Sócrates) e agora tem de pagar por eles, ninguém questiona isso.

Esses erros foram muito encorajados e olímpicamente ignorados pelas autoridades europeias, ninguém pode contestá-lo. Relembro, a propósito do mal citado TGV (uma nebulosa de mal-entendidos rodeiam este tema e mais ainda o NALx, mas agora não é altura de corrigi-los, é tarde demais), que não foi apenas o Governo de Durão Barroso e de Manuela F.ª Leite que se comprometeu com o Governo de José M.ª Aznar, em 2003, a construirem CINCO LINHAS INTERNACIOANIS: foram as autoridades de Bruxelas que DERAM LUZ VERDE a todo este empreendimento e esta parte da questão é demasiadas vezes esquecida ou desvalorizada.

Isto entronca no cerne da questão: um País como Portugal, periférico e longínquo, precisa de um tipo de investimento público muito distinto daquele que precisam os Países do centro, como a Rep. Checa, a Áustria e a própria Alemanha, que estão no meio e perto de tudo. Daí que me provoque logo alguma irritação a referência ao "TGV e ao Aeroporto de Lisboa" como investimentos "despesistas" quando se sabe que, sem investimento em sectores que promovam a competitividade, Portugal NUNCA aproveitará nem beneficiará em nada dos fundos comunitários. Mas adiante.

O problema agora é que estamos num aperto. Nós, a Grécia, a Irlanda, mas também a Espanha, a Itália, a própria França e, a bem dizer, toda a União Europeia.

Por isso, concordo no essncial quanto à indispensabilidade de cooperação e bom entendimento, o que não se consegue com desconfianças, acusações e ofensas recíprocas.

Há um grave problema de esclarecimento das opiniões públicas alemã e portuguesa sobre as realidades recíprocas (e no caso da portuguesa também no caso da realidade própria, é inegável).

Mas há um grave obstáculo à resolução deste problema e não há que negá-lo: o Governo alemão, a "Frau Merkel", está penso eu de boa-fé e crente de estar a profiar no sentido correcto (se bem que possívelmente mal informados sobre as debilidades próprias de Portugal, até porque quase inconcebíveis para o alemão médio), na defesa daquilo que consideram ser os interesses alemães e da Europa em geral.

Algo que, porém, não acontece do lado português: o nosso Governo NÃO está de boa-fé, nem é competente, nem representa devidamente os interesses de Portugal! Este é que é o problema incontornável!!!

Tanto mais incontornável quanto este "guverno" (não merece mais...) foi eleito há pouco mais de um ano, com a inequívoca bênção política de um Presidente da República que, por sua vez, foi igualmente eleito ainda não fez dois anos!

Pois é, mas há mais ainda: a Oposição encopntra-se dividida entre aqueles que foram derrotados nas últimas Eleições e que governavam em adequada sintonia com as directrizes europeias, em particular até à eclosão da crise das dívidas nacionais, e aqueles que tanto se opõem ao poder atual com ao anterior e que, não querendo sofrer as consequências políticas de terem objectivamente colaborado na ascenção dos atuais "guvernantes" ao Poder, PRECISAM DE UMA NARRATIVA AUTO-INDULGENTE PARA OS ABSOLVER PERANTE O ELEITORADO E A OPINIÃO PÚBLICA, adoptando a estratégia de focar os responsáveis pela situação atual de Portugal NO EXTERIOR do nosso sistema partidário e do próprio País, ou seja, ELEGENDO AS AUTORIDADES EUROPEIAS, SIMBOLIZADAS NA ÂNGELA MERKEL, como o bode expiatório com o qual sonham unir a sua mítica ideia de "Povo" em torno da salvação do País!

Conde de Oeiras e Mq de Pombal disse...

(continuação)

Parece-me assim que, perante este cenário DESESPERADO, mais do que uma hipotética e altamente improvável (muito menos se for "forçada") "mudança de rumo" por parte da "linha Merkel", só mesmo um "volte-face" completo da situação política em Portugal pode safar-nos do desastre grego.

E esse "volte-face", para começar, tem de passar por uma solução tipo-Monti, com a entrada de gente decente no Governo.

E com a preparação de uma renúncia, de preferência tranquila e digna, por parte do primcipal responsável por tudo o que de mau nos está a acontecer desde 2009: Aníbal Cavaco Silva.

Helena disse...

Miguel,
esse papel será, manifestamente, para provar que andaram activamente à procura de emprego. Compreendo o que dizes, e lembro-me bem do que sofreste na altura. Nunca me ocorreria dizer que te andaste a aproveitar do sistema - mas isso não significa que outros não o façam. A ideia do subsídio de desemprego é muito boa, o abuso pode dar cabo dela.
Uma das famosas reformas que a Agenda 2010 fez, aqui na Alemanha, foi reduzir o prazo do período de desemprego, e obrigar as pessoas a aceitar empregos mesmo abaixo das suas qualificações (e salário anterior). Por um lado, por motivos de ordem prática: para continuar a garantir aquele nível prestação do Estado Social, seria preciso aumentar muito as respectivas contribuições; por outro lado, porque a ideia subjacente é que o Estado solidário não deixa cair ninguém abaixo de determinado nível de vida digno, mas não é obrigado a garantir às pessoas o nível de vida a que estavam habituadas.

Helena disse...

Conde de Oeiras e etc,
apetecia-me era fazer um post com isso que escreveste.
Não concordo inteiramente com tudo, mas tem muito para pensar.

Júlio de Matos disse...



Tudo o que o Conde de Oeiras diz deveria surgir na TVI e na SIC, em vez das narrativas "holográficas" da Direita dos interesses egoístas, que é a única que Passos e Portas representam, e da Esquerda do "quanto pior melhor", que pode ser muito mediática mas não resolverá nada em lado nenhum.


E até dá um jeitão à narrativa do Poder. Não é, Joana Lopes?

marcia disse...

Hoje na paragem de autocarro ouvi duas senhoras - muito provavelmente com uma idade próxima da de Angela Merkel e estatura semelhante - a referirem-se a Angela Merkel como 'a velha' e a 'Bola de Berlim'(uma expressão que nunca tinha ouvido mas que é mencionada num comentário aí em cima, logo talvez até seja de uso geral).
Infelizmente, julgo que seria bem diferente se Merkel não fosse uma mulher (era ainda adolescente quando Helmut Kohl deixou o poder mas não me recordo de alguma vez ter ouvido alguém chamar-lhe Bola de Berlim, apesar de este ser bem mais 'redondo' do que Merkel)... e isso tira-me completamente do sério!

O insulto fácil é também alimentado pela própria imprensa portuguesa, cúmplice de uma certa diabolização de Merkel (nomeadamente retirando citações do contexto, omitindo que no mesmo discurso citado foi dito países resgatados e não apenas Portugal, et.) e, como diz o Conde de Oeiras e Marquês de Pombal acima, pelo próprio governo português, que se auto-representa como um pobre coitado de mãos atadas, remetendo as culpas para 'os outros' - e o alvo mais fácil é Angela Merkel.

Atenção, não quero com isto dizer que Angela Merkel não tem culpas na evolução da crise europeia (a quem interessar, há um texto muito interessante sobre Merkel e a crise europeia, escrita por um sociólogo alemão, Ulrich Beck, aqui: http://www.opendemocracy.net/ulrich-beck/power-of-merkiavelli-angela-merkel%E2%80%99s-hesitation-in-euro-crisis ou, em alemão, aqui: http://www.spiegel.de/spiegel/print/d-88963881.html)

E este comentário já vai muito longo mas quero agradecer à Helena por nos mostrar um outro lado neste seu espaço, que encontrei apenas há um par de semanas (e só agora descobri que tenho que começar a ler também os comentários e não apenas os posts!).








Helena disse...

Márcia,
a caixa de comentários costuma ser o sítio melhor deste blogue!
:)

Pois, é isso mesmo: se fosse homem, o ódio talvez fosse o mesmo, mas não aproveitavam para bater de tabelinha na imagem da Mulher. E que as próprias mulheres entrem neste jogo de humilhação sexista é algo que não consigo entender.