14 agosto 2012

imagens do homem, imaginária da mulher

A Helena Sacadura Cabral está cheia de razão quando critica que o DN tenha publicado fotos de Assunção Esteves em biquíni, durante as férias.
(o link é para o post, e não para as fotografias em biquíni) (os mirones que me desculpem)

A primeira questão que surge é óbvia: o que levará um jornal a publicar fotografias de um alto dignitário da nação em fato-de-banho, quando este está de férias e não a concorrer a um concurso de misses ou a dar uma entrevista na praia?
A reacção de Helena Sacadura Cabral, contudo, obriga a pensar para além disso: o que a leva a sugerir - no ano da graça de 2012 - que com fotografias destas se poderia pretender "menorizar" um cargo ou uma pessoa, ou "insidiar algo"?

Em 2009, e a propósito da capa de uma revista americana, o jornal Die Welt fez um artigo sobre a dignidade dos presidentes (ou dos políticos) quando postos a nu desta maneira.


O link desse texto dá acesso a fotografias de vários políticos (homens) - uns apanhados desprevenidos, outros a posar. Também se pode ver a Hillary Clinton a dançar com o marido, ambos em fato de banho.
Sabe-se que o Putin gosta de encenar fotos das férias (ou seja: entende que o seu tronco nu não o menoriza, antes pelo contrário), e que o Sarkozy teve honras de retoque da fotografia. E, se não me engano, o photoshop também tem prestado bons serviços ao Putin.



Ou seja: parece haver aqui uma zona cinzenta, em que as próprias pessoas usam as férias para construir propositadamente uma determinada imagem que sirva interesses de ordem política (o local de férias, a mistura com o povo, o tipo de roupa usado, etc.) ou, pelo menos, não parecem importar-se muito com a publicação dessas imagens.
A capa do Obama em tronco nu deu origem a imensas reacções, umas muito entusiásticas, outras muito críticas: para uns, o corpo do homem é - digamos - mais um caso de proud to be American; para os outros, a sua exibição nos meios de comunicação social coloca a questão dos limites do pudor e da pertinência dessa informação visual.

O artigo do jornal Die Welt fala também da primeira fotografia desse tipo, que - segundo o autor - teve consequências graves para a República de Weimar:

Em tradução mais que rápida:

Em 1919 ocorreu um autêntico escândalo dos calções de banho, envolvendo Friedrich Ebert, o primeiro presidente da recém criada República de Weimar. O político socialista, presidente há apenas meio ano, está numa praia do Báltico ao lado do seu ministro da Defesa, Gustav Noske, ambos em calções de banho. A fotografia, que foi publicada na capa da "Illustrierten Zeitung" com o inocente título "Ebert e Noske em veraneio", tornou-se rapidamente um símbolo. "Aha!", resmungava o povo desconfiado, "então é este o fato novo do rei. O homem está nu, só isso. Este presidente não passa de um substituto pelintra do Kaiser". E a partir daí manteve-se em silêncio quando o chefe representativo visitava o seu país: nem fileiras jubilosas, nem meninas a oferecer flores. 

Obviamente, monárquicos e outros opositores deram uma ajudinha ao sentir do povo. Com postais como este, "antes e depois", onde o Kaiser, em traje militar, aparece sobreposto à foto dos veraneantes:


Ebert, que começou por achar graça ao fait divers, rapidamente se deu conta da gravidade do caso e tratou de processar uma série de entidades. Mas ficou indelevelmente marcado.

Segundo o Spiegel (aqui, em alemão), o caso mexeu de tal modo com a sociedade que Hitler teve o cuidado de nunca se deixar apanhar em tais preparos. Segundo Henriette von Schirach, terá dito "Um homem de Estado não faz uma coisa dessas. Onde iria parar a veneração por Napoleão se houvesse esse tipo de imagens dele?"  

Mas isso era no tempo em que o povo gostava de pompa e circunstância, venerava os chefes e gostava de os trazer nos píncaros do imaginário da Hola. No nosso tempo, o que mais há nas páginas foleiras dos jornais é fotografias de governantes em calções de banho, e não provocam grandes protestos. Também se vêem volta e meia fotografias de futuras rainhas em biquíni - desde que os futuros reis começaram a poder escolher a companheira entre os plebeus de todo o mundo, as revistas cor-de-rosa andam com algum "valor acrescentado", passe o machismo da expressão.
 
Pergunto-me então porque é maior o escândalo quando o alto dignitário na praia é uma mulher, e por que motivo há-de encerrar isso uma tentativa de menorização da pessoa ou do cargo. Parece-me que é mais que a questão do direito à imagem de uma pessoa pública - é a questão do corpo feminino idealizado. Se essa senhora tivesse um corpinho como uma supermodelo de 20 anos, ou como o do Sarkozy depois de retocado, talvez não se falasse em "menorização".
O que me incomoda, claro. Preferia que no nosso escândalo não houvesse essa quota-parte de repúdio devido à diferença entre este corpo concreto e a imaginária do feminino no nosso tempo, nem houvesse lugar a esta necessidade paternalista ou cavalheiresca de proteger a mulher - as mulheres com um corpo diferente do da Elle Macpherson ("the body"). Como se um corpo de mulher com o aspecto normal da idade que se tem fosse motivo de vergonha.
Em termos de igualdade, ainda temos muito para andar.

9 comentários:

txticulos disse...

O primeiro episódio da mini-série britânica "Black Mirror" aborda algo do género, o PM de Inglaterra enfrenta um dilema, quando os raptores da princesa Susannah exigem que ele vá à televisão praticar sexo com um animal, senão matam-na. A trama roda à volta do voyerismo e exposição que cada um está disposto a aceitar.

Há uma linha nem sempre nítida entre o cidadão no cargo e a dignidade da função que as figuras públicas, o público e os intermediários movem ao sabor de conveniências e aprovação.

Miguel Marujo disse...

Helena, falta-me o tempo para ir ao caso concreto de A.E. e à leitura que fazes. Mas sobre o jornalismo paparazzi, em tempos que não se usava desse nome em Portugal, só me recordo de uma foto tirada na praia a Mário Soares a falar com uma mulher em topless. Na altura, elogiou-se a coragem dos dois. Ninguém "matou" o mensageiro. Isto para dizer que discordo do tom de Sacadura Cabral, mas falta-me tempo para lá ir.

Helena disse...

txtículos,
uma linha pouco nítida entre o cidadão no cargo, a imagem que ele cria, a imagem que lhe criam, e a dignidade das funções.

Miguel,
vai com tempo, vai com tempo. ;-)
É que isto é um tema que, se nos descuidamos, nos apanha a todos em trajes menores...

Karocha disse...

Tenho lido vários posts e comentários sobre o assunto.
A minha pergunta é simples e, é esta:
- O Sr. PR continua de férias?

Gi disse...

Helena, eu não cheguei a comentar o post da Helena S.C., mas talvez a minha relação com o corpo seja diferente... Não percebo a indignação dela.

Outra coisa: julgo que hoje em dia não há praticamente fotos publicadas em revista nenhuma que não levem uma camada ou duas de Photoshop.

Helena disse...

Photoshop em todas as fotografias publicadas - a sério?

Eu acho que percebo a indignação dela. Mais do que o despropósito da notícia (notícia???) deve ser a exibição do corpo feminino - nunca a vi a protestar devido à exibição do tronco nu de um político qualquer.

Karocha disse...

Helena
O que ele há mais é photoshop.
Até eu preciso para não verem o estado da minha clavícula!!!

maria n. disse...

Helena,
É uma leitura possível, mas como não sou a HSC não posso falar por ela. No entanto a minha leitura é diferente da tua.

Já viste uma notícia com um título assim "Cavaco Silva na praia em calções"? Porquê a necessidade de sublinhar o facto de ela estar em biquíni? Precisamente para apontar um acto que se julga ser uma espécie de transgressão - é isso que vende -, porque é mulher, ocupa um cargo elevado, tem 55 anos (como o DN faz questão de sublinhar também) e porque não tem o corpo de uma supermodelo de 20 anos.

Imagine-se, com todos esses predicados AE resolve usar um biquíni na praia. O fotógrafo, à socapa, e o DN não iriam deixar de aproveitar para registar o atrevimento.

É perfeitamente legítimo questionar se a intenção é menorizar a pessoa, não por expor o corpo dela como ele é, mas por deixar subentendido que com tais predicados ela transgrediu qualquer coisa, como se ela tivesse menos liberdade que as outras mulheres, um ser inferior portanto.

Também não acho que nestas coisas se possa usar a mesma bitola para homens e mulheres. O corpo da mulher está permanentemente sob a lupa da sociedade e ela é constantemente julgada por ele, reduzida a ele. Não é a mesma coisa.

Helena disse...

Maria N.,
desculpa só agora responder.
O que me parece mais interessante neste caso é justamente questionar as intenções do jornalista e o modo como isso ecoa na sociedade.
Com este debate, estamos a fazer uma espécie de ponto da situação da mulher na nossa sociedade em 2012.
Afinal de contas:
- qual é o interesse informativo de mostrar o corpo semi-nu de um político?
- se alguns políticos o fazem segundo uma estratégia de poder, podemos declarar aberta a caça à imagem do político em fato de banho (quer ele queira, que não)? Quer dizer: como equacionar o direito à imagem quando as fronteiras entre a o uso dos media, por parte dos políticos, e o uso não autorizado das imagens, por parte dos media, é tão ténue?
- quais são as diferenças entre a exibição de um homem em fato de banho e de uma mulher em biquíni, quando ambos são pessoas importantes da política?
- se essas pessoas tiverem um corpinho escultural, a exibição já afecta menos o direito à imagem?
- se o jornalista se dá ao trabalho de anotar uma transgressão (uma figura pública dessa idade em biquíni), isto não acabará por se tornar um mero marco na evolução da história da nossa sociedade? Quer dizer: depois disto, algum jornal se vai dar ao trabalho de mostrar uma ministra em biquíni como se isso fosse uma grande coisa?
- será que há realmente uma bitola diferente para homens e mulheres? Penso que isso está a mudar: também se exige aos homens, cada vez mais, um corpinho bonito de se ver (olha o photoshop no Sarkozy), e também se reconhecem nas mulheres cada vez mais as qualidades que estão para lá da aparência.

Bem, podíamos passar a tarde inteira a discutir sobre isto.