22 maio 2012

o expresso do paraíso (3)



Acordar no meio do silêncio do Chora Cascas, abrir a porta do quarto para o exterior, descobrir este pátio só meu, deslumbrante,

(eu sei: devia ter acendido as luzes dentro do quarto, etc. etc.)

chegar à sala do pequeno-almoço, dar com um buffet principesco e um sumo fresco de melão e menta daqueles de ficar ali para o resto da vida.


E encontrar ao lado do prato um chocolate russo:


Imaginei que seria mais um detalhe de hospitalidade do Chora Cascas, mas não: era delicadeza do Wladimir Kaminer, que trouxera os chocolates da Rússia para nos surpreender ali, no meio da planície alentejana, com aquele olhar angélico e ostálgico dos filhos da utopia (não muito diferente, convenhamos, dos anúncios americanos da mesma época - de onde mais uma vez se prova que os comunistas amam os seus filhos da mesma maneira que os capitalistas, e os idealizam talqualzinho e tudo).

No meio da sala decorada no melhor estilo country living, olhando a abundância de croissants e brioches pequeninos e deliciosos, a variedade de queijos e enchidos, as frutas, o bolo de chocolate com nozes, e tudo tudo tudo, o Lutz referiu os resultados de um estudo americano: afinal, a ideia de que o dinheiro não traz felicidade é errada, dizem eles. Durante os primeiros seis mil euros mensais ajuda, e muito; a partir daí é que o acréscimo de felicidade já não é tão grande. O Wladimir Kaminer rebateu. Estava aberto o debate, sobre muitos e variados temas. Ao fim do pequeno-almoço a conversa já era sobre arquitectura moderna e a antiga arte dos artesãos. Mais tarde, em Évora, a Olga havia de comentar, exasperada: "estes homens não conseguem falar enquanto andam?". Não conseguiam. Paravam a cada dois passos, procuravam argumentos, refutavam. O Lutz bem podia reabrir o Quase em Português, tenho a certeza que juntou material para um ano de posts.

(foto da Margarida Parente)



Chovia, o dia estava feioso. Uma sorte, uma sorte: pelos olhares que o Wladimir e a Olga deitavam à piscina e às camas à sua volta, dei-me conta que seriam bem capazes de ficar ali o dia todo. Nem Évora, nem lançamento na Feira do Livro, nem Russendisko - só Chora Cascas forever.

O monte é uma espécie de montra. Quase tudo o que lá está é para venda. Por mim, comprava logo esta obra de um português (hei-de descobrir-lhe o nome, que me disseram mas eu, para variar, esqueci) feita com lã de Arraiolos e muita maestria, de cores bem mais bonitas que as mostradas nas fotografias.






A saída atrasou um pouco, porque a Olga Kaminer queria comprar a sua toalha de banho, que era linda: de espesso algodão, com uma barra enorme de renda. Mas o monte não vende toalhas usadas, pelo que a dona há-de trazer um conjunto novo da próxima vez que vier a Berlim. Já temos um cafezinho apalavrado. Que ninguém diga que eu não contribuo para o entendimento internacional e a construção da Europa e o aumento do valor das acções das companhias de aviação! 

A primeira paragem do dia era no Cromeleque dos Almendres. Aquele conjunto deixa-me sempre sem palavras, presa de uma enorme admiração pelos egrégios avós que se lançaram à conquista da matemática do universo antes ainda de saberem com quantos paus se faz uma canoa.






(fotos da Margarida Parente; a última é uma cena típica desses dias: o Lutz e o Wladimir a falar um com o outro, nós a observar, à espera)

Seguimos para Évora. No caminho, quase apostei com a Olga que o lilás que se via nos campos não era alfazema. Mas depois lembrei-me de uma passagem do Viagem a Tralalá, de como o Wladimir se queixa de perder todas as apostas com a mulher, e tratei de mudar de assunto. Porque um livro é um bom amigo, e quem te avisa amigo é, e além disso o ar seguro da Olga deixou-me muito desconfiada.

Como não conheço bem a cidade, pedi ajuda ao Daniel Carrapa - pelo que tivemos o gosto de o conhecer, e à sua Dora, ao cão de três patas mais famoso da internet e aos restantes arranhadores de sofás. Passeámos pelo centro histórico, tentámos até entrar na Capela dos Ossos (sim, que eu ainda insistia em tornar a viagem inesquecível, e pelos motivos mais díspares). A capela tinha acabado de fechar para almoço. O porteiro estava lá, e eu bem lhe expliquei o meu abre-te sésamo do costume (o escritor alemão, os seus textos lidos por centenas de milhares de pessoas, o vai vir charters de alemães) mas nem pensar em abrir a porta. Volte daqui a bocadinho, dizia ele. Daqui a bocadinho era daí a duas horas, quando já devíamos ir a caminho de Lisboa para as entrevistas aos jornais, mesmo antes do lançamento do livro. Ora, acho muito bem: se as igrejas em Roma fecham quando lhes apetece, porque é que as de Évora haviam de fazer um jeitinho aos turistas de que a cidade vive?
O Wladimir Kaminer estava aliviado. "Sei lá se depois de ver isso continuava a dormir bem", rematou ele, enquanto virávamos costas à Igreja de São Francisco e nos dirigíamos ao centro da cidade.





Ao almoço, falou-nos sobre um curioso empreendimento. Um amigo dele, alguém importante no mundo das editoras (mais um VIP cujo nome esqueci) é casado com uma mulher com raízes na Croácia. Há anos decidiram ir conhecer a terra dela, e apaixonaram-se por uma ilha. Juntaram entre os amigos - do mundo das artes e da literatura - dinheiro para fazerem um hotel sem terem de se endividar nos bancos. Em troca, ficam com direito a ocupar o hotel gratuitamente duas semanas por ano. O resultado é que os proprietários (escritores, músicos, editores, publicistas, actores, etc.) passam duas semanas juntos numa ilha paradisíaca a trocar ideias e a dar-se mutuamente força e apoio nos projectos de cada um. Entretanto iniciaram um segundo projecto: a população da ilha vivia muito da construção de barcos de madeira, que agora já quase ninguém compra. Para reavivarem essa arte, foram buscar um antigo veleiro ao museu, e estão a pagar a sua recuperação, outra vez com capitais próprios. O veleiro permanece propriedade da população e, uma vez recuperado, durante vinte anos cada um dos investidores poderá usar o veleiro gratuitamente durante uma semana por ano, pagando apenas o salário do capitão. Quando não for usado pelos "capitalistas", a aldeia pode alugá-lo a turistas.
Esta história deixou os portugueses daquela mesa muito pensativos. Parece um ovo de Colombo, porque será que não nos lembrámos antes? Porque será que não tentamos isto no nosso país?

Partimos para Lisboa a toda a brida. Ia começar o trabalho: três entrevistas com jornalistas, lançamento na Feira do Livro, russendisko. Antes fomos deixar as malas no hotel. Quis surpreendê-los com o hotel Pestana Palace, gozava antecipadamente a cara que fariam ao entrar no palacete - mas quem acabou por fazer cara de surpresa fui eu. Ao virarmos para a rua Jau, a Olga disse que conhecia aquele lugar. Anos antes, tinham visto uma reportagem sobre esse hotel no jornal FAZ, tão interessante que decidiram ir a Lisboa experimentar. Foi justamente durante essa estadia que aconteceu o furto de que fala no livro Ich bin kein Berliner. Eu a pensar que lhes ia mostrar algo nunca visto, e afinal eles já conheciam o hotel muito antes de mim!

As entrevistas foram morosas. A pergunta era feita em português, o Lutz e eu traduzíamos para alemão, o Wladimir Kaminer respondia, nós traduzíamos para português. Isto, quando corria bem. Porque às vezes o Wladimir esquecia-se que estava numa entrevista, e começava a contar mais uma história ao Lutz. A Olga interrompia-o, chamava-o à razão. Outras vezes, e isso era muito divertido, o Lutz esquecia-se em que língua estava a falar, e repetia em português, para o russo, o que o entrevistador tinha acabado de perguntar. Ou respondia em alemão, para o entrevistador português, o que o escritor tinha dito. Em alemão, sim, mas - honra lhe seja feita! - com outras palavras. Perante as perguntas, sempre as mesmas (porque decidiu escrever? porque escreve em alemão? etc.), tive de conter o impulso de dizer toda contente "deixem-me responder a mim, eu essa resposta sei!", em vez de as traduzir mais uma vez para o Kaminer. E ainda bem que me contive, porque ele punha um ar radiante, tipo "fico muito feliz por me fazer essa pergunta", parava um bocadinho para pensar, e dava uma resposta diferente da que dera ao jornalista anterior, mas igualmente autêntica.
Uma horas mais tarde, a caminho do hotel depois da russendisko, comentei esses episódios com ele. "Descobri já há vários anos que uma pessoa muito cheia de si não vai a lado nenhum. O melhor caminho é o da humildade." - foi a resposta.

Foi um prazer assistir ao trabalho do José Riço Direitinho. Repetiu algumas das inevitáveis perguntas, mas foi muito além. Nomeadamente quando o Kaminer conta, pela - para mim - quarta ou quinta vez, aquela sua teoria das pessoas expulsas do paraíso tentando recriá-lo de memória, e desembocando sempre em infernos todos diferentes uns dos outros, e o entrevistador dispara: qual é a diferença entre o inferno alemão e o português?
O Kaminer parou para pensar, e desta vez era a sério. E saiu-se com uma resposta surpreendente em alguém que não conhece muito bem o nosso país: "O inferno alemão é um bocadinho como nas festas da Russendisko, escuro, apertado, cheio de gente suada. O inferno português é mais poético, é como a história de Ulisses e Penélope: uma parte dos portugueses saiu do país, e a outra parte ficou à espera. Portugal descobriu o mundo mas perdeu-se nele."

Sobre o lançamento na Feira do Livro, já escrevi aqui e aqui.

Sobre o jantar, no Pharmácia, vou primeiro averiguar quanto é que a Editora está disposta a pagar pelo meu silêncio. Adianto apenas que muitas vezes surpreendi o escritor com cara de pré-nirvana e acção de graças, por conta da equipa que lhe tinha produzido o livro em português.

Sobre a Russendisko, escrevi aqui, aqui e aqui. Acrescento ainda que as minhas patroas da Editora estavam com cara de pré-nirvana e acção de graças por conta do escritor que lhes saiu em rifa, e da sua mulher - que fez da russendisko na Pensão Amor algo realmente extraordinário.
Para terminar, uma informação devida: os vídeos dos Kaminer a dançar foram feitos pela Carla R., e o de uma tonta que ouve música russa e acha que é árabe foi feito pelo Paulo Almeida, que felizmente veio à Russendisko num pé e saiu noutro - sabe-se lá que provas materiais viria ainda a coleccionar na Pensão Amor, se tivesse mais tempo.

(foto da Carla R.)

A Russendisko acabou à uma da manhã.
Descemos a rua da Alegria a conversar, apanhámos um táxi para o hotel. Eles estavam simplesmente esgotados. O que ninguém diria, se os visse momentos antes na Pensão Amor. Suspeito que a Russendisko não dure muitos mais anos, e congratulo-me por ter acontecido ao menos uma vez em Lisboa.

Foi o terceiro dia.

3 comentários:

Ana Vicente disse...

Penso que é este: Água de Prata. http://www.aguadeprata.blogspot.pt/ :)

Helena disse...

Esse mesmo, sim! obrigada, Ana.

António P. disse...

Estou a gostar destas suas crónicas da viagem a tralala, ou antes a Portugal.
Já vi que a Ana Vicente se antecipou. É esse mesmo.
Fico à espera de mmais crónicas e já comecei a ler o livro (ontem) :)