13 janeiro 2012

querido diário,

Isto está muito mal feito: consultórios de médicos que têm revistas fantásticas na sala de espera, mas estão tão bem organizados que uma pessoa mal tem tempo para ajeitar os óculos no nariz, quanto mais consolar-se com cultura geral da boa e da melhor.
Como hoje: entre chegar, mostrar o cartão, ir para a sala das radiografias, tirar a roupa, fazer as radiografias, vestir a roupa, ver que praia era aquela na fotografia do calendário (ah, Cannon Beach, bem me queria parecer), esperar um bocadinho e falar com o médico sobre o resultado das radiografias, não passaram nem quinze minutos.

Plano B: no próximo sábado vou para um daqueles cabeleireiros sem hora marcada, a ver se me ponho de novo a par do que tem acontecido em vários mundos paralelos ao meu.

O médico confirmou-me que ainda estou viva e para durar (eu já desconfiava que sim, mas convém sempre ouvir uma segunda opinião), e regressei a casa a pé, pelo Ku'damm, que está agora todo em saldos. Vi alguns trapitos engraçados que por causa dos vertiginosos descontos de 50% já só custam dois ou três salários mínimos. Não é que eu tenha alguma coisa contra blusas que custam dois mil euros, por acaso até tenho mais contra blusas que custam dez euros (e são as que eu compro) - só me pergunto como é ganho o dinheiro de alguém que se pode dar ao luxo de pagar dois mil euros por uma blusa.
O Valentino tinha vestidos vermelhos lindíssimos. Como é que ele fará para continuar a conseguir desenhar vestidos vermelhos tão originais, e equilibrados, e elegantes, e bonitos? Então, no capítulo "vestido vermelho", não está já tudo inventado? Parece que não. Ou então sou eu que não fui as vezes suficientes ao cabeleireiro e ao médico (mas a um com consultório mal organizado, daqueles onde se espera três horas), e pronto, lá se me escaparam duas ou três Vogues, e agora ando aqui a fazer figura de ignorante, triste vida.
Os vestidos vermelhos do Valentino custavam pouco mais de mil euros. Confesso que não estava à espera de preços tão baratos. Enfim, "tão baratos" é como quem diz, mas se penso Valentino à minha carteira dá-lhe logo um ataque de riso pânico, isto há carteiras muito preconceituosas, é o que é.
E foi então que me lembrei de um artigo que li há mais de vinte anos numa revista (talvez tenha sido daquela vez que resolvi cortar uma franja) sobre secretárias parisienses que se disponibilizavam uma ou duas vezes por mês para serviços sexuais de luxo (enfim, se seriam de luxo isso não sei, mas os clientes pagavam muito bem), para depois comprarem um trapito mais fino. Talvez um Valentino vermelho por mil euros, pensei eu hoje. 

E agora acabou-se o recreio, que tenho aí um trabalhinho simpático para terminar.
(Muito a propósito, aqui vai a descrição da vida de um tradutor, que recebi por e-mail esta manhã: em francês, em inglês. Tenho de ver se o autor me conhece, pareceu-me que sim.)

12 comentários:

Teresa disse...

Já me fartei de rir, pronto.

Devemos ter andado a ler os mesmos artigos há mais de vinte anos. Foi numa Elle, ou numa Marie Claire ou numa Marie France (também existia) francesa. Mas o que eu li era sobre donas de casa (logo, pessoas bem instaladas na vida, com maridos em bons cargos, com filhos em bons colégios e que pouco mais faziam do que bisbilhotar as lojas da Avenida Montaigne). Uma até apanhou pela frente um amigo do marido.

Helena disse...

A minha também era francesa, e foi há vinte anos, sim. Era no tempo daquela maquineta, como é que se chamava ela? Talvez Telecel - não tenho a certeza. Mas falava de secretárias, e não de donas de casa. E nenhuma apanhou com um amigo do marido.
Os tempos mudam: hoje em dia há miúdas que fazem isso, mas não é para comprar trapinhos, é para pagar o curso universitário.
(E depois ainda dizem que esta juventude está perdida...)

mdsol disse...

:))

jj.amarante disse...

Não era Telecel, era o Minitel, cujo nome também não me lembrava e aonde cheguei googlando "avant l'internet en France" -> -> .

Um dia ainda vou para tradutor.

Helena disse...

Minitel, isso mesmo!
Tradutor? Também gosta de se levantar cedo aos sábados para ir discutir temas desinteressantes com pessoas ao vivo?
;-)

jj.amarante disse...

Levantar cedo nem aos Sábados, nem aos Domingos nem mesmo aos dias de semana. Só em viagem. Não apareceram os links no meu comentário anterior, possivelmente por os ter entre parêntesis "agudos" (">" e "<"). Os endereços eram:
(http://fr.wikipedia.org/wiki/Internet_en_France) e (http://fr.wikipedia.org/wiki/Minitel)

Helena disse...

ai, quer-me parecer que não tem perfil para ser um bom tradutor...
;-)

jj.amarante disse...

Porquê, bastava fazer teletrabalho para empresas de Nova Iorque a partir de Lisboa, pegava às 11:00, quando lá são 06:00 sem qualquer dificuldade.

Helena disse...

Ah, isso é que era bom. A experiência que tenho com essas empresas é que dão o trabalho ao fim do dia, quando o "fornecedor" está a dormir, contando que ele madruga e o trabalho já está feito no dia seguinte logo pela manhãzinha das empresas.
Já fui "project manager" numa empresa de tradução em San Francisco, sei do que falo. Só os tradutores na Coreia é que me trocavam as voltas: nunca sabia se lá já era ontem ou amanhã.

jj.amarante disse...

Nesse caso escolhia os australianos com quem tenho trocado bem e-mails: tenho o dia todo para preparar a resposta, envio ao fim do dia e quando regresso ao emprego de manhã já tenho a resposta deles.

Paulo disse...

Não sei se me diverti mais com o post, com a descrição da vida de um tradutor independente ou com estes comentários.

Helena disse...

Ó Paulo, tu decide-te! ;-)

jj.amarante: pois, parece que a Austrália é que está a dar. A ver se arranjo lá clientes!