01 dezembro 2011

e ela sorri

Ontem havia Jaroussky e Freiburger Barockorchester com Petra Müllejans na Filarmonia. No programa, só Händel.
A Filarmonia estava diferente: com os aprumadinhos do costume e os jovens em roupas desmazeladas do costume (agora me lembro que já levei lá dois portugueses em t-shirts com buracos - disseram-me que eram as mais limpas que tinham, hehehe), mas com muitos mais casais homossexuais que habitualmente. Ai os malandros, querem lá ver que vinham ao mesmo que eu?...

Levei os meus binóculos novos, prenda de aniversário, e sentei-me na cadeira, toda contente com esta minha nova prótese é-para-te-ver-melhor-minha-netinha.  

Começou com uma peça orquestral, diziam eles que era uma abertura, mas eu desconfio que foi um truque para aumentar o suspense. "Deixa-os esperar mais um pouco antes de lhes soltarmos a nossa estrela à frente dos olhinhos", terá pensado a organização. Pois bem: foi uma grande ideia. Sei lá se me teria sobrado alguma atenção para saborear a Petra Müllejans. E teria perdido o verdadeiro espectáculo dessa noite. Ela toca o violino como se fossem um casal antigo, daqueles casais que se entendem muito bem, daqueles que gostam de rir juntos. Soltou-se em alegria e entusiasmo nas peças instrumentais, os olhos dialogavam com a orquestra, o corpo inteiro brincava divertido. Agora parava, antecipando um momento de tensão, que logo a seguir resolvia com um salto do tronco e do braço em arco sobre o violino, agora agitava-se inteira na onda da melodia, os joelhos cediam e faziam baloiçar o corpo. E sorria.

O Jaroussky entrou durante o intróito da sua primeira ária. Mais uma grande ideia, quase me apeteceu agradecer por escrito à organização: permitia estar ali mais para ouvir a música que para aclamar o superstar. No fim da primeira ária, a minha vizinha da esquerda dizia "ah, mas o Scholl, o Scholl" e o da direita perguntava, rindo, se eu queria emprestar os binóculos à fila toda. O vizinho da direita não batia palmas.

Sobre o Jaroussky não me vou alongar muito. Já sabem: a voz, esplêndida nas árias mais lentas e sentidas, mas um pouco fraca nos exercícios de virtuosismo das mínimas e semínimas. A cara, aquela carinha, ai, aquela carinha atravessada pelo sofrimento que corre das árias. E sobretudo: as mãos do Jaroussky. Da próxima vez levo um telescópio em vez de binóculos, que as mãos do Jaroussky pedem para ser vistas com o maior detalhe. E por trás das mãos do cantor que acariciavam o ar em delicados movimentos, a Petra Müllejans sorria.

Do programa, gostei especialmente desta:



A abençoada orquestra continuou sem pausa para uma peça instrumental, o cantor abandonou o palco sem ovação, eu muito grata por esse resto de eco que nos era permitido, e tão bem se misturava com a nova melodia da Sarabande.

A seguir, a "Ombra cara":



Por mim, o concerto devia ter acabado ali. Mas não. Ainda veio mais uma ária de Fórmula Um para cordas vocais, e depois muitas palmas, e depois os encores - que me deram outra vez vontade de ficar ali a noite toda: "Sì dolce è il tormento" e "Alto Giove" (e um terceiro, que já não lembro qual foi).

A minha vizinha da esquerda corria sérios riscos de começar a ser infiel ao Scholl. O da direita não aplaudia, nem por um momento aplaudiu. Vi-lhe os olhos cheios de água, sorrimos.

6 comentários:

Paulo disse...

Essa tua primeira escolha e "Alto Giove", que aqui também foi um extra, foram as minhas preferidas. Não traí a fidelidade ao Scholl.

Carlos Azevedo disse...

[suspiro "invejoso"]

Helena disse...

Carlos,
Suspiro "invejoso"?!
Mais um que quer os meus binóculos?...
;-)

Paulo,
da próxima vez que o Scholl aqui passar, não me escapa. Por acaso fui ver os concertos dele, e o malandro não tenciona vir em breve a Berlim. Em compensação vai a Lisboa no único mês em que não devia!

Carlos Azevedo disse...

Há poucos anos, vi um concerto do Scholl na Casa da Música: magnífico!

Helena disse...

Eu temo que ele, se vier a Berlim, seja impagável. Outro dia estive a ver os preços para o Kaufmann, e era de 90 euros para cima.
Ora, por 90 euros, até eu cantava tenor! ;-)

Carlos Azevedo disse...

Helena, não lhe sei dizer quanto paguei pelo concerto, mas asseguro-lhe que foi bem menos de 90 euros!

(e eu cantaria soprano, o que seria uma verdadeira façanha, porque a minha voz, mesmo para homem, é muito grave! :-)