13 novembro 2011

quebrar a coluna vertebral a um país

Depois do curto encontro com três mulheres polacas, que referi no post anterior, fiquei a pensar no que aconteceu na Polónia durante a guerra: juntamente com o exército invasor, foram enviados por Himmler grupos paramilitares com a função de combater a resistência na retaguarda da linha de combate e aniquilar a intelligentsia polaca. Levavam listas com o nome das pessoas a abater (professores, médicos, juristas, padres e bispos, representantes dos partidos operários e dos sindicatos) e só nos primeiros quatro meses da guerra mataram 60.000 civis polacos.

No centro de Berlim, muito perto da Porta de Brandeburgo, já se encontram o memorial do holocausto do povo judeu e o dos homossexuais perseguidos pelo regime nazi; em breve será inaugurado, nas proximidades do Reichstag, o memorial do "holocausto esquecido" - a perseguição aos Roma e Sinti. Não muito longe, junto à Filarmonia, lembra-se a eutanásia das pessoas com doenças mentais e genéticas. Já são muitos memoriais, é certo, e todos eles fundamentais, mas - em minha opinião - falta um. Para que todos saibam e ninguém esqueça que houve este crime odioso: que se quis aniquilar a intelligentsia, assassinar todos os seus intelectuais, para quebrar a coluna vertebral a um país.

10 comentários:

Anónimo disse...

Um trabalho dividido com a Rússia, em Katyn e em muitos outros sítios e momentos.
O único problema é que há uma parte da Polónia que se compraz na auto-vitimização e no ressentimento nacionalista. A facção dos irmãos Kacjynsky. Poucos países beneficiaram tanto da integração na EU coimo a Polónia.


Pedro

Carlos Azevedo disse...

Demasiados crimes, todos horríveis.

beijo de mulata disse...

Arrepiante! Absolutamente arrepiante saber que houve crimes tão hediondos há tão pouco tempo. E sabe Deus os que se passam nas nossas barbas...

(um) beijo de mulata

Interessada disse...

É óbvio que a intelligentsia será sempre o maior inimigo da barbárie.
E penso que não seria demais estes memoriais terem cópias disseminadas por todos os países.
No meu país as minorias são segregadas nas escolas, e quando adultos é-lhes negado o direito ao trabalho.

Anónimo
Não era suposto que houvesse benefícios para quem fizesse parte da UE?
Ou no seu entender isso não só legitima a barbarie, como deveria justificar a obrigatoriedade de silêncio?

Helena disse...

Interessada,
O anónimo chama-se Pedro.
Estes memoriais exigem um trabalho sério da memória. Não basta uma placa ou uma pedra. Disseminá-los por todos os países tem o risco de se cair numa espécie de folclore. Já aqui, onde essas coisas são levadas muito a sério, se fala nesse risco.

Mas parece-me muito bem que cada país meta a mãozinha na consciência e veja o que está a correr mal e é preciso mudar.

Helena disse...

Pedro,
eu sei que nestes crimes os alemães não andaram sozinhos. Mas os alemães, de um modo geral, têm a decência de falar apenas dos crimes que eles próprios cometeram, sem a desculpa de "e sou só eu? cadê os outros?".

Contudo, apesar de tudo o que outros países fizeram, parece-me que há aqui uma diferença substancial de grau: os paramilitares do Himmler entraram na Polónia com listas de nomes de pessoas a abater, e com a missão de (escrito preto no branco) "aniquilar a intelligentsia polaca".

Gosto imenso dos polacos que conheço. Gosto menos do papel da Polónia na Europa - nomeadamente uma certa chantagem e esse tom de ressentimento. Mas não quero ser demasiado severa, porque sei que a Polónia tem uma história de muito sofrimento causado pelos vizinhos, e não é possível esquecer isso num par de décadas e passar a acreditar na bondade dos outros.

Interessada disse...

Helena
Quando penso no que disse estou essencialmente a pensar na educação das crianças e das gerações vindouras.
São marcos que não deixarão esquecer, pois os homens por vezes têm a memória curta.

Helena disse...

Interessada,
eu compreendo inteiramente. Mas parece-me que isso passa mais pelas aulas de história e filosofia (e também pelo modo como se discutem as ideias - a começar já pela mania de chamar nazi por tudo e por nada, sinal de que as pessoas não sabem o que isso foi) que por memoriais largados numa cidade qualquer.

Interessada disse...

De acordo :)

Anónimo disse...

O passado já passou e andar a falar dele é como correr atrás do vento. Só serve apenas para se aprender algo com ele, se se quiser. Milhares de anos de história mostram que o homem ainda tem dificuldade de aprendizagem.

Depois, cada país tem telhados de vidro, sem excepção.

Muitos portugueses já esqueceram o que andaram a fazer no seu país e fora dele......E não foi só paz e amor.

Maria