05 novembro 2011

O Retorno - texto lido na sessão de lançamento do livro

Texto que a escritora Dulce Maria Cardoso leu na sessão de lançamento do livro "O Retorno". Encontrado na página facebook da editora tinta-da-china.



É muito bom estar aqui convosco. Mas tenho que confessar-vos uma coisa: não estou completamente aqui convosco. Cada vez que estou num hotel nunca estou completamente no presente; para mim um hotel nunca é só um hotel, nunca é só um sítio onde fico instalada por uns dias quando estou longe de casa. Um hotel é uma espécie de máquina do tempo e do espaço que me transporta sempre para outro hotel, o Hotel Paris, no Estoril, quando eu tinha 11 anos. Há precisamente 36 anos o hotel Paris era a minha casa. Quando tinha de preencher as fichas de aluna no ciclo, e mais tarde no liceu, na linha em que era pedida a morada eu escrevia Hotel Paris quarto 315. Até que uma professora me disse “não precisas de indicar o número do quarto” e eu passei a escrever apenas o meu nome, os nomes dos meus pais, a minha naturalidade Amedo, Carrazeda de Ansiães, e na morada apenas: Hotel Paris.
Também a Beatriz Costa terá indicado muitas vezes este hotel onde estamos – o Hotel Tivoli - como morada. Só que a nossa situação era diferente. O que me fez, a mim e à minha família, viver durante mais de um ano num quarto de hotel foi uma experiência alternativa e radical mas também muito diferente daquelas que experimentaram e experimentam muitos artistas que decidem viver em hotéis como seja o Hotel Chelsea. Em 1975, as pessoas que enchiam os hotéis em Portugal não eram artistas ou afins. Eram retornados. Retornados das colónias que não tinham para onde ir. Alguns deles foram encontrados mortos nos quartos, como aconteceu com alguns famosos no Hotel Chelsea. Só que em relação aos retornados não havia glamour nenhum nisso. Quem se matava, matava-se por excesso de lucidez e isso não tinha interesse nenhum. Nunca ninguém ia querer contar ou sequer lembrar o que os retornados viveram e como viveram aqueles anos.
Eu quis. Eu estava lá. Eu era um deles. Durante todos estes anos soube que um dia haveria de falar do que testemunhei, do que vivi. Falar não, escrever. Escrever e mostrar-vos. Esse dia chegou. Esse dia é hoje.
O que então se viveu foi uma espécie de espectáculo de realidade muito antes destes terem sido inventados: fez-se com que muitos milhares de pessoas abandonassem as suas casas, só lhes foi permitido trazer cinco contos, despejaram-se essas pessoas em hotéis, pensões e residenciais, que ficam a abarrotar, e deixou-se estar. Como nessa altura as maravilhas dos espectáculos de realidade ainda não tinham sido descobertas não foi “deixa-se estar a ver no que dá”, foi só “deixa-se estar”. Ainda não era um espectáculo da realidade, era só uma realidade irreal. Nós, os retornados, tínhamos segredos e sabíamos de histórias terríveis mas ninguém se interessava por isso. Não havia câmaras a registar o que acontecia, nem televisões a difundir, nem audiências nem prémios. Só concorrentes forçados. Também não havia duração pré-estabelecida para o tempo que aquilo ia durar mas toda a gente sabia que não podia durar para sempre. E o pior de tudo era não haver casa para onde voltar quando tivessemos que sair dos hotéis.
Tinhamos chegado de longe, de África, mas mais do que de continente tinhamos mudado de tempo e já não havia como regressar. As viagens no tempo são sempre só de ida. As de volta também acontecem mas nunca nos deixam despachar o corpo. Por isso mais do que estarmos encurralados num espaço estavamos encurralados num tempo.
E o tempo armadilha mais e de forma mais terrível do que o espaço. Era preciso inventar uma saída: uma saída e uma casa. Porque apesar de escrever Hotel Paris na linha da morada nas fichas de aluna, o Hotel Paris nunca foi a minha casa. Só podemos chamar casa a um sítio a que sentimos pertencer. Não podemos chamar casa a sítio que nos rejeita. Um sítio ou outra coisa qualquer. Mas talvez a essência da vida seja isso mesmo: procurar a nossa casa, um sítio a que se pertença. Um sítio ou outra coisa qualquer. Se houve alguma utilidade na experiência por que passei enquanto retornada essa foi com certeza uma delas: tornar-me consciente dessa necessidade.
Em relação à questão da armadilha do tempo e do espaço sempre achei, aliás, que ela se evidenciou de forma material em mim. Comigo foi assim: nasci em Trás-os-montes, na verdade não propriamente no tal Amedo, Carrazeda de Ansiães, que escrevia nas fichas de aluna e que continuo a ter de escrever sempre que me pedem a naturalidade, mas sim numa outra aldeia ali perto: Fonte Longa. A razão de a minha mãe ter trocado o bonito nome da aldeia onde eu nasci e que era também a aldeia onde ela tinha nascido e vivido – Fonte Longa - e me ter registado como sendo de uma outra com o sombrio nome de Amedo, tem que ver com o facto de Amedo ser a aldeia do meu pai. Isto tudo porque o meu pai não estava connosco quando eu nasci. Mas para que não sobrassem dúvidas que esteve presente nove meses antes a minha mãe achou que era conveniente que fosse a terra dele e aquela onde fui concebida que constasse na minha identificação. E assim ficou registado Amedo. A medo ou não o meu pai havia entretanto partido para Luanda. A minha mãe e a minha irmã ficaram para trás à minha espera. Depois de ter nascido esperámos ainda mais seis meses e metemo-nos então a caminho. O meu pai esperava-nos em Luanda. O meu pai e uma vida nova. Durou pouco mais de dez anos.
Mas vinha isto a propósito de durante esses dez anos o meu corpo não ter parado de crescer. Quando fomos obrigados a voltar para cá nas vésperas de fazer onze anos eu era uma verdadeira matulona. Chegada aqui o corpo parou de crescer e desde então fiquei convencida que afinal o funcionamento dos nossos corpos não é muito diferente do dos bolos: se alguém abre a porta do forno de forma imprudente ou antes da altura certa, não há nada a fazer, o bolo não cresce mais. Tive até sorte de não ter mirrado. Deixar o calor de Luanda para o frio do outono em Lisboa – eu não sabia sequer o que era o frio – tinha mesmo de atrofiar-me o crescimento. No mínimo. É assim que na minha identificação consta Amedo em vez de Fonte Longa e uma altura de 1,64 em vez do 1,80 que me estava destinado.
Sempre culpei o frio por o meu corpo ter parado de crescer. O frio ou a desilusão. Porque para quem vivia nas colónias a metrópole era uma espécie de paraíso distante onde tudo era maravilhoso. Chegar aqui em 1975, ainda mais nas condições em que chegámos, foi quase devastador. Um dos capítulos de “O retorno” que mais escrevi e re-escrevi é o da chegada aqui. Das muitas e muitas páginas acabou por sobrar apenas uma frase: “Então a metrópole afinal é isto”. A desilusão é uma página quase em branco.
Mas nós, os retornados, nunca fomos muito reais. A improbabilidade de tudo aquilo por que estavamos a passar dava-me uma sensação de desrealização: aquilo não podia ser verdade. Como era possível que a vida que tinhamos vivido até ali tivesse acabado assim abruptamente? Como é que nos tinhamos vindo todos embora sem nada? Como é que não tendo nada estávamos instalados em hoteis? Tenho a certeza de que se à ingenuidade infantil de então tivesse sido possível juntar a cultura mediática de hoje ter-me-ia convencido de que fazia parte da equipa de um novo programa televisivo, talvez um “Querido, mudei o hotel”. A razão para se ter obrigado os portugueses a regressar de África sem nada, para depois instalá-los em hotéis, muitos deles de luxo, só podia ser essa: os retornados eram a equipa de trabalhadores do um projecto megalómano “Querido, mudei o hotel”. A revolução e a descolonização eram apenas uma fachada. A verdadeira motivação era esta: recrutar de forma gratuita uma equipa que iria mudar em pouco tempo os hotéis em Portugal. Não era com certeza por acaso que o nome de um dos principais responsáveis pela revolução era Otelo. Não há coincidências. Os retornados revelaram-se uma equipa profissional e eficaz e o projecto “Querido, mudei o hotel” foi um sucesso: em pouquíssimo tempo, o luxo dos hotéis desapareceu e tudo ficou mais conforme com o ambiente proletário que então se vivia. Por uns tempos, claro.
Só que em 1975 não havia televisão em Angola e eu nem sabia bem o que isso era. Mas tinha a ingenuidade que quase todas as crianças têm. E por isso a maneira que encontrei de lidar com toda aquela irrealidade foi transformar-me em personagem, tentar convencer-me de que eu era a protagonista de uma história de aventuras. Uma história de aventuras bastante menos verosímil do que as da colecção dos Cinco ou das Gémeas do Colégio de Santa Clara mas ainda assim passível de ser contada. Por isso tinha de estar atenta e decorar tudo. E foi isso que fiz: decorei tudo.
Com o tempo, muitos anos depois, apercebi-me de uma coisa terrível: eu tinha decorado aquilo a que assistira mas não apenas no sentido de ter memorizado tudo, eu tinha também decorado aquilo a que assistira no sentido em que se decora uma casa: para embelezá-la, para nos sentirmos confortáveis nela. E isso era terrível porque aquilo com que nos sentimos confortáveis é quase sempre improdutivo. O que fazer então com todo aquele material semi-amansado que guardava em mim? Como devolver-lhe a pureza, recuperar-lhe a verdade? Como utilizá-lo de forma a ser justa para com o que acontecera? Foram precisas mais de três décadas para ter a certeza de que estava pronta. Não me interessava contar a minha história mas sim usar o que tinha vivido e testemunhado para criar uma ficção que pudesse contribuir para que de futuro o sofrimento por que muitos passámos pudesse ser evitado.
Espero tê-lo conseguido. Tentar entender aquilo por que passamos quando uma perda se dá - negação, atracção, consumação, espera, desespero, aceitação, luto, sobrevivência – faz com que possamos estar alertados para os danos que uma perda causa e que evitemos contribuir para que outras aconteçam. Ou pelo menos, não podendo evitar que aconteçam, podemos tentar minimizar o sofrimento associado.
Esta festa também faz com que me lembre da primeira festa a que fui, na metrópole. Naquela altura os retornados eram facilmente identificaveis pelos de cá: pela forma como nos vestiamos – roupas que tinhamos trazido de lá e que não eram habituais aqui ou roupa que nos era dada por organizações de caridade e que nunca era apropriada – pelo tom de pele, pelo sotaque. Eramos facilmente identificaveis e ninguém se queria dar connosco: tínhamos estado em África a explorar os pretos e tinhamos condutas reprováveis. Nunca era convidada para os aniversários dos meus colegas. Via os outros serem convidados e eu não. E ficava triste. Não é fácil lidar com a rejeição. Até que um dia houve uma colega que me convidou. Nem consegui dormir, tão contente fiquei. Preparei-me para a festa, entusiasmada. Pensava nas festas de Luanda e mal podia esperar que o dia chegasse. Mas o dia chegou e a festa resumia-se a um gira-discos colocado em cima de uma cama, à volta da qual pouco espaço havia para dançar, e a um lanche em que o grande atractivo eram pratinhos com bolachas Maria empilhadas e moles. Percebi imediatamente que não queria aquelas festas. Passar de rejeitado ao que rejeita por vezes demora menos de nada.
Já ninguém consegue identificar e reconhecer os retornados. É o que se chama integração: deixa-se de dar conta daquilo que eram os elementos estranhos. Será porque eles deixaram de ser distintos ou porque passaram a usar uma máscara que faz com que ninguém seja já capaz de reconhece-los como estranhos? Estou convencida de que estarmos integrados, retornados ou não, tem mais que ver com combinarmos usar todos a mesma máscara. Despidos da mesma farda, sentimo-nos mais ameaçados ou mais ameaçadores. Raramente queremos isso.
Hoje aparentemente estamos em paz. Em crise mas em paz. Portugal é um pouco como o filho da Silvana, uma das personagens do romance: por um lado, filho da prudência ou cobardia de quem se deixa ficar e aceita continuar a servir, por outro, filho da infantilidade ou ousadia de quem quer partir e não se conforma com o que lhe é oferecido. E a pairar sobre estas duas forças contraditórias que determinam talvez uma certa esquizofrenia do país, as suspeitas de ilegitimidade, bastardia e infertilidade.
Quanto ao contributo que os retornados poderão ter dado para este Portugal acho que não me engano muito se vos disser: Queridos, mudámos o país. Pelo menos um bocadinho.

Dulce Maria Cardoso

3 comentários:

Mar* disse...

Obrigada Helena, mais uma vez.

Tenho imensa curiosidade em relação ao livro, está certamente na minha lista. Acho que ainda há tanto para contar sobre aquela época e tenho medo que as gerações mais novas nunca venham a saber verdadeiramente o que se passou.

Tudo isto me fez lembrar de um episódio que ouço contar desde que me conheço por gente, o dia em que dois matulões, demasiado morenos para o Inverno que se fazia sentir no norte de Portugal, apareceram sem aviso à porta de casa dos meus avós, dentro de um táxi e com uma mala cada um. Eram os "primos de Benguela", que a minha mãe e o meu tio só conheciam através de umas fotografias pequeninas enviadas juntamente com uma carta a dar conta das saudades da família. Duas semanas mais tarde chegaram os pais, com pouco mais do que uma mala cada um também. Durante quase dois anos, houve que apertar no espaço e no orçamento familiar, para possibilitar um recomeço o menos traumático possível àqueles quatro familiares. Traziam com eles o conhecimento de coisas incríveis, como a Coca-Cola ou o leite condensado, com que diziam fazer sobremesas deliciosas. Outro tempo, de facto.

CCF disse...

Também quero muito ler. Aos 11 também era uma menina "rerornada", confusa com o mundo em que tinha passado a viver. E este texto é delicioso.
~CC~

Helena disse...

CC, este texto é delicioso, sim. E o livro é mesmo muito bom (mas não me pagam comissão...)

Mar,
deve haver inúmeras histórias dessas. Foi um período de muito sofrimento e muita humilhação. Enquanto ouvia aquela apresentação do livro "os medos secretos dos alemães" pensei imenso no não verbalizado que anda há 30 anos com os retornados. É bom que se façam muitos livros assim, e se fale disso abertamente.