14 outubro 2011

o "fim do mundo" numa acepção berlinense

Wladimir Kaminer conta, no livro que estou a traduzir, que foi vender jornais no fim do mundo, em Charlottenburg. Parece simples, mas...
Kaminer é um russo que aproveitou a perestroika para fugir de Moscovo, e encontrou abrigo em Berlim leste, mais concretamente em Marzahn. Charlottenburg é um bairro de Berlim ocidental. A história que conta no livro passou-se pouco depois da queda do muro, quando a cidade estava ainda dividida em dois blocos visceralmente diferentes. Ninguém ia de Charlottenburg a Marzahn (nem vai, mesmo vinte anos depois da queda do muro) e ninguém ia de Marzahn a Charlottenburg (nem vai, excepto quando os neonazis decidem desfilar no Ku'damm...) (hiiiiii, há que anos que não escrevia uma boca tão foleira).
Ir de Marzahn vender jornais a Charlottenburg é mais que ir ao fim do mundo: é ir para um outro mundo.
Como explicar isto ao público que não conhece Berlim, sem nota de tradução (que odeio) nem duas frases suplementares?

***

E eis como, encostando-me descaradamente aos concursos de inutilidades dos blogues de gajas, inicio aqui um concurso. De tradução.
A frase, traduzida literalmente, é:

Pelo que nos separámos, e eu pus-me a caminho do fim do mundo, para vender a minha pilha de jornais “Berliner Express” na Sophie-Charlotte-Platz.

Quem quer dar ideias?

O prémio?, perguntam. Ah, o melhor de todos: a satisfação de uma tradução bem feita.

11 comentários:

Conde de Oeiras e Mq de Pombal disse...

Pelo que lá nos separámos e eis-me a caminho do fim do mundo, para ir vender a minha pilha de jornais "BE" lá para a remota Pç. Sofia-Carlota.

Carlos Correia de Sá disse...

Como a ignorância é muito atrevida, aqui vai a minha sugestão:

Pelo que nos separámos, e eu dirigi-me para o fim do mundo, a Praça Sophie-Charlotte, para lá vender a minha pilha de «Berliner Express».

Leonor disse...

Muito difícil. É que não é só por ser o fim do mundo, é por ser substancialmente diferente, um outro mundo. Diria que ir de Charlottenburg a Marzahn é que é ir para o fim do mundo. Não sei mesmo.
E já agora, Helen, como leitora profusa de Kaminer estou curiosa, qual é o livro que está a traduzir?

Leonor disse...

Tinha lido mal, sim, do fim do mundo :)

Helena disse...

Senhor Conde,
"fim do mundo" e "remota" é mais ou menos a mesma coisa, não?

Ao ler as duas sugestões, ocorreu-me algo um pouco mais ousado: ...pus-me a caminho de Berlim ocidental, para ir vender a minha pilha de jornais "BE" na Sophie-Charlotte-Platz.

Parece-me que trocar fim do mundo por Berlim ocidental dá muito melhor a ideia do "salto epistemológico" que ele está a dar...

(e, já agora: vocês dizem "praça de la Concorde" ou "praça da Concórdia" em vez de Place de la Concorde?)

Helena disse...

Leonor,
tanto quanto sei, para cada um deles o outro é o fim do mundo. O curioso é que ainda hoje, vinte anos depois da reunificação, esses dois mundos não se misturam...

O livro é "die Reise nach Trulala". Já leu? Um dia que apanhe o Kaminer num momento de fragilidade (hihihihi), ainda lhe pergunto quanto daquilo é simplesmente inventado.

Leonor disse...

Já li e fartei-me de rir mas fiquei exactamente com a mesma dúvida: quanto daquilo terá sido inventado? Mas rende umas quantas risadas. Fico muito mas muito feliz com a tradução, já que não consigo partilhar o Kaminer com mais ninguém por causa da 'schreckliche deutsche Sprache' como diz Mark Twain (estou a brincar) e sofro de alguma solidão literária. Quando estive aí compre o penúltimo. Também é engraçado como todos os outros.

Carlos Correia de Sá disse...

Eu digo «Praça da Concórdia».
No caso desta tradução, eu até talvez preferisse «Praça Sofia-Carlota»…

Conde de Oeiras e Mq de Pombal disse...

E eu se for preciso até digo Praça da Bastilha, Porta de Brandeburgo, Portas do Sol, Praça Maior, Avenida dos Campos Elíseos, Jardins das Tulherias, Coluna da Vitória e outras enormidades que tais, completamente "fora-de-moda"...


E discordo de que "remota" e "Fim do Mundo" sejam mais ou menos a mesma coisa (é assim como dizer que a Lua e o Sol estão mais ou menos à mesma distância de nós...), mas concordo com a Helena que "remota" nesta frase fica a mais, sobretudo por rimar com Carlota.

Substituo então a minha humilde versão por "(...), para ir vender, lá para a ocidental Praça S.-C., a minha pilha (...)".

Helena disse...

para a ocidental praça lusitana...
;-)

Tenho estado a pensar nessa coisa de traduzir os nomes das ruas e das praças. Se eu traduzir Kurfurstendamm para "alameda do príncipe eleitor" vou é criar grandes confusões. E alguém escreve "praça do New York Times" ou "praça do Tempos de Nova Iorque" ou "praça do Tempos" em vez de "times square"?
Talvez isto tenha a ver com o modo como uma cultura se apropria dos lugares da outra. Enquanto o museu do Louvre e a porta de Brandemburgo (aha! Brandenburgo ou Brandemburgo ou Brandeburgo?) são conhecidos por esse nome em Portugal, outros locais e ruas das cidades alemãs pura e simplesmente não são conhecidas por nome nenhum, e fica estranho traduzir esses nomes. Ou então são conhecidos pelo nome alemão (Alexanderplatz, Ku'damm), o que torna ainda mais estranho traduzir as outras, as desconhecidas, para nomes igualmente desconhecidos e irreconhecíveis nos mapas da cidade.

Este é o momento em que a tradutora começa a lavar daí as suas mãos, e faz uma notinha para o revisor...

Conde de Oeiras e Mq de Pombal disse...

Sim, de facto, traduzir literalmente a Ku'damm, o Palácio de Sans-Souci, ou mesmo a Alexanderplatz (menos difícil, porém...), já para não falar do Parque do Hyde, da Praça do Campo (em Siena), ou aí do Bairro da Cruz da Montanha, junto ao do Jardim Animalesco (;-)), não contribui em nada para esclarecer "quaisqueres" leitores...


O que, contudo, já não se poderá dizer de igual modo sobre... Nova Iorque, Londres, Sevilha, Bruxelas, Munique, Hamburgo, Colónia, os Cárpatos, o Danúbio Azul, o Brandeburgo - sim, sempre ouvi falar nos Concertos Brandeburgueses... -, a Morávia, a Boémia, a Bósnia, Belgrado (e toda a Sérvia e o Montenegro...), a Suábia, a Saxónia, a Renânia-Palatinado, a Vestefália, a Baviera, ou até o simpático Eslévico-Holsácia - sim, também não conhecia, mas foi esta a opção do Tradutor português do famoso «CULTURA - Tudo o que precisamos de saber», de um tal senhor Dietrich Schwanitz -, apesar de nos últimos tempos sermos inundados com as designações originais em bruto, sem qualquer tradução (que chegam ao ponto de já só se falar de New York, Piazza S. Marco, "Shoa" e quejandos, quando não mesmo palavras em Inglês de origem não-inglesa, como o famoso clube italiano, aquele, sim, o Milan, ou aquele russo, o Red Star!), o que acho pavoroso...


O mesmo acontece com os nomes próprios: o "Maical" Schumacher, o "Lutxiano" Pavarotti, a "Anguela" Merkel, o "Lev" Tolstoi!...


Sim, já perdemos o direito até ao Leão Trotski, ao João Sebastião Bach, ao próprio Miguel Ângelo! E um destes dias acordaremos em Portugal sem o Américo Vespúcio, sem o Frederico Guilherme da Prússia, sem o Arquiduque Francisco Fernando da Áustria, sem o Cristóvão Colombo, sem o Adolfo Hitler e até sem a própria Raínha de Inglaterra, Isabel II!!!


Alguém aqui falou em "apropriação cultural"? Pois falou muito bem! E a arma utilizada é a própria Língua, pilar central de toda a identificação cultural que se preze. Ou não...