12 setembro 2011

onde estava no dia 11 de Setembro de 2011?

No dia 11 de Setembro de 2011 acompanhei dois casais brasileiros em visita a Berlim.

Atendendo aos seus pedidos, o dia começou num bunker civil antiaéreo, melhor dizendo, num pseudo-bunker: nem à prova de gás nem à prova de bomba. Imaginando dezenas de pessoas fechadas em pequenos compartimentos subterrâneos, sem janelas e com as portas hermeticamente fechadas, sobre as suas cabeças o ruído das bombas, e na sala três velas, uma no chão, uma numa cadeira, a terceira perto do tecto. Quando a segunda se apagava, as crianças tinham de ser postas aos ombros dos adultos. Quando a terceira se apagava, todos tinham de sair imediatamente para a rua, para as bombas. Ou isso, ou morrer asfixiado. Passar à sala seguinte: a loucura dos últimos dias da guerra, os miúdos de 14 anos que recebiam um treino de seis horas antes de serem lançados com duas bazucas ao encontro dos tanques russos. Ou o veterano da primeira guerra mundial, que aos 69 anos saiu no seu uniforme do exército imperial, com a sua cruz de guerra, com o velho cantil das trincheiras onde tinha gravado o seu nome, e uma bazuca onde alguém colara um pequeno folheto de instruções de uso. Mais uma sala: a cidade em ruínas, as mulheres - esfomeadas, violadas, em luto pelos maridos e pelos filhos - que acarretavam toneladas de entulho em carrinhos de mão, em carrinhos de bebé.
Foi há seis décadas.       

Seguimos para Sachsenhausen, um campo de concentração que também funcionava como escola da SS. Dizem que era menos terrível que os outros, mas eu olho para aquilo e parece-me que o horror é como o infinito: um pouco mais, um pouco menos, continua a ser horror. 
- O que estão dizendo aqui nesta placa, Helena?
- "Zona neutra: atira-se para matar, sem aviso prévio"
- E aqui, o que estão dizendo aqui?
- Uma experiência: usaram dois prisioneiros para testar simultaneamente um novo submarino, minúsculo, e os estimulantes químicos para os manter acordados e operacionais durante quatro dias.
- E aqui?
Eu lia, e repetia aquelas atrocidades em português, uma por uma, sala após sala. Foi há seis décadas.

Regressámos a Berlim, passámos o muro na Bernauer Strasse, fiz um pequeno desvio para lhes mostrar o Checkpoint Charlie. Foi há duas décadas.

Deixei-os no hotel, fui respirar fundo para a Filarmonia.
Primeiro: Lohengrin. Aaaah. Fecha os olhos, esquece tudo.
Segundo: Anne-Sophie Mutter a tocar uma peça de música contemporânea, acompanhada por harpas que pareciam camiões indolentes e violinos muito semelhantes a microfones avariados. (eu sei, há-de haver algures uma porta por onde um dia entrarei e entenderei enfim tudo isto, mas de momento nem sei da porta nem da chave para a abrir)
Terceiro: uma peça extraprograma, em homenagem às vítimas do 11 de Setembro - Air, da suite nº3 de Bach. Interpretada com uma emoção tranquila, mais lenta do que nesta versão:



Quando pensava que nada poderia superar a beleza e a intensidade daquele momento, a Pittsburgh Symphony Orchestra começou a tocar a 5ª de Mahler, e eu zarpei no Titanic.

2 comentários:

Cláudia Coimbra disse...

Não há muralhas que nos protejam da nossa humanidade. E chorar é o melhor que nos podemos fazer.

Daíse disse...

Adorei !!!!!
Me encantei !!!!!
Voltarei sempre!!!!
Bjinhos !!!!