16 setembro 2011

histórias de outro mundo



Sabem a anedota da velhinha que todos os dias rezava para ganhar a lotaria, e um dia o céu abriu-se e uma voz ribombou "ao menos compra uma cautela!"?
Pois eu, nem rezar nem comprar cautela: ontem à tarde estava em casa a pensar calmamente na morte da bezerra quando o telefone tocou e era uma amiga a oferecer-me um bilhete para a 8ª sinfonia de Mahler, na casa do costume, com o maestro do costume, com a orquestra do costume.
(Não digo os nomes porque há aí gente que se zanga sempre que eu uso a F-word...) (bom dia, Teresa!)

Se a qualidade de um concerto se pode medir pelo tempo de silêncio que o público se concede antes de desatar a bater palmas, foi isto de bom: dois minutos.

Os cantores (quase 300, contei-os rapidamente, por dúzias, "uma, duas, três, quê? já uma grosa?!", num momento em que estavam a cantar em latim e eu não percebia - depois dei-me conta que no programa tinha a letra traduzida - e depois dei-me conta que me tinha esquecido dos óculos em casa - e muito depois a minha amiga que arranja estes bilhetes milagrosos disse-me que podia ter usado os dela) estavam espalhados por vários terraços da sala, que parecia demasiado pequena para tantos músicos. Nas galerias laterais havia cerca de oitenta rapazinhos do Staats- und Domchor Berlin, todos aí pelos dez anos de idade, a cantar de cor - esta cidade não cessa de me surpreender!

Depois do concerto fomos ao after-party no bar dos músicos. Estava a abarrotar de gente estourada mas feliz. Conheci o contrabaixista mais jovem da Filarmónica, um venezuelano incrivelmente simpático chamado Edicson Ruiz, um músico tão especial que aos 18 anos já era membro desta orquestra. Uma pessoa com um ar tão alegre e positivo que até me deu vontade de aprender espanhol só para charlar um bocadinho com ele de volta de uma cervejinha e uma bretzel. Também andava por lá o professor do Simon Rattle, com um ar muito satisfeito (se a qualidade de um concerto se pode medir pelo ar satisfeito do professor do maestro, foi isto de bom: rasgadíssimo sorriso, palmadinhas nas costas de todos os músicos com quem se cruzava).

No bar encontrei também outra conhecida minha destas andanças. Segredou-me que tinha sentido que aquela música era só para ela. Então, como é? Eu é que estava no meio da sala, no centro daquela música toda só para mim! Não me digam que o Simon Rattle anda a fazer o mesmo a todas?! 

Ao fim do dia, a questão que se me coloca é esta: como estariam alinhados os astros no momento em que eu nasci? Não é normal ter tanta sorte.

***

No próximo domingo podem ver a transmissão deste concerto ao vivo no Digital Concert Hall.
E aqui têm uma belíssima introdução a esta obra, feita por Simon Rattle:


10 comentários:

Gi disse...

Adorei a descrição, Helena.

Helena disse...

:-)
E eu nem descrevi o concerto, que faria se...
O concerto foi indescritível. Só vivido, só estando lá com todos os poros abertos directamente para a alma.

Carlos Azevedo disse...

Que maravilha, digo eu...
... não sem uma pontinha de inveja...

:-)

Helena disse...

Carlos, perca lá o amor a 10 euritos e inscreva-se para ouvir o concerto no próximo domingo. Fica com o direito de andar a vasculhar no enorme arquivo do Digital Concert Hall durante 24 horas, é mais ou menos como estar no armazém do Pai Natal, como estar com Ali Baba na gruta dos quarenta ladrões...

Paulo disse...

Nem a transmissão digital poderei ver.
Mas ainda bem que lá estiveste e nos contaste como foi.

sem-se-ver disse...

que maravilha, digo eu...
com a inveja a irromper por todos os meus poros!!

(nada de 10 euros que domingo é dia de viagem, não dá)

Carlos Azevedo disse...

Não me inscrevi porque não estive em casa -- talvez no próximo.

[sem-se-ver, V. é um terror! :-)]

Helena disse...

Carlos, ficarei atenta, para avisar outra vez.
Ou então, registe-se o Carlos na newsletter da Filarmónica:

http://www.berliner-philharmoniker.de/en/meta-navigation/newsletter/

Ana Paula disse...

Ai, que já estou a salivar pela 9ª...:-)Comprovarei que não é apenas dos teus olhos, dos teus ouvidos, nem apenas do modo como tudo consegues transfigurar com as tuas palavras!

Helena disse...

Ai, a minha responsabilidade!
E se chegares ao fim e não estiveres apanhada como eu?
(nesse caso: não percas o meu post do dia seguinte...)

No entretanto, aqui vai uma belíssima introdução à nona:
http://youtu.be/F3DHYRMoTN4