30 março 2011

sobre a derrota da CDU no domingo passado

A propósito deste post no Hoje há Conquilhas, um pequeno reparo: não é que os alemães estejam a ficar fartos das políticas "liberais" da Angela Merkel. Nem sequer é bem verdade que os alemães estejam a ficar verdes, ou a virar à esquerda (a pobre da SPD que o diga!), ou sabe-se lá.

O que aconteceu em Baden-Württemberg, onde a CDU governava há 58 anos e tinha algumas hipóteses de continuar a governar - apesar das catástrofes que houve sobretudo na gestão inicial do conflito "Stuttgart 21" -, é que o candidato da CDU ao cargo de "ministro-presidente" daquele Estado é um adepto convicto da energia nuclear, e as eleições foram muito ensombradas pela preocupação de que se dê uma terrível explosão em Fukushima.

Ora então sentem-se confortavelmente, que cá vai um bocadinho de análise de história contemporânea à minha maneira:

(este é o momento em que os olhos dos meus filhos começam a brilhar, "conta, mãe, conta!") (desconfio que só eles se deixam iludir tão facilmente... o amor filial é lindo)

No dia 12 de Março, estava a revista Spiegel a imprimir uma capa com imagens da tsunami e título "a natureza mortal" ou "a natureza inimiga", ou algo do género, quando chegaram as primeiras imagens da explosão em Fukushima. Cancelaram imediatamente a impressão dessa página, e fizeram outra: "o fim da era nuclear".


Isto foi duas semanas antes das eleições às quais concorria um acérrimo defensor da energia nuclear. A Angela Merkel, que há meia dúzia de meses tinha aceitado o prolongamento da vida útil de algumas centrais bastante velhas, fazendo uma chocante inversão nas políticas que vinham a ser seguidas há mais de uma década, viu repentinamente a luz, e reagiu com uma moratória sobre o futuro das centrais nucleares neste país. O candidato da CDU em Baden-Württemberg também teve uma revelação: afinal o risco residual pode ser maior do que se pensava, temos de ver isso, disseram eles.

Na semana seguinte, a edição do Spiegel trazia várias páginas de discussão dos leitores sobre o assunto (os comentários ao título da capa não costumam ocupar mais do que uma página).
Alguns defendiam a energia nuclear: que as alternativas provocam milhares de mortos por ano, mas que ninguém fala disso, ou que é uma questão de reforçar a segurança, e que aqui não há tsunamis, ou ainda que fechar as centrais nucleares alemãs implica passar a comprar a energia produzida em centrais da Europa de Leste, cuja segurança não podemos controlar.
A maior parte deles, contudo, estava a favor de uma passagem acelerada da energia nuclear para energias renováveis.
Já disse aqui que gosto imenso dos leitores do Spiegel? Da riqueza das análises que fazem, e do sarcasmo de alguns? Pois mais uma vez mostraram o que valem. Um deles dizia que a nossa geração ficará inesquecível: séculos e séculos depois de encerrarmos a última central, ainda haverá emprego garantido para especialistas em Física Nuclear, ainda andarão os nossos tatatatataranetos aflitos sem saber que fazer aos nossos resíduos radioactivos. Outro leitor alertava: não precisamos de tsunami para nada - um simples ataque cibernético aos sistemas de produção ou distribuição de energia que alimentam a central nuclear  pode sabotar o arrefecimento, e num instante se chega ao risco residual e ao GAU. 

Isto foi uma semana antes das eleições.
Entretanto o Mappus apercebeu-se que não conseguia recuperar os seus eleitores que estavam aterrorizados com o cenário de Fukushima, e estava a perder também o eleitorado entre os fundamentalistas da energia nuclear - que ainda os há -, e viu outra vez a luz, mas em sentido contrário: afinal a energia nuclear é boa, basta saber usá-la com responsabilidade.

E ao sétimo dia o povo votou. Nos Verdes: o partido que desde 1980 luta contra a energia atómica.

Quanto às políticas "liberais" de que fala o Tomás Vasques: o que será isso? Se se refere a cortar no Estado Social, vou desapontá-lo: prefiro ser pobre na Alemanha a ser da actual classe média em Portugal. Se se refere ao ziguezaguear Merkeleano na condução da crise do euro, há que esclarecer que a Angela Merkel está a avançar sobre um arame impossível: quanto mais ajudar os países em dificuldades, mais críticas recebe do seu próprio povo. Embora se repita ad nauseum que o Euro é bom para  a Alemanha e é preciso salvá-lo para  proteger os interesses alemães, as pessoas não percebem. E perguntam: porque é que os contribuintes alemães têm de pagar a má gestão dos outros países, que não se sabem governar e nos vêm pedir a nós? Porque é que temos de pagar, mas não podemos influenciar as suas políticas?

Esta questão explica em parte aquela intervenção zangada da Merkel no Parlamento, criticando o PSD, que os portugueses sentiram como uma intromissão inaceitável. No momento em que o governo alemão equaciona a possibilidade de usar muitos milhares de milhões de euros do seu orçamento (já de si muito endividado, diga-se de passagem), e o faz num contexto de fortes críticas internas e incompreensão popular, uma crise política em Portugal só vem complicar ainda mais.

5 comentários:

jj.amarante disse...

"séculos e séculos depois de encerrarmos a última central, ainda haverá emprego garantido para especialistas em Física Nuclear, ainda andarão os nossos tatatatataranetos aflitos sem saber que fazer aos nossos resíduos radioactivos"

Pena esses especialistas todos em Física Nuclear que abundavam nos EUA terem trocado os laboratórios de Física pela Bolsa de Valores: em vez de resolverem o problema dos resíduos, criaram crise após crise na Wall Street.

Luis Novaes Tito disse...

Muito bem. Concordo com tudo.

Helena disse...

:-)
Comprou o Inside Job que vinha com o Expresso?

Apesar de tudo, parece-me que o nuclear vai ser em mais inesquecível que as crises financeiras que temos tido.

O meu sogro trabalhou durante quase toda a sua vida num centro de investigação nuclear. Foi variadíssimas vezes ao Japão, porque vendia patentes para as centrais nucleares. Faleceu há um ano. O que eu dava para saber a opinião dele sobre o que se está a passar agora em Fukushima!

Helena disse...

Só para não pensarem que eu estou maluquinha: o meu comentário anterior era para o jj.amarante.

Luís,
comentários seus em dois posts seguidos nesta modesta casa? Hoje parece Natal e Páscoa ao mesmo tempo!

A. Castanho disse...

Ai a minha vida, um comentário tão elaborado e acabo de o perder, que irritação...

Agora à pressa e irritado (comigo próprio), a ver o que é que sai:

Helena, concordo contigo quanto ao peso do factor conjuntural que é a situação em Fukuxima (sim, tal como Hiroxima - e porque, em Português, o valor fonético "ch" não se escreve com o "sh", a Imprensa cá do burgo é que já se rendeu, incondicionalmente, à colonização anglófona...), mas o essencial desta questão é mais vasto: é conceptualmente errado retirar ilações nacionais, muito menos europeias, de uma (neste caso duas) eleição regional, ou (no limite) autárquica, como faz interesseira e simplísticamente o Tomás Vasques.


Em Eleições Regionais existem sempre as questões específicas da Região, que podem até ter tanto ou mais peso do que as divisões clássicas da "alta política", com relevância eminentemente nacional, como seja o caso da oposição, de novo muito em voga, entre a "social-democracia" e o "liberalismo", por exemplo.


O facto de um observador experiente e lúcido como Tomás Vasques nem sequer se aperceber da simplificação grosseira que faz, ao resumir a análise dos resultados das recentes eleições estaduais na Alemanha a um mero conflito "ideológico", ou mesmo que fosse às particularidades da política alemã de pendor nacional, só vem revelar, mais uma vez, quão longe estamos ainda, em Portugal, de uma verdadeira consciência política e cívica do que é a essência do "Regionalismo", algo que já se tornou uma trivialidade inquestionável em toda a Europa mais desenvolvida...


E a verdade é que continuamos sempre a imaginar que o nosso atraso é "apenas" económico e financeiro, sem nos darmos conta de que ele é, acima de tudo, cultural e mental! E é precisamente por isso que não estamos a ser capazes de resolver nem um, nem outro...


Tal como um pobre Diabético que, inconsciente do seu verdadeiro mal, consulta apenas o Oftalmologista (e continua a comer doces...) e que depois, ingénuamente, se revolta porque nunca mais sente melhoras na vista...