Por culpa do Gato Fedorento, acabei no Assim Não.
Queria comparar o vídeo original com o sketch dos brincalhões, e devo dizer que o original é muito mais engraçado.
Por culpa da curiosidade, abri a página "sabia que" desse blogue, e fiquei a saber que em 2006, a Alemanha aprovou um incentivo à natalidade de 25 mil euros por cada nascimento.
Ainda bem que me avisam, vou fazer disto um modo de vida. É só mais 10 anos e 10 filhos e tenho a casa paga.
Ora bem: isto é desonestidade pura.
A Alemanha resolveu compensar os pais pelo dinheiro que perdem ao ter um filho, pagando uma parte do salário que o pai ou a mãe deixam de receber por ficarem em casa.
Quando um dos pais deixa de trabalhar para ficar em casa com a criança, o Estado paga 67% do salário que se perde, até um máximo de 1800 euros por mês, durante 12 meses, ou 14, caso o segundo elemento do casal decida fazer também uma pausa. Se ambos os progenitores estão desempregados, recebem um abono de família no valor de 300 euros por mês (a somar ao subsídio de desemprego ou aos apoios da Segurança Social). Famílias de baixos rendimentos, que já tenham vários filhos, ou a quem nasçam gémeos, recebem um abono de família de valor superior ao normal.
Isto não é bem um estímulo, é mais uma limitação de danos.
E duvido que tenha algum efeito positivo, neste momento de medo do desemprego e do futuro.
No Assim Não irritou-me a falta de links para receber mais informação. A que propósito um site com um cuidado gráfico tão grande recusa a linguagem linkada da internet?
É o primeiro blogue que vejo em estilo Almanaque de São José, com frases curtas e simples, tipo "sabia que num beijo se transmitem 18.000 bactérias?", ponto.
Por acaso eu sabia como é o novo sistema de apoio às famílias alemãs, e percebi que aquela frase era uma burla.
Mas, e agora? Como posso confiar no resto das informações lá apresentadas?
Alguém me explica melhor o que está por trás das seguintes frases?
- Não há mulheres detidas pelo crime de aborto em Portugal.
- Em 2005 houve 73 casos, e não milhares, de mulheres atendidas na sequência de abortos clandestinos. (Este "73" é tão sério e infalível como os "25 mil euros" de prémio à cabeça?)
- O número de abortos clandestinos está calculado em 1800 por ano. (Como calcularam?)
- 62% dos abortos realizados em países europeus com legislação semelhante à pretendida em Portugal, são realizados por mulheres com rendimentos familiares superiores a 65.000 euros por ano. (serão fúteis motivos de consumo, mas também a dificuldade de compatibilizar os horários das creches e escolas com os das video conferences americanas?)
- 6% dos abortos realizados em países europeus com legislação semelhante à pretendida em Portugal, são realizados por mulheres com rendimentos familiares inferiores a 7000 euros. (ah, esta também sei decifrar: para uma família alemã com rendimentos inferiores a 7000 euros - o que não existe, diga-se de passagem -, a chegada de uma criança pode significar um aumento significativo do rendimento e do bem-estar, medido por exemplo, pela mudança para uma casa maior, cuja renda é paga pela Segurança Social)
- Em todo o mundo, o aborto sem invocar qualquer razão é permitido em 22 de um total de 193 países. (Quais, já agora?)
***
Voltando aos apoios financeiros à maternidade: é positivo que o Estado e a sociedade reconheçam o valor da maternidade. Não apenas com apoio financeiro e legislação que protege o emprego das mães, mas com práticas sociais que respeitam e valorizem o esforço das mulheres.
Contudo, apesar das boas intenções, a realidade fica muito aquém do ideal: as mulheres em idade fértil têm dificuldade em arranjar emprego, e se ficam em casa com os filhos têm dificuldade em reentrar no mundo profissional. As mulheres que estudaram e começaram uma carreira são obrigadas a escolher entre a maternidade e a realização profissional - o que resulta numa diminuição da taxa de natalidade entre as mulheres com mais alto nível de instrução, traduzida na frase "a elite alemã não se reproduz". As mulheres que não estudam e não têm emprego são acusadas de fazerem filhos para viverem do abono de família - o que, convenhamos, traduz uma certa dificuldade de assumir o respeito pela dignidade da Vida, intra- ou extra-uterina.
31 janeiro 2007
no céu dos meninos abortados...
...existe um Deus merceeiro!

- Olhe, sra. Aninhas, estive a ver nos meus livros e tem aqui uma grande dívida.
- Aivalhamedeus, o senhor bem sabe da minha vida e das minhas dificuldades - será que ma pode perdoar, ao menos uma parte?
- Mas é que nem pensar! Contas são contas, e as boas contas fazem os bons amigos.
***
Oh, Cristo, anda cá baixo ver isto.
Era assim que falavas com os excluídos, os odiados, as prostitutas, as adúlteras?
É assim que se anuncia o Evangelho aos pobres?
É assim que se traduz o maior mandamento, "amai-vos uns aos outros, amai os vossos inimigos"?
E não me digam que a grávida também é chamada a amar o embrião.
Eu, cristã, não posso obrigar ninguém a amar.
Já me basta o trabalho que tenho para aprender a amar e respeitar aqueles que não agem como eu quero.

- Olhe, sra. Aninhas, estive a ver nos meus livros e tem aqui uma grande dívida.
- Aivalhamedeus, o senhor bem sabe da minha vida e das minhas dificuldades - será que ma pode perdoar, ao menos uma parte?
- Mas é que nem pensar! Contas são contas, e as boas contas fazem os bons amigos.
***
Oh, Cristo, anda cá baixo ver isto.
Era assim que falavas com os excluídos, os odiados, as prostitutas, as adúlteras?
É assim que se anuncia o Evangelho aos pobres?
É assim que se traduz o maior mandamento, "amai-vos uns aos outros, amai os vossos inimigos"?
E não me digam que a grávida também é chamada a amar o embrião.
Eu, cristã, não posso obrigar ninguém a amar.
Já me basta o trabalho que tenho para aprender a amar e respeitar aqueles que não agem como eu quero.
30 janeiro 2007
joga pedra na Geni
I.
Em 2002 o Ballet Gulbenkian esteve em Weimar. Interessada e orgulhosa, levei os meus filhos a assistir ao espectáculo. Antes do início, o Matthias, de 5 anos, queixou-se que não conseguia ver nada porque a cadeira era demasiado baixa. Deixei-o vir para o meu colo. A senhora da frente virou-se para trás, furiosa porque o Matthias, ao passar por ela, batera levemente com o pé nas costas da sua cadeira, e perguntou desabridamente: "vão passar o serão todo a mexer-se assim e a incomodar os outros desta maneira?!"
Tivesse eu ido para o espectáculo a tresandar dos sovacos, tivesse eu adormecido e ressonado durante todo o tempo, tivesse eu empestado o ar de traques silenciosos, tivesse eu arrotado excessos de aguardente: ninguém ousaria interpelar-me, apesar de todos se sentirem incomodados.
Sozinha, ninguém me vence.
Com uma criança pela mão, passo imediatamente a pessoa de segunda classe.
II.
Em Weimar há um cruzamento com várias ilhas e semáforos sucessivos que demoram imenso tempo, para ruas em sentido único e quase sem movimento. Na prática, passamos vários minutos a olhar para o sinal vermelho e a rua deserta.
A Christina e eu íamos atrasadas para uma aula, eu vi a rua deserta e o sinal vermelho, expliquei-lhe que íamos fazer uma coisa proibida porque eu tinha condições para ver que não havia perigo bla bla bla mas que ela não podia fazer isso sozinha, e atravessámos os 4 m de rua até à ilha seguinte. O meu azar foi estar um condutor parado, à espera do seu sinal, que viu, abriu a janela e desatou a gritar comigo por causa do mau exemplo que dava à criança.
A Christina, muito assustada e chocada, perguntou: "Porque é que aquele desconhecido te está a chamar "vaca estúpida"?"
"É para teu bem, minha filha."
III.
Se me desse para relatar todos os conselhos que recebi, a respeito dos meus filhos, escrevia livros mais volumosos que os do Dr. Spock. Desde a enfermeira a esticar o indicador na direcção do bébé, que descansava do parto dormindo sobre o meu peito, e a ameaçar "vai-se arrepender disso!", passando pela vizinha que me viu chegar a casa com a recém-nascida e preveniu "não a deixe cair!", e mais não digo que estou a ver se acabo este post ainda hoje.
Todos sabem muito melhor que a mãe como deve tratar os filhos e como deve organizar a sua vida familiar.
Um bébé é o cavalo de Tróia para invadir famílias e consciências alheias.
IV.
O primeiro pediatra da Christina achava mal que eu trabalhasse e deixasse a criança na creche (que eu escolhera cuidadosamente: um grupo com 3 educadoras e 15 crianças entre os 0 e 6 anos). O lugar da mãe é em casa com os filhos, dizia ele. Quando lhe levei a Christina com uma tosse rouca, ele perguntou-me "ela tosse assim: crrrr, crrrr, crrrr?", eu respondi "sim, mais ou menos isso", e ele concluiu peremptório "é tosse convulsa, apanhou na creche, você vai ter de ficar com ela 3 meses em casa".
Mudei de pediatra, a tosse passou logo.
Em termos de certezas e de neutralidade da Ciência, estamos conversados.
V.
O hino das mães alemãs é assim:
Joga pedra na Geni,
joga bosta na Geni,
ela é feita pra apanhar
ela é boa de cuspir...
***
Ando há 14 anos convencida que em Portugal é tudo muito diferente. Que as mães portuguesas são respeitadas como pessoa, e que a sociedade alemã ainda tem muito que aprender com a portuguesa.
Mas, triste vida, na semana passada falei uma hora ao telefone com uma adepta do "não". Lá se me foram os preconceitos, lá se me foi o orgulho nacional.
Pelos vistos também acontece no meu país: a partir do momento em que se equaciona um bébé, as mulheres deixam de ser consideradas pessoas com sentimentos e angústias, consciência e responsabilidade. Tornam-se máquinas - que digo eu? parafusos! - da engrenagem social.
Há aqui uma terrível contradição: quem defende a dignidade da Vida Humana, e usa de tal falta de respeito ao falar sobre as mulheres (as mães, essas Genis), não percebeu o essencial dos valores que defende. Nem sequer percebeu que, ao ferir a dignidade da mãe, atinge a dignidade do filho que vai nascer dela.
Não está a defender uma Ética, mas uma Ideologia. Um Poder.
Em 2002 o Ballet Gulbenkian esteve em Weimar. Interessada e orgulhosa, levei os meus filhos a assistir ao espectáculo. Antes do início, o Matthias, de 5 anos, queixou-se que não conseguia ver nada porque a cadeira era demasiado baixa. Deixei-o vir para o meu colo. A senhora da frente virou-se para trás, furiosa porque o Matthias, ao passar por ela, batera levemente com o pé nas costas da sua cadeira, e perguntou desabridamente: "vão passar o serão todo a mexer-se assim e a incomodar os outros desta maneira?!"
Tivesse eu ido para o espectáculo a tresandar dos sovacos, tivesse eu adormecido e ressonado durante todo o tempo, tivesse eu empestado o ar de traques silenciosos, tivesse eu arrotado excessos de aguardente: ninguém ousaria interpelar-me, apesar de todos se sentirem incomodados.
Sozinha, ninguém me vence.
Com uma criança pela mão, passo imediatamente a pessoa de segunda classe.
II.
Em Weimar há um cruzamento com várias ilhas e semáforos sucessivos que demoram imenso tempo, para ruas em sentido único e quase sem movimento. Na prática, passamos vários minutos a olhar para o sinal vermelho e a rua deserta.
A Christina e eu íamos atrasadas para uma aula, eu vi a rua deserta e o sinal vermelho, expliquei-lhe que íamos fazer uma coisa proibida porque eu tinha condições para ver que não havia perigo bla bla bla mas que ela não podia fazer isso sozinha, e atravessámos os 4 m de rua até à ilha seguinte. O meu azar foi estar um condutor parado, à espera do seu sinal, que viu, abriu a janela e desatou a gritar comigo por causa do mau exemplo que dava à criança.
A Christina, muito assustada e chocada, perguntou: "Porque é que aquele desconhecido te está a chamar "vaca estúpida"?"
"É para teu bem, minha filha."
III.
Se me desse para relatar todos os conselhos que recebi, a respeito dos meus filhos, escrevia livros mais volumosos que os do Dr. Spock. Desde a enfermeira a esticar o indicador na direcção do bébé, que descansava do parto dormindo sobre o meu peito, e a ameaçar "vai-se arrepender disso!", passando pela vizinha que me viu chegar a casa com a recém-nascida e preveniu "não a deixe cair!", e mais não digo que estou a ver se acabo este post ainda hoje.
Todos sabem muito melhor que a mãe como deve tratar os filhos e como deve organizar a sua vida familiar.
Um bébé é o cavalo de Tróia para invadir famílias e consciências alheias.
IV.
O primeiro pediatra da Christina achava mal que eu trabalhasse e deixasse a criança na creche (que eu escolhera cuidadosamente: um grupo com 3 educadoras e 15 crianças entre os 0 e 6 anos). O lugar da mãe é em casa com os filhos, dizia ele. Quando lhe levei a Christina com uma tosse rouca, ele perguntou-me "ela tosse assim: crrrr, crrrr, crrrr?", eu respondi "sim, mais ou menos isso", e ele concluiu peremptório "é tosse convulsa, apanhou na creche, você vai ter de ficar com ela 3 meses em casa".
Mudei de pediatra, a tosse passou logo.
Em termos de certezas e de neutralidade da Ciência, estamos conversados.
V.
O hino das mães alemãs é assim:
Joga pedra na Geni,
joga bosta na Geni,
ela é feita pra apanhar
ela é boa de cuspir...
***
Ando há 14 anos convencida que em Portugal é tudo muito diferente. Que as mães portuguesas são respeitadas como pessoa, e que a sociedade alemã ainda tem muito que aprender com a portuguesa.
Mas, triste vida, na semana passada falei uma hora ao telefone com uma adepta do "não". Lá se me foram os preconceitos, lá se me foi o orgulho nacional.
Pelos vistos também acontece no meu país: a partir do momento em que se equaciona um bébé, as mulheres deixam de ser consideradas pessoas com sentimentos e angústias, consciência e responsabilidade. Tornam-se máquinas - que digo eu? parafusos! - da engrenagem social.
Há aqui uma terrível contradição: quem defende a dignidade da Vida Humana, e usa de tal falta de respeito ao falar sobre as mulheres (as mães, essas Genis), não percebeu o essencial dos valores que defende. Nem sequer percebeu que, ao ferir a dignidade da mãe, atinge a dignidade do filho que vai nascer dela.
Não está a defender uma Ética, mas uma Ideologia. Um Poder.
26 janeiro 2007
donum vitae
Após a reunificação alemã, as Länder da antiga Alemanha Ocidental tiveram de aceitar a despenalização do aborto. A questão não foi resolvida por referendo. A nova lei permite a IVG até à 12ª semana, mas exige que a mulher se dirija a um centro de aconselhamento para gravidezes indesejadas, reconhecido estatalmente, onde receberá o atestado que lhe permite realizar o aborto.
Foram criados centros estatais e das igrejas (católica e evangélica).
O Papa João Paulo II insurgiu-se contra esta prática, dizendo que (interpretação minha) os católicos estavam a passar uma licença para matar. Muitos dos bispos alemães ficaram consternados, mas optaram por acatar a vontade do Papa. Muitos leigos ficaram chocados ("o lugar dos católicos é no mundo, e não de costas voltadas para as suas dificuldades e miséria") e avançaram com uma iniciativa, a que deram o nome donum vitae.
Porque considero os textos muito interessantes, traduzi alguns do seu site.
Note-se que são textos dirigidos a mulheres em situação de crise, e foram escritos com uma preocupação de solidariedade e acolhimento. Por vezes são repetitivos, mas essa é a lógica dos sites da internet.
Trata-se, como de costume (que, infelizmente, isto também é a feijões), de uma tradução apressada e algo livre. Conto com o bom-senso dos leitores para entenderem o espírito da iniciativa apesar das palavras da tradutora.
***
Página inicial
Bem-vindo à donum vitae!
Donum vitae significa: presente da Vida.
Nem sempre as mulheres grávidas conseguem ver a sua situação por este prisma, devido a problemas difíceis.
Donum vitae ajuda. Fiéis a uma visão cristã da humanidade e baseados nos valores católicos, oferecemos aconselhamento para mulheres em situação de gravidez indesejada.
Como cristãos, sabemos que é nosso dever ajudar e aconselhar mulheres e homens defrontados com graves dificuldades, auxiliando simultaneamente a criança ainda não nascida. Ajudamos mulheres e pares a encontrar perspectivas para dar uma oportunidade à Vida.
Temos centros de aconselhamento para mulheres grávidas, futuros pais e casais em mais de 180 localidades em toda a Alemanha. Estamos presentes para responder a questões sobre a gravidez e o período após o nascimento, assim como nos casos em que se coloca a hipótese de uma interrupção da gravidez. Damos apoio a todos os que precisarem, independentemente da sua religião ou nacionalidade.
Além disso, pretendemos com o nosso trabalho de prevenção contribuir para a diminuição da ocorrência de gravidezes indesejadas, sobretudo em mulheres muito jovens.
****
Sobre a donum vitae
Após os bispos católicos se terem retirado da participação no sistema legal de aconselhamento, foi criada em 24.09.1999 a donum vitae como associação civil de leigos, para manter o elemento católico no aconselhamento em caso de gravidez indesejada. A fundação da donum vitae teve origem na convicção de que um aconselhamento com resultados em aberto mas objectivos claros é a melhor maneira de proteger a Vida antes do nascimento.
(...)
O trabalho da donum vitae baseia-se num conceito integrativo: a par das sessões de aconselhamento, donum vitae proporciona ajuda financeira, entre outras, a mulheres grávidas e mães em situação de necessidade. Também damos apoio a mulheres e pares após uma interrupção de gravidez, um aborto espontâneo ou nascimento de criança morta, bem como nas questões ligadas ao planeamento familiar.
As nossas conselheiras têm formação profissional adequada. A alta qualidade do serviço é assegurada por processos de formação contínua, a par da colaboração estreita com médicos, diversos especialistas, repartições públicas, instituições prestadoras de cuidados às crianças e centros de trabalho com deficientes.
****
Aconselhamento e ajuda
Está grávida!
O que para uns é motivo de alegria, implica para outros sentimentos caóticos e coloca-os perante um monte de problemas.
Se você se encontra numa situação de gravidez indesejada e está a ponderar a possibilidade de um aborto, ou se tem questões relativas à gravidez, a programas de apoios financeiros ou ao período após o nascimento, encontrará na donum vitae interlocutoras competentes e sensíveis, dispostas a trabalhar consigo todo o tempo que for necessário, oferecendo sugestões e soluções.
Se o seu médico a aconselhou a fazer análises pré-natais e se sente insegura quanto à decisão a tomar, o nosso centro de aconselhamento pode fornecer-lhe as informações pertinentes e apoio para a sua decisão. O mesmo se aplica a exames já realizados e que resultaram num diagnóstico inquietante.
É óbvio que pode recorrer aos nossos serviços de aconselhamento após ter realizado uma interrupção voluntária da gravidez, ou após ter sofrido um aborto ou o nascimento de uma criança morta. Também fazemos consultas de planeamento familiar.
Com o objectivo de evitar a ocorrência de gravidezes indesejadas, especialmente em mulheres muito jovens, os centros da donum vitae oferecem um amplo conjunto de iniciativas e apoios na área da educação sexual preventiva.
Em algumas Ländern da Alemanha a donum vitae oferece aconselhamento e acompanhamento para a realização de um parto em condições de anonimidade.
*
Aconselhamento em caso de gravidez indesejada
Há momentos que não poderiam ser piores para uma gravidez: a meio da formação, sem uma relação estável, sem emprego fixo, sem um futuro certo .
Nós compreendemos as suas preocupações. O nosso objectivo é dar segurança a mulheres grávidas e pares, com as suas preocupações, e oferecer-lhes assistência para superarem a crise pessoal e analisarem os problemas financeiros.
Se durante as primeiras 12 semanas da gravidez se coloca a possilidade de realizar uma interrupção voluntária da gravidez, está obrigada por lei a contactar um centro de aconselhamento para gravidezes indesejadas. O nosso serviço de aconselhamento não tem uma resposta pré-definida para si, porque acreditamos na responsabilidade da mulher. Queremos também tentar encontrar consigo perspectivas para uma vida com a criança. Queremos apoiá-la para que consiga tomar uma decisão independente. O aconselhamento psico-social, juntamente com a análise de apoios sociais, materiais e financeiros, podem representar para si um primeiro e fiável rasgo de esperança. Se o desejar, após o aconselhamento pode receber o atestado que a lei exige para a realização da IVG sem punição legal.
*
Aconselhamento para grávidas
(não vou traduzir - fica só a nota, para que conste que a donum vitae ajuda todas as grávidas, e não apenas as que pensam em abortar)
*
Aconselhamento no caso de diagnóstico pré-natal
Você quer o melhor para o seu filho que ainda não nasceu. Será que, por esse motivo, está interessada em saber mais sobre os cuidados e as análises médicas que pode realizar? Convém não passar por isso sozinha. O centro de aconselhamento perto de si pode ser um interlocutor competente e atento à sua realidade pessoal.
Oferecemos aconselhamento, apoio e acompanhamento antes da realização do diagnóstico pré-natal, durante o período de espera dos resultados e no caso de estes revelarem alguma anomalia no seu filho.
Durante a gravidez, o seu médico pode sugerir-lhe um conjunto de testes que permitem diagnosticar possíveis doenças, desenvolvimentos anormais ou deficiências no seu filho ainda por nascer.
Se essas situações ocorrerem, nós prestamos apoio na tomada de decisões que você e a sua família terão de tomar. Se prevê a possibilidade de um futuro com um filho deficiente, pode ser acompanhada por conselheiras experientes, que a ajudarão a estabelecer laços afectivos com o seu filho, responderão às suas perguntas e lhe darão apoio emocional. Esta oferta estende-se para depois do nascimento da criança. Se optar por uma IVG, nós acompanhamo-la durante este processo de difícil decisão e superação das dificuldades.
Caso sofra um aborto espontâneo, ou o seu filho nasça sem possibilidades de sobreviver, estamos ao seu lado neste momento de sofrimento e luto.
O nosso aconselhamento é gratuito. Pode recorrer a ele de forma anónima, e estamos abertos a todas as confissões religiosas.
*
Prevenção /Trabalho de pedagogia sexual
Amor, amizade, sexualidade. Não deve haver tema que mais interesse os adolescentes. Claro que já todos sabem tudo há muito tempo. Mas, se perguntarmos um pouco mais e com seriedade, apercebemo-nos que ainda há muitas questões sem resposta.
O número de gravidezes de adolescentes tem vindo a crescer nos últimos anos. Nós não esperamos até que as raparigas jovens venham ter connosco já grávidas. Dirigimo-nos a adolescentes e grupos de pais, oferecemos aulas de educação sexual nas escolas e nos centros para pessoas com deficiências, e participamos em projectos de educação sexual. Falamos abertamente com os adolescentes - e não apenas sobre métodos anticoncepcionais.
O nosso aconselhamento baseia-se numa imagem cristã da humanidade. O nosso maior interesse é explicar a estes rapazes e raparigas o valor da Vida, ajudá-los a formular os seus desejos, ânsias e esperanças, e a falar sobre amor, relação, casal e fidelidade.
*
Parto anónimo acompanhado
Você está grávida e, devido ao contexto específico da sua vida, não vê a possibilidade de criar o seu filho. Não tem qualquer pessoa a quem se confiar, e, pelo contrário, pensa que deve manter a gravidez em segredo. Está isolada, e não sabe onde pode fazer o parto e se pode ficar com a criança.
Todas as grávidas têm o direito de receber ajuda gratuita e a título anónimo de um centro de aconselhamento para gravidezes indesejadas reconhecido pelo Estado. Pode confiar em qualquer centro da donum vitae. As conselheiras estão sujeitas a segredo profissional e não podem fornecer os seus documentos a terceiros. Trabalharão consigo para encontrar uma solução.
Foram criados centros estatais e das igrejas (católica e evangélica).
O Papa João Paulo II insurgiu-se contra esta prática, dizendo que (interpretação minha) os católicos estavam a passar uma licença para matar. Muitos dos bispos alemães ficaram consternados, mas optaram por acatar a vontade do Papa. Muitos leigos ficaram chocados ("o lugar dos católicos é no mundo, e não de costas voltadas para as suas dificuldades e miséria") e avançaram com uma iniciativa, a que deram o nome donum vitae.
Porque considero os textos muito interessantes, traduzi alguns do seu site.
Note-se que são textos dirigidos a mulheres em situação de crise, e foram escritos com uma preocupação de solidariedade e acolhimento. Por vezes são repetitivos, mas essa é a lógica dos sites da internet.
Trata-se, como de costume (que, infelizmente, isto também é a feijões), de uma tradução apressada e algo livre. Conto com o bom-senso dos leitores para entenderem o espírito da iniciativa apesar das palavras da tradutora.
***
Página inicial
Bem-vindo à donum vitae!
Donum vitae significa: presente da Vida.
Nem sempre as mulheres grávidas conseguem ver a sua situação por este prisma, devido a problemas difíceis.
Donum vitae ajuda. Fiéis a uma visão cristã da humanidade e baseados nos valores católicos, oferecemos aconselhamento para mulheres em situação de gravidez indesejada.
Como cristãos, sabemos que é nosso dever ajudar e aconselhar mulheres e homens defrontados com graves dificuldades, auxiliando simultaneamente a criança ainda não nascida. Ajudamos mulheres e pares a encontrar perspectivas para dar uma oportunidade à Vida.
Temos centros de aconselhamento para mulheres grávidas, futuros pais e casais em mais de 180 localidades em toda a Alemanha. Estamos presentes para responder a questões sobre a gravidez e o período após o nascimento, assim como nos casos em que se coloca a hipótese de uma interrupção da gravidez. Damos apoio a todos os que precisarem, independentemente da sua religião ou nacionalidade.
Além disso, pretendemos com o nosso trabalho de prevenção contribuir para a diminuição da ocorrência de gravidezes indesejadas, sobretudo em mulheres muito jovens.
****
Sobre a donum vitae
Após os bispos católicos se terem retirado da participação no sistema legal de aconselhamento, foi criada em 24.09.1999 a donum vitae como associação civil de leigos, para manter o elemento católico no aconselhamento em caso de gravidez indesejada. A fundação da donum vitae teve origem na convicção de que um aconselhamento com resultados em aberto mas objectivos claros é a melhor maneira de proteger a Vida antes do nascimento.
(...)
O trabalho da donum vitae baseia-se num conceito integrativo: a par das sessões de aconselhamento, donum vitae proporciona ajuda financeira, entre outras, a mulheres grávidas e mães em situação de necessidade. Também damos apoio a mulheres e pares após uma interrupção de gravidez, um aborto espontâneo ou nascimento de criança morta, bem como nas questões ligadas ao planeamento familiar.
As nossas conselheiras têm formação profissional adequada. A alta qualidade do serviço é assegurada por processos de formação contínua, a par da colaboração estreita com médicos, diversos especialistas, repartições públicas, instituições prestadoras de cuidados às crianças e centros de trabalho com deficientes.
****
Aconselhamento e ajuda
Está grávida!
O que para uns é motivo de alegria, implica para outros sentimentos caóticos e coloca-os perante um monte de problemas.
Se você se encontra numa situação de gravidez indesejada e está a ponderar a possibilidade de um aborto, ou se tem questões relativas à gravidez, a programas de apoios financeiros ou ao período após o nascimento, encontrará na donum vitae interlocutoras competentes e sensíveis, dispostas a trabalhar consigo todo o tempo que for necessário, oferecendo sugestões e soluções.
Se o seu médico a aconselhou a fazer análises pré-natais e se sente insegura quanto à decisão a tomar, o nosso centro de aconselhamento pode fornecer-lhe as informações pertinentes e apoio para a sua decisão. O mesmo se aplica a exames já realizados e que resultaram num diagnóstico inquietante.
É óbvio que pode recorrer aos nossos serviços de aconselhamento após ter realizado uma interrupção voluntária da gravidez, ou após ter sofrido um aborto ou o nascimento de uma criança morta. Também fazemos consultas de planeamento familiar.
Com o objectivo de evitar a ocorrência de gravidezes indesejadas, especialmente em mulheres muito jovens, os centros da donum vitae oferecem um amplo conjunto de iniciativas e apoios na área da educação sexual preventiva.
Em algumas Ländern da Alemanha a donum vitae oferece aconselhamento e acompanhamento para a realização de um parto em condições de anonimidade.
*
Aconselhamento em caso de gravidez indesejada
Há momentos que não poderiam ser piores para uma gravidez: a meio da formação, sem uma relação estável, sem emprego fixo, sem um futuro certo .
Nós compreendemos as suas preocupações. O nosso objectivo é dar segurança a mulheres grávidas e pares, com as suas preocupações, e oferecer-lhes assistência para superarem a crise pessoal e analisarem os problemas financeiros.
Se durante as primeiras 12 semanas da gravidez se coloca a possilidade de realizar uma interrupção voluntária da gravidez, está obrigada por lei a contactar um centro de aconselhamento para gravidezes indesejadas. O nosso serviço de aconselhamento não tem uma resposta pré-definida para si, porque acreditamos na responsabilidade da mulher. Queremos também tentar encontrar consigo perspectivas para uma vida com a criança. Queremos apoiá-la para que consiga tomar uma decisão independente. O aconselhamento psico-social, juntamente com a análise de apoios sociais, materiais e financeiros, podem representar para si um primeiro e fiável rasgo de esperança. Se o desejar, após o aconselhamento pode receber o atestado que a lei exige para a realização da IVG sem punição legal.
*
Aconselhamento para grávidas
(não vou traduzir - fica só a nota, para que conste que a donum vitae ajuda todas as grávidas, e não apenas as que pensam em abortar)
*
Aconselhamento no caso de diagnóstico pré-natal
Você quer o melhor para o seu filho que ainda não nasceu. Será que, por esse motivo, está interessada em saber mais sobre os cuidados e as análises médicas que pode realizar? Convém não passar por isso sozinha. O centro de aconselhamento perto de si pode ser um interlocutor competente e atento à sua realidade pessoal.
Oferecemos aconselhamento, apoio e acompanhamento antes da realização do diagnóstico pré-natal, durante o período de espera dos resultados e no caso de estes revelarem alguma anomalia no seu filho.
Durante a gravidez, o seu médico pode sugerir-lhe um conjunto de testes que permitem diagnosticar possíveis doenças, desenvolvimentos anormais ou deficiências no seu filho ainda por nascer.
Se essas situações ocorrerem, nós prestamos apoio na tomada de decisões que você e a sua família terão de tomar. Se prevê a possibilidade de um futuro com um filho deficiente, pode ser acompanhada por conselheiras experientes, que a ajudarão a estabelecer laços afectivos com o seu filho, responderão às suas perguntas e lhe darão apoio emocional. Esta oferta estende-se para depois do nascimento da criança. Se optar por uma IVG, nós acompanhamo-la durante este processo de difícil decisão e superação das dificuldades.
Caso sofra um aborto espontâneo, ou o seu filho nasça sem possibilidades de sobreviver, estamos ao seu lado neste momento de sofrimento e luto.
O nosso aconselhamento é gratuito. Pode recorrer a ele de forma anónima, e estamos abertos a todas as confissões religiosas.
*
Prevenção /Trabalho de pedagogia sexual
Amor, amizade, sexualidade. Não deve haver tema que mais interesse os adolescentes. Claro que já todos sabem tudo há muito tempo. Mas, se perguntarmos um pouco mais e com seriedade, apercebemo-nos que ainda há muitas questões sem resposta.
O número de gravidezes de adolescentes tem vindo a crescer nos últimos anos. Nós não esperamos até que as raparigas jovens venham ter connosco já grávidas. Dirigimo-nos a adolescentes e grupos de pais, oferecemos aulas de educação sexual nas escolas e nos centros para pessoas com deficiências, e participamos em projectos de educação sexual. Falamos abertamente com os adolescentes - e não apenas sobre métodos anticoncepcionais.
O nosso aconselhamento baseia-se numa imagem cristã da humanidade. O nosso maior interesse é explicar a estes rapazes e raparigas o valor da Vida, ajudá-los a formular os seus desejos, ânsias e esperanças, e a falar sobre amor, relação, casal e fidelidade.
*
Parto anónimo acompanhado
Você está grávida e, devido ao contexto específico da sua vida, não vê a possibilidade de criar o seu filho. Não tem qualquer pessoa a quem se confiar, e, pelo contrário, pensa que deve manter a gravidez em segredo. Está isolada, e não sabe onde pode fazer o parto e se pode ficar com a criança.
Todas as grávidas têm o direito de receber ajuda gratuita e a título anónimo de um centro de aconselhamento para gravidezes indesejadas reconhecido pelo Estado. Pode confiar em qualquer centro da donum vitae. As conselheiras estão sujeitas a segredo profissional e não podem fornecer os seus documentos a terceiros. Trabalharão consigo para encontrar uma solução.
25 janeiro 2007
jogar a feijões
Já que andam todos a falar disso, não quero perder esta oportunidade de vir debitar também os meus disparates, porque não sou menos que os outros...
Ora então: no dia 11 de Fevereiro vamos a referendo.
Se ganhar o sim, fica tudo mais ou menos como está, com a diferença de se resolver um grave problema de higiene pública.
Se ganhar o não, fica tudo mais ou menos como está: quem tem dinheiro, vai a um médico no estrangeiro, e quem não tem, paciência - fizeste-o, desenrasca-te.
Andamos muito entretidos a jogar a feijões, não é?
***
Se me deixassem mandar (agarrem-me, que eu...)
fazia assim:
Primeiro mudava o artigo 140º do Código Penal.
Deixava a parte sobre a pena da mulher como está, e acrescentava mais uma pena para o pai biológico que não respeitasse o previsto num regulamento que estipularia, nomeadamente:
- a criação de um registo do ADN de todos os homens residentes em Portugal;
- a criação de um Centro de Prevenção de Aborto ao qual a mulher que quer abortar se dirige, e que a obrigará (obrigará!) a levar a gravidez até ao fim, com a garantia de que, a partir do parto, é o pai biológico que se responsabiliza integralmente pela criança (e isto quer dizer: é o pai que fica em casa, que lava a criança, que lhe dá o biberão, que a embala nas noites de cólicas, que a leva ao médico, que lhe vigia os primeiros passos, etc.);
- a identificação, via ADN, do pai do recém-nascido, e a entrega imediata do bébé ao pai biológico (na melhor das hipóteses, o companheiro da mãe). O qual, se não aceitar a criança, fica sujeito à mesma pena que a mulher receberia por abortar.
E depois, fazia um referendo: concorda que a mulher pode realizar um aborto a pedido, e que o pai biológico pode furtar-se, de forma sumária e com a máxima discrição, às suas reponsabilidades?
Era giro, não era?
Deixem-me delirar, que me está a saber muito bem.
Deixem-me imaginar um polícia a tocar à campainha do pai de família, e a entregar-lhe um filho da puta perante o olhar esgazeado da honesta esposa e do casalinho de filhos planeado e legal. O ar estarrecido da mãe do adolescente que se adiantou com aquela serigaita da turma dele. A cara do padre. A cara do menino que se estreou na sopeira, entretanto despedida (e a cara de alívio do pai, "ai que podia ser meu..."). Uma sociedade a inventar novos nomes de escárnio: galdério, vai-com-todas, pai solteiro, badalhuôco e, cúmulo do insulto, penis-driven.
Deixem-me imaginar na Alemanha os chefes das empresas sem saberem qual será o maior risco: empregarem um homem em idade fértil (dos 9 aos 99, digamos) ou uma mulher em idade fértil. As reuniões de chefias "eh, pá, temos de deixar de meter homens na empresa, que eles são uns esquisitos, sempre a faltar por causa dos filhos, sempre a pedir regimes especiais de horários..." - hehehe, desculpem, mas este cenário dá-me muito gozo.
Como seria um mundo em que uma gravidez indesejada fosse um problema muito maior para o homem que para a mulher?
Eles passavam a andar, literalmente, encolhidos. Inventavam um cinto de castidade com sistema de abertura retardada.
Deixavam-se de bazófias ("ai, filha, camisinhas não é comigo") ou, para citar uma lamentável expressão, já não se riam sobre "o tradicional conflito de interesses entre o grelo e o útero", porque estariam demasiado ocupados a gerir o trágico conflito de interesses entre o pénis e o útero.
De uma penada, os factos arrumavam definitivamente com a dupla moral e a arrogância dos moralizantes.
E no dia 11 não faltaria um único eleitor a votar - porque se trataria de um assunto que poderia doer a todos.
Se o "não" ganhasse, isto sim, era uma revolução!
(Mas é claro que, se as regras fossem estas, o "sim" teria uma vitória retumbante)
Bem, isto sou eu a delirar.
E desculpem, já passou.
(Mas foi muito bom)
***
Agora, a sério:
1.
Haverá quem pratique o aborto como método anticoncepcional?
Contaram-me que, na católica Polónia, muitas mulheres optam por abortar em vez de tomar a pílula, devido a cálculos simples de álgebra do pecado: um aborto dá um ou dois pecados por ano, a pílula dá quase trezentos.
Alguns blogues portugueses referem o fenómeno: o Pedro Caeiro diz que conhece vários casos, a Susana afirma que "as pessoas sabem que fazer um aborto não tem mal", o Lutz critica a vontade de culpabilizar os outros - como se houvesse mulheres que fazem um aborto sem sentir qualquer espécie de culpa.
Pessoalmente, uma tal realidade surpreende-me e choca-me: trata-se de uma minoria? trata-se de uma patologia?
Bem sei que não me compete fazer lavagens a cérebros alheios. Limito-me a resolver para mim que teria muita dificuldade em identificar-me com uma sociedade que banalize o aborto como um mero método anticoncepcional.
(Do mesmo modo que não me identifico com uma sociedade presa do lixo televisivo, agarrada à segurança dos consumos de marca, sôfrega de juventude, e etc. - irrita-me, mas vou ficando por aqui. De onde se conclui que eu, pecador me confesso, também sei jogar muito bem a feijões...)
Contudo, penso que não é o que está em causa em Portugal.
E mesmo se fosse: de que modo se actua (e deve-se actuar?!) sobre semelhante fenómeno de mentalidades? Não será, com certeza, com uma pena de prisão até 3 anos.
2.
A partir do que leio e ouço, concluo que a maior parte das mulheres conhece a diferença entre o valor simbólico de um embrião e um quisto no útero e que, quando essa questão se coloca, a decisão de abortar é uma das mais difíceis da sua vida. Elas saberão das razões da sua escolha.
E nós, que pretendemos desenhar a actual sociedade portuguesa, sabemos das nossas? Penalizando a mulher que aborta, estamos a forçar o nascimento de uma criança em circunstâncias adversas. Queremo-nos responsabilizar por essa criança que foi desejada pela sociedade, mas não pela mãe?
Aliás: a sociedade desejou realmente essa criança, ou desejou simplesmente moralizar-se?
Tem-se falado pouco sobre o facto de um embrião não abortado acabar por se transformar numa criança concreta.
É terrível para uma criança nascer de uma mãe que não a quis, ou ser entregue a um pai que nem se lembra de a ter feito, ou crescer em contextos de miséria afectiva ou material.
Se se pretende agir para evitar a morte do embrião, é fundamental ajudar a mãe, criando as condições para que o nascimento da criança seja esperado com alegria e optimismo.
3.
Considero o aborto uma tragédia.
Considero o aborto uma tragédia, mas (já cá faltava o maldito "mas") as razões do meu "não" não se esgotam na afirmação do direito à vida e do princípio da dignidade da vida humana. Se eu votar "não", interferindo assim na vida de outras pessoas, obrigo-me a ajudar cada criança que encontrar a pedir na rua, a ser mãe de fim de semana para miúdos dos asilos, a dividir o meu salário com mulheres que não têm o suficiente para criar os filhos, a adoptar o bébé de uma adolescente, de uma alcoólica, de uma toxicodependente. Etc.
Se eu votar "não" e continuar na minha vidinha de burguesa, indiferente à miséria em que crescem muitas das crianças "não abortadas", não passo de uma hipócrita.
E, pensando bem, se considero o aborto uma tragédia e voto "sim", mas não faço nada para ajudar as mulheres que se dispõem a praticá-lo, não passo de uma comodista cínica.
No entanto, não há motivo para preocupação: estamos a jogar a feijões, e por isso o 12 de Fevereiro vai ser para todos mais ou menos igual ao 10 de Fevereiro.
Porque desenhar uma cruzinha numa folha de papel não custa nada, mesmo nada. Escolhemos "não" ou "sim", e vamos para casa com a consciência do dever cumprido.
Por seu lado, as mulheres que querem abortar saberão de uma forma ou de outra resolver o seu problema.
4.
Independentemente do seu resultado, este referendo perverte a discussão sobre os bens jurídicos fundamentais. De que adianta a sociedade dizer que a vida humana é inviolável e digna de toda a protecção, se convive airosamente com situações de profunda miséria, chegando mesmo a forçá-las? Isto não é uma contradição? De que adianta abrir excepções a esse entendimento por motivos meramente pragmáticos?
E não há também uma contradição no facto de irmos votar? Votamos como se isto nos dissesse respeito, embora nos dois casos a mulher seja abandonada à sua sorte: ou penalizada à revelia das suas circunstâncias particulares, ou largada à solidão de ter de decidir entre a vida e a morte.
Não seremos capazes de fazer melhor?
5.
Uma última nota: convém não embarcar na ilusão de que uma sociedade vai ser alguma vez perfeita.
É bom que o Direito aponte uma direcção, e é péssimo quando o preço da letra da lei é pago pelos mais frágeis.
Vale para as duas escolhas deste debate, penalização e despenalização do aborto.
Ora então: no dia 11 de Fevereiro vamos a referendo.
Se ganhar o sim, fica tudo mais ou menos como está, com a diferença de se resolver um grave problema de higiene pública.
Se ganhar o não, fica tudo mais ou menos como está: quem tem dinheiro, vai a um médico no estrangeiro, e quem não tem, paciência - fizeste-o, desenrasca-te.
Andamos muito entretidos a jogar a feijões, não é?
***
Se me deixassem mandar (agarrem-me, que eu...)
fazia assim:
Primeiro mudava o artigo 140º do Código Penal.
Deixava a parte sobre a pena da mulher como está, e acrescentava mais uma pena para o pai biológico que não respeitasse o previsto num regulamento que estipularia, nomeadamente:
- a criação de um registo do ADN de todos os homens residentes em Portugal;
- a criação de um Centro de Prevenção de Aborto ao qual a mulher que quer abortar se dirige, e que a obrigará (obrigará!) a levar a gravidez até ao fim, com a garantia de que, a partir do parto, é o pai biológico que se responsabiliza integralmente pela criança (e isto quer dizer: é o pai que fica em casa, que lava a criança, que lhe dá o biberão, que a embala nas noites de cólicas, que a leva ao médico, que lhe vigia os primeiros passos, etc.);
- a identificação, via ADN, do pai do recém-nascido, e a entrega imediata do bébé ao pai biológico (na melhor das hipóteses, o companheiro da mãe). O qual, se não aceitar a criança, fica sujeito à mesma pena que a mulher receberia por abortar.
E depois, fazia um referendo: concorda que a mulher pode realizar um aborto a pedido, e que o pai biológico pode furtar-se, de forma sumária e com a máxima discrição, às suas reponsabilidades?
Era giro, não era?
Deixem-me delirar, que me está a saber muito bem.
Deixem-me imaginar um polícia a tocar à campainha do pai de família, e a entregar-lhe um filho da puta perante o olhar esgazeado da honesta esposa e do casalinho de filhos planeado e legal. O ar estarrecido da mãe do adolescente que se adiantou com aquela serigaita da turma dele. A cara do padre. A cara do menino que se estreou na sopeira, entretanto despedida (e a cara de alívio do pai, "ai que podia ser meu..."). Uma sociedade a inventar novos nomes de escárnio: galdério, vai-com-todas, pai solteiro, badalhuôco e, cúmulo do insulto, penis-driven.
Deixem-me imaginar na Alemanha os chefes das empresas sem saberem qual será o maior risco: empregarem um homem em idade fértil (dos 9 aos 99, digamos) ou uma mulher em idade fértil. As reuniões de chefias "eh, pá, temos de deixar de meter homens na empresa, que eles são uns esquisitos, sempre a faltar por causa dos filhos, sempre a pedir regimes especiais de horários..." - hehehe, desculpem, mas este cenário dá-me muito gozo.
Como seria um mundo em que uma gravidez indesejada fosse um problema muito maior para o homem que para a mulher?
Eles passavam a andar, literalmente, encolhidos. Inventavam um cinto de castidade com sistema de abertura retardada.
Deixavam-se de bazófias ("ai, filha, camisinhas não é comigo") ou, para citar uma lamentável expressão, já não se riam sobre "o tradicional conflito de interesses entre o grelo e o útero", porque estariam demasiado ocupados a gerir o trágico conflito de interesses entre o pénis e o útero.
De uma penada, os factos arrumavam definitivamente com a dupla moral e a arrogância dos moralizantes.
E no dia 11 não faltaria um único eleitor a votar - porque se trataria de um assunto que poderia doer a todos.
Se o "não" ganhasse, isto sim, era uma revolução!
(Mas é claro que, se as regras fossem estas, o "sim" teria uma vitória retumbante)
Bem, isto sou eu a delirar.
E desculpem, já passou.
(Mas foi muito bom)
***
Agora, a sério:
1.
Haverá quem pratique o aborto como método anticoncepcional?
Contaram-me que, na católica Polónia, muitas mulheres optam por abortar em vez de tomar a pílula, devido a cálculos simples de álgebra do pecado: um aborto dá um ou dois pecados por ano, a pílula dá quase trezentos.
Alguns blogues portugueses referem o fenómeno: o Pedro Caeiro diz que conhece vários casos, a Susana afirma que "as pessoas sabem que fazer um aborto não tem mal", o Lutz critica a vontade de culpabilizar os outros - como se houvesse mulheres que fazem um aborto sem sentir qualquer espécie de culpa.
Pessoalmente, uma tal realidade surpreende-me e choca-me: trata-se de uma minoria? trata-se de uma patologia?
Bem sei que não me compete fazer lavagens a cérebros alheios. Limito-me a resolver para mim que teria muita dificuldade em identificar-me com uma sociedade que banalize o aborto como um mero método anticoncepcional.
(Do mesmo modo que não me identifico com uma sociedade presa do lixo televisivo, agarrada à segurança dos consumos de marca, sôfrega de juventude, e etc. - irrita-me, mas vou ficando por aqui. De onde se conclui que eu, pecador me confesso, também sei jogar muito bem a feijões...)
Contudo, penso que não é o que está em causa em Portugal.
E mesmo se fosse: de que modo se actua (e deve-se actuar?!) sobre semelhante fenómeno de mentalidades? Não será, com certeza, com uma pena de prisão até 3 anos.
2.
A partir do que leio e ouço, concluo que a maior parte das mulheres conhece a diferença entre o valor simbólico de um embrião e um quisto no útero e que, quando essa questão se coloca, a decisão de abortar é uma das mais difíceis da sua vida. Elas saberão das razões da sua escolha.
E nós, que pretendemos desenhar a actual sociedade portuguesa, sabemos das nossas? Penalizando a mulher que aborta, estamos a forçar o nascimento de uma criança em circunstâncias adversas. Queremo-nos responsabilizar por essa criança que foi desejada pela sociedade, mas não pela mãe?
Aliás: a sociedade desejou realmente essa criança, ou desejou simplesmente moralizar-se?
Tem-se falado pouco sobre o facto de um embrião não abortado acabar por se transformar numa criança concreta.
É terrível para uma criança nascer de uma mãe que não a quis, ou ser entregue a um pai que nem se lembra de a ter feito, ou crescer em contextos de miséria afectiva ou material.
Se se pretende agir para evitar a morte do embrião, é fundamental ajudar a mãe, criando as condições para que o nascimento da criança seja esperado com alegria e optimismo.
3.
Considero o aborto uma tragédia.
Considero o aborto uma tragédia, mas (já cá faltava o maldito "mas") as razões do meu "não" não se esgotam na afirmação do direito à vida e do princípio da dignidade da vida humana. Se eu votar "não", interferindo assim na vida de outras pessoas, obrigo-me a ajudar cada criança que encontrar a pedir na rua, a ser mãe de fim de semana para miúdos dos asilos, a dividir o meu salário com mulheres que não têm o suficiente para criar os filhos, a adoptar o bébé de uma adolescente, de uma alcoólica, de uma toxicodependente. Etc.
Se eu votar "não" e continuar na minha vidinha de burguesa, indiferente à miséria em que crescem muitas das crianças "não abortadas", não passo de uma hipócrita.
E, pensando bem, se considero o aborto uma tragédia e voto "sim", mas não faço nada para ajudar as mulheres que se dispõem a praticá-lo, não passo de uma comodista cínica.
No entanto, não há motivo para preocupação: estamos a jogar a feijões, e por isso o 12 de Fevereiro vai ser para todos mais ou menos igual ao 10 de Fevereiro.
Porque desenhar uma cruzinha numa folha de papel não custa nada, mesmo nada. Escolhemos "não" ou "sim", e vamos para casa com a consciência do dever cumprido.
Por seu lado, as mulheres que querem abortar saberão de uma forma ou de outra resolver o seu problema.
4.
Independentemente do seu resultado, este referendo perverte a discussão sobre os bens jurídicos fundamentais. De que adianta a sociedade dizer que a vida humana é inviolável e digna de toda a protecção, se convive airosamente com situações de profunda miséria, chegando mesmo a forçá-las? Isto não é uma contradição? De que adianta abrir excepções a esse entendimento por motivos meramente pragmáticos?
E não há também uma contradição no facto de irmos votar? Votamos como se isto nos dissesse respeito, embora nos dois casos a mulher seja abandonada à sua sorte: ou penalizada à revelia das suas circunstâncias particulares, ou largada à solidão de ter de decidir entre a vida e a morte.
Não seremos capazes de fazer melhor?
5.
Uma última nota: convém não embarcar na ilusão de que uma sociedade vai ser alguma vez perfeita.
É bom que o Direito aponte uma direcção, e é péssimo quando o preço da letra da lei é pago pelos mais frágeis.
Vale para as duas escolhas deste debate, penalização e despenalização do aborto.
22 janeiro 2007
Abbé Pierre
19 janeiro 2007
a palavra e a "despalavra" do ano
Com o objectivo de reflectir sobre a evolução da língua, há na Alemanha uma comissão que escolhe a palavra e a "despalavra" (Unwort) do ano, a partir do contributo de centenas de pessoas e entidades interessadas nos fenómenos linguísticos.
A palavra do ano 2006 deixa todos com um sorriso: Fanmeile. Neologismo para designar as praças onde instalaram ecrãs gigantes de televisão para o pessoal ver os jogos do mundial, e que evoca imediatamente aqueles momentos especiais do verão passado.
As "despalavras" são expressões criticadas pelo seu carácter ofensivo, e/ou por transmitirem uma imagem desvirtuada da realidade, chegando a agredir a dignidade humana.
A expressão escolhida para "despalavra" do ano foi «freiwillige Ausreise» (saída voluntária do país). Refere-se à situação de pessoas que pedem asilo político à Alemanha, vêem o seu pedido recusado, e dispõem-se a regressar voluntariamente ao seu país, em vez de serem repatriadas à força. "Voluntariamente", dizem eles. O seu carácter cínico valeu-lhe a distinção.
Em 2006, as palavras criticadas com mais frequência foram:
- «Unterschicht» (referindo-se às camadas sociais de rendimentos mais baixos como camada inferior),
- «Prekariat» (precariado - neologismo que joga com proletariado e precário para definir um novo grupo social de trabalhadores e desempregados que vive em condições muito precárias),
- «Gesundheitsreform» (a malfadada reforma da saúde) e
- «Problembär» (urso problema, a propósito de um urso avistado na Baviera, que provocou algum medo às populações, começou a ser designado pelos políticos como problema, e acabou por ser abatido a tiro).
A comissão escolheu ainda duas outras expressões que marcaram de modo negativo este ano:
- «Konsumopfer» (vítima do consumo, expressão usada por Wolfgang Joop para se referir às modelos que fazem dietas desumanas para se ajustarem aos actuais ideais de beleza).
- «Neiddebatte» (debate da inveja, como um chefe da Bundesbank chamou à discussão sobre os salários astronómicos de certos administradores).
***
Gosto deste jogo de rever um ano a partir das palavras que deixou.
.
A palavra do ano 2006 deixa todos com um sorriso: Fanmeile. Neologismo para designar as praças onde instalaram ecrãs gigantes de televisão para o pessoal ver os jogos do mundial, e que evoca imediatamente aqueles momentos especiais do verão passado.
As "despalavras" são expressões criticadas pelo seu carácter ofensivo, e/ou por transmitirem uma imagem desvirtuada da realidade, chegando a agredir a dignidade humana.
A expressão escolhida para "despalavra" do ano foi «freiwillige Ausreise» (saída voluntária do país). Refere-se à situação de pessoas que pedem asilo político à Alemanha, vêem o seu pedido recusado, e dispõem-se a regressar voluntariamente ao seu país, em vez de serem repatriadas à força. "Voluntariamente", dizem eles. O seu carácter cínico valeu-lhe a distinção.
Em 2006, as palavras criticadas com mais frequência foram:
- «Unterschicht» (referindo-se às camadas sociais de rendimentos mais baixos como camada inferior),
- «Prekariat» (precariado - neologismo que joga com proletariado e precário para definir um novo grupo social de trabalhadores e desempregados que vive em condições muito precárias),
- «Gesundheitsreform» (a malfadada reforma da saúde) e
- «Problembär» (urso problema, a propósito de um urso avistado na Baviera, que provocou algum medo às populações, começou a ser designado pelos políticos como problema, e acabou por ser abatido a tiro).
A comissão escolheu ainda duas outras expressões que marcaram de modo negativo este ano:
- «Konsumopfer» (vítima do consumo, expressão usada por Wolfgang Joop para se referir às modelos que fazem dietas desumanas para se ajustarem aos actuais ideais de beleza).
- «Neiddebatte» (debate da inveja, como um chefe da Bundesbank chamou à discussão sobre os salários astronómicos de certos administradores).
***
Gosto deste jogo de rever um ano a partir das palavras que deixou.
.
18 janeiro 2007
mais uma para o anedotário do homo economicus
Uma vaga de frio recorde atingiu a Califórnia.
Recorde, sublinhe-se.
Em San Joaquin Valley, pomar e horta da nação, estão as tangerinas cobertas de estalactites de gelo, os abacates queimados pelo frio.
Os agricultores, empresários flexíveis e racionais, espalharam aquecedores e chuveirinhos de água quente pelos campos, para tentar salvar a colheita.
Mais um rasgo de génio da prezada espécie, e talvez salvem a colheita. Mas quem salva o planeta das consequências de tanta flexibilidade na optimização do lucro?
E nem se lembrem de discutir, porque já é oficial: a Bildzeitung trazia ontem na primeira página parangonas sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas.
Portanto: ponto, final.
Resumido, como só a Bildzeitung sabe fazer, é mais ou menos assim: a Terra está a aquecer, vai haver enormes inundações, os Alpes vão ficar sem neve.
A expressão "depois de mim o dilúvio" é para ser lida à letra.
Como se não bastasse os Alpes estarem sem neve e os campeonatos mundiais de desporto de inverno, em Oberhof aqui ao lado, decorrerem este ano sobre blocos de gelo que se foram buscar a fábricas de peixe de Hamburgo (aqui também há homo economicus, não é só na Califórnia), hoje está a passar um ventinho sobre a Alemanha, com velocidades até 200 km/h.
Embora Weimar não seja a região mais atingida, ao fim da manhã as escolas mandaram os alunos para casa.
Não passa de um detalhe, é verdade. Mas o povo começa a juntar 2 e 2 (o Inverno sem neve e anormalmente quente, a inusitada frequência dos furacões, os pássaros que já não se dão ao trabalho de ir passar o Natal a África, os ursos que se esquecem de hibernar), e fica preocupado. O tom dos jornais é, apesar de tudo, positivo: a situação é grave, mas ainda controlável; para isso, há que mudar os hábitos de consumo e usar a energia com mais eficiência. Já está a acontecer em alguns países europeus e até em alguns dos estados americanos. Contudo, quem tem coragem de ir propôr isto à China?
Ainda segundo a Bildzeitung, a Holanda vai desaparecer do mapa. E eu, homo economicus no seu melhor (que não sou menos que os outros), fico na dúvida se devo refrear os meus consumos, ou ir às escondidas de mim própria conhecer Amsterdão e Roterdão antes que passem para os domínios da Atlântida.
Recorde, sublinhe-se.
Em San Joaquin Valley, pomar e horta da nação, estão as tangerinas cobertas de estalactites de gelo, os abacates queimados pelo frio.
Os agricultores, empresários flexíveis e racionais, espalharam aquecedores e chuveirinhos de água quente pelos campos, para tentar salvar a colheita.
Mais um rasgo de génio da prezada espécie, e talvez salvem a colheita. Mas quem salva o planeta das consequências de tanta flexibilidade na optimização do lucro?
E nem se lembrem de discutir, porque já é oficial: a Bildzeitung trazia ontem na primeira página parangonas sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas.
Portanto: ponto, final.
Resumido, como só a Bildzeitung sabe fazer, é mais ou menos assim: a Terra está a aquecer, vai haver enormes inundações, os Alpes vão ficar sem neve.
A expressão "depois de mim o dilúvio" é para ser lida à letra.
Como se não bastasse os Alpes estarem sem neve e os campeonatos mundiais de desporto de inverno, em Oberhof aqui ao lado, decorrerem este ano sobre blocos de gelo que se foram buscar a fábricas de peixe de Hamburgo (aqui também há homo economicus, não é só na Califórnia), hoje está a passar um ventinho sobre a Alemanha, com velocidades até 200 km/h.
Embora Weimar não seja a região mais atingida, ao fim da manhã as escolas mandaram os alunos para casa.
Não passa de um detalhe, é verdade. Mas o povo começa a juntar 2 e 2 (o Inverno sem neve e anormalmente quente, a inusitada frequência dos furacões, os pássaros que já não se dão ao trabalho de ir passar o Natal a África, os ursos que se esquecem de hibernar), e fica preocupado. O tom dos jornais é, apesar de tudo, positivo: a situação é grave, mas ainda controlável; para isso, há que mudar os hábitos de consumo e usar a energia com mais eficiência. Já está a acontecer em alguns países europeus e até em alguns dos estados americanos. Contudo, quem tem coragem de ir propôr isto à China?
Ainda segundo a Bildzeitung, a Holanda vai desaparecer do mapa. E eu, homo economicus no seu melhor (que não sou menos que os outros), fico na dúvida se devo refrear os meus consumos, ou ir às escondidas de mim própria conhecer Amsterdão e Roterdão antes que passem para os domínios da Atlântida.
16 janeiro 2007
metafísicas do quotidiano
12 janeiro 2007
a casa em chamas
Ontem estive no centro de refugiados de Weimar. Falava-se de um novo regulamento que permite a alguns refugiados, em determinadas condições, permanecerem na Alemanha. Os iraquianos que fugiram da guerra não estão abrangidos por ele, porque ainda não residem aqui há seis anos, mas também não recebem autorização de residência porque se considera que já podem voltar para o seu país. Algumas iraquianas, de Bagdad, protestaram com veemência:
- Quem tiver muita vontade de morrer, vá agora para o Iraque. Não passa um mês sem recebermos a notícia de que mataram um familiar nosso, um amigo, um vizinho. Ontem telefonaram para avisar que a nossa casa estava a arder.
Um palestiniano meteu-se na conversa: "Mataram o Hussein, e isso que adianta? Mataram um, nasceram 10.000."
Perguntei às iraquianas o que acham dos novos planos do Bush. Foram peremptórias: "Se os americanos se fossem embora, o Iraque já tinha um problema resolvido. A única coisa que interessa aos americanos é o nosso petróleo. Que culpa temos nós de haver tanto petróleo em Bassorá?!"
***
O mesmo tom no blogue Bagdad Burning, por exemplo, no dia 29.12.06:
You know your country is in trouble when:
(...)
5. An 8-year war and 13-year blockade are looking like the country's 'Golden Years'.
(...)
9. People consider themselves lucky if they can actually identify the corpse of the relative that's been missing for two weeks.
A day in the life of the average Iraqi has been reduced to identifying corpses, avoiding car bombs and attempting to keep track of which family members have been detained, which ones have been exiled and which ones have been abducted.
Ou, no dia 31.12.2006:
One of the most advanced countries in the world did not help to reconstruct Iraq, they didn't even help produce a decent constitution. They did, however, contribute nicely to a kangaroo court and a lynching. A lynching shall go down in history as America's biggest accomplishment in Iraq. So who's next? Who hangs for the hundreds of thousands who've died as a direct result of this war and occupation? Bush? Blair? Maliki? Jaffari? Allawi? Chalabi?
***
Eli Pariser escreveu de novo.
Para quem não recebe as comunicações do MoveOn.org, aqui vai:
Dear friends,
Just when we thought the war in Iraq couldn't get any worse—it has. Last night, President Bush rejected reality, spurned the American people's verdict, and announced his new policy: military escalation in Iraq.
The newly elected United States Congress has the power to stop this madness, but it's critical to show immediate, unified opposition from the international community.
So MoveOn is helping launch Avaaz, a new international partnership to mobilize progressive global voices. We're starting with an emergency worldwide petition to the U.S. Congress and a powerful full-page ad in "Roll Call"—the Washington DC newspaper read by every member of Congress and their staff.
Click below to see the ad and sign the petition:
http://www.avaaz.org/en/iraq_campaign_jan_2007/
After years of failed occupation, it's clear to everyone but George Bush that the US cannot solve this civil conflict through force. As Bush's own top military advisors and commanders in the field have said, sending tens of thousands more American troops will only fan the flames of this war.
World opinion matters: The American people understand the US can't police the globe by itself. That's why, before the original invasion, Bush worked so hard to promote the involvement of Tony Blair and a few other select world leaders to win over reluctant members of Congress.
Today, Bush stands completely alone—but it's our job to bring this point home in Washington. The ad in Roll Call highlights Tony Blair's decision to withdraw troops in direct opposition to Bush's proposed escalation. And the petition will help show where the global public stands.
http://www.avaaz.org/en/iraq_campaign_jan_2007/
The Bush administration is already twisting arms and doing everything it can to push this escalation through. Congress may yet find the courage to resist—if we help them—but there's no time to lose.
Add your name to the petition. Spread the word to your friends. The Iraq crisis is a global problem. Together we have the power, and the responsibility, to help change course.
Sincerely,
–Eli Pariser
MoveOn.org Political Action
January 11, 2006
- Quem tiver muita vontade de morrer, vá agora para o Iraque. Não passa um mês sem recebermos a notícia de que mataram um familiar nosso, um amigo, um vizinho. Ontem telefonaram para avisar que a nossa casa estava a arder.
Um palestiniano meteu-se na conversa: "Mataram o Hussein, e isso que adianta? Mataram um, nasceram 10.000."
Perguntei às iraquianas o que acham dos novos planos do Bush. Foram peremptórias: "Se os americanos se fossem embora, o Iraque já tinha um problema resolvido. A única coisa que interessa aos americanos é o nosso petróleo. Que culpa temos nós de haver tanto petróleo em Bassorá?!"
***
O mesmo tom no blogue Bagdad Burning, por exemplo, no dia 29.12.06:
You know your country is in trouble when:
(...)
5. An 8-year war and 13-year blockade are looking like the country's 'Golden Years'.
(...)
9. People consider themselves lucky if they can actually identify the corpse of the relative that's been missing for two weeks.
A day in the life of the average Iraqi has been reduced to identifying corpses, avoiding car bombs and attempting to keep track of which family members have been detained, which ones have been exiled and which ones have been abducted.
Ou, no dia 31.12.2006:
One of the most advanced countries in the world did not help to reconstruct Iraq, they didn't even help produce a decent constitution. They did, however, contribute nicely to a kangaroo court and a lynching. A lynching shall go down in history as America's biggest accomplishment in Iraq. So who's next? Who hangs for the hundreds of thousands who've died as a direct result of this war and occupation? Bush? Blair? Maliki? Jaffari? Allawi? Chalabi?
***
Eli Pariser escreveu de novo.
Para quem não recebe as comunicações do MoveOn.org, aqui vai:
Dear friends,
Just when we thought the war in Iraq couldn't get any worse—it has. Last night, President Bush rejected reality, spurned the American people's verdict, and announced his new policy: military escalation in Iraq.
The newly elected United States Congress has the power to stop this madness, but it's critical to show immediate, unified opposition from the international community.
So MoveOn is helping launch Avaaz, a new international partnership to mobilize progressive global voices. We're starting with an emergency worldwide petition to the U.S. Congress and a powerful full-page ad in "Roll Call"—the Washington DC newspaper read by every member of Congress and their staff.
Click below to see the ad and sign the petition:
http://www.avaaz.org/en/iraq_campaign_jan_2007/
After years of failed occupation, it's clear to everyone but George Bush that the US cannot solve this civil conflict through force. As Bush's own top military advisors and commanders in the field have said, sending tens of thousands more American troops will only fan the flames of this war.
World opinion matters: The American people understand the US can't police the globe by itself. That's why, before the original invasion, Bush worked so hard to promote the involvement of Tony Blair and a few other select world leaders to win over reluctant members of Congress.
Today, Bush stands completely alone—but it's our job to bring this point home in Washington. The ad in Roll Call highlights Tony Blair's decision to withdraw troops in direct opposition to Bush's proposed escalation. And the petition will help show where the global public stands.
http://www.avaaz.org/en/iraq_campaign_jan_2007/
The Bush administration is already twisting arms and doing everything it can to push this escalation through. Congress may yet find the courage to resist—if we help them—but there's no time to lose.
Add your name to the petition. Spread the word to your friends. The Iraq crisis is a global problem. Together we have the power, and the responsibility, to help change course.
Sincerely,
–Eli Pariser
MoveOn.org Political Action
January 11, 2006
a importância de se chamar Ernesto
Vives no Iraque.
Chamas-te Ali. É um nome xiita. Vem um sunita e mata-te.
Chamas-te Muhammad. É um nome sunita. Vem um xiita e mata-te.
Contou-me ontem uma adolescente de Bagdad.
Chamas-te Ali. É um nome xiita. Vem um sunita e mata-te.
Chamas-te Muhammad. É um nome sunita. Vem um xiita e mata-te.
Contou-me ontem uma adolescente de Bagdad.
10 janeiro 2007
Lotte in Weimar
O Joachim anda a ler este romance de Thomas Mann. Gosta de comparar a Weimar que Mann projectou para o tempo de Goethe com a cidade em que vivemos.
Só tem um problema, diz ele:
"Thomas Mann escreve como a minha avó telefonava".
Finalmente algo novo no mundo da crítica literária.
Só tem um problema, diz ele:
"Thomas Mann escreve como a minha avó telefonava".
Finalmente algo novo no mundo da crítica literária.
09 janeiro 2007
para um bom 2007
Talvez seja um detalhe, mas seria importante:
Para 2007, faço votos para que não apanhem já o Bin Laden.
Façam antes um impeachment ao Bush, levem-no a tribunal (hoje estou magnânima: até pode ser um processo a sério, e não um como o do Saddam Hussein), dêem-lhe a pena que o Ocidente considerar certa para aqueles que não hesitam em sacrificar vidas humanas na prossecução das suas estratégias de poder.
Faço votos para que só depois capturem o Bin Laden, e lhe façam um processo a sério, e lhe dêem a pena certa para aqueles que não hesitam em sacrificar vidas humanas na prossecução das suas estratégias de poder.
E talvez depois se diga de 2007 que foi um bom ano.
(De facto, gostava de os ver todos juntos no pátio de uma prisão: Bush e Bin Laden, Rumsfeld a conversar com Hussein sobre os bons velhos tempos do shaking hands em 1983, Pinochet e todos os outros ditadores de meia tigela ou tigela e meia. Se já falam a mesma linguagem, gostaria imenso de trocassem impressões sobre os meios e os fins, e que escrevessem um livro com as conclusões. Para o mundo, a seus pés, aprender.)
(E já que estou com a mão na massa: nos Açores também houve shaking hands nas vésperas do início de uma guerra de invasão de um país que nem tinha atacado ninguém, nem sequer representava um perigo para quem quer que fosse. Estas coisas não acontecem só nos países dos outros. Esse pessoal que faz alianças à revelia das regras mais básicas de direito internacional vai continuar a andar por aí impunemente?! E nós não temos vergonha quando falamos dos valores e da democracia ocidentais?!)
Para 2007, faço votos para que não apanhem já o Bin Laden.
Façam antes um impeachment ao Bush, levem-no a tribunal (hoje estou magnânima: até pode ser um processo a sério, e não um como o do Saddam Hussein), dêem-lhe a pena que o Ocidente considerar certa para aqueles que não hesitam em sacrificar vidas humanas na prossecução das suas estratégias de poder.
Faço votos para que só depois capturem o Bin Laden, e lhe façam um processo a sério, e lhe dêem a pena certa para aqueles que não hesitam em sacrificar vidas humanas na prossecução das suas estratégias de poder.
E talvez depois se diga de 2007 que foi um bom ano.
(De facto, gostava de os ver todos juntos no pátio de uma prisão: Bush e Bin Laden, Rumsfeld a conversar com Hussein sobre os bons velhos tempos do shaking hands em 1983, Pinochet e todos os outros ditadores de meia tigela ou tigela e meia. Se já falam a mesma linguagem, gostaria imenso de trocassem impressões sobre os meios e os fins, e que escrevessem um livro com as conclusões. Para o mundo, a seus pés, aprender.)
(E já que estou com a mão na massa: nos Açores também houve shaking hands nas vésperas do início de uma guerra de invasão de um país que nem tinha atacado ninguém, nem sequer representava um perigo para quem quer que fosse. Estas coisas não acontecem só nos países dos outros. Esse pessoal que faz alianças à revelia das regras mais básicas de direito internacional vai continuar a andar por aí impunemente?! E nós não temos vergonha quando falamos dos valores e da democracia ocidentais?!)
08 janeiro 2007
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