31 outubro 2006

Boa Notíca!

Saudamos esta excelente notícia que nos torna o dia feliz!



Para a "Raposinha" que mora no

Jardim
,

aqui ficam os nossos abraços felizes na hora da comunhão e da Festa!
Enooooooorme abraço

para a valente MC !

25 outubro 2006

a idade da inocência

O exército alemão, que só depois da reunificação - e apesar das imensas resistências internas - se atreveu a dar a cara na cena internacional, tinha uma fama excepcional: eficiente, civilizado, ordeiro.
Em suma: um exército limpo ao serviço da Paz.

Recentemente descobriram fotografias terríveis de soldados alemães no Afeganistão.
Soldados que se divertem com um esqueleto humano.

E lá se foi a idade da inocência. Não há exércitos bons.

Como dizia um irmão meu, que fez a tropa em Mafra: dentro daquelas botas, transformas-te.

21 outubro 2006

alvíssaras!

Eu andava há que tempos com vontade de me lamentar que a língua portuguesa estava mais pobre desde que um certo e estimado blogue fechou, mas hoje vou ter de dar o ainda não dito por não dito.
Sim: hoje posso escrever, com um sorriso de orelha a orelha, e música de pregão:

Olhópost que é fresquiiiiinhoooooooo!!!

Aqui, claro.

***

Alvíssaras - para quem acha que isto é sinónimo de "boas notícias" (ou sou só eu?!), desenganem-se. É sinónimo de recompensa dada por boas novas. Agora vou pensar num preço, e já cá volto...

20 outubro 2006

para as estatísticas

Acabaram de me ligar para um inquérito por telefone. Duas perguntas:

- acha que a situação económica na Alemanha vai melhorar?
- acha que a situação a nível de educação e formação profissional vai melhorar?

Pensei "melhora, melhora, que nem tem outra solução", e respondi que sim, com determinação, a ambas.

Fique pois registado que no dia 20 de Outubro de 2006 comecei a manipular as estatísticas para fins de self-fulfilling prophecy.
E a senhora prometeu que daqui a 6 meses me telefona de novo.

19 outubro 2006

das ilusões da mãe galinha

Ao pequeno-almoço, ainda na penumbra da madrugada (sim, que quem como nós mora quase na Sibéria levanta-se mais ou menos a meio da noite para ir para a escola), o Matthias olhou pela janela e comentou:

"vejo que hoje vai estar quente, não preciso de vestir o casaco"

e eu desatei a pensar que crianças alemãs são vinho de outra pipa, e onde terá ele aprendido a prever o tempo?, e será da forma das nuvens?, será a direcção do vento?, será a luz?
Aí, ele interrompeu os meus neurónios que já iam a duzentos

- Vês ali aquela mulher? Vai pela rua abaixo sem casaco.

14 outubro 2006

14 de Outubro de 1806

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Há 200 anos houve perto de Jena, aqui ao lado, uma batalha terrível, que abriu a Napoleão o caminho para a Rússia.
Fomos ver a batalha que encenaram hoje no mesmo campo.

Agrupamentos de milhares de homens bem alinhados a atirar sobre os adversários bem alinhados
- que estupidez absurda.

13 outubro 2006

clap clap clap

Bem escolhido, sim senhor!

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E pró ano hão-de ser estes.

(Mas porque é que ainda não me inscrevi como associada? Passo a vida a perder oportunidades de mudar o mundo com gestos pequeninos.)
(Nem pequeninos nem grandinhos, convenhamos.)
(E além disso um dia destes ainda vão a Estocolmo receber o prémio da mão do rei mais bonito da Europa, e eu fico a ver navios.)

11 outubro 2006

tapa na pantera

Para o caso de haver mais interessados que vão ser os pós-últimos a saber:

Tapa na Pantera

e entrevista com os autores - quase tão divertida como a própria peça.

a raposa a guardar o galinheiro

Lemos o texto de Anna Politkovskaia escrito há ano e meio, e parece-nos a crónica de uma morte anunciada.
Ou pior: a crónica de uma investigação-que-vai-dar-em-nada anunciada.

E aqui vai mais uma tradução (rápida, rápida): parte da entrevista do Putin, de momento em visita à Alemanha, na Süddeutsche de hoje.
O link (original em alemão) só está disponível hoje.

*****

SZ: Antes de começarmos a falar sobre as questões ligadas à Energia, temos de referir um acontecimento que provocou consternação em todo o mundo. Não muito longe deste local, a jornalista moscovita Anna Politkovskaia foi morta a tiro. A morte de uma das suas mais acérrimas críticas comoveu-o?

Putin: O assassínio de uma pessoa é um crime muito grave - tanto perante a sociedade como perante Deus. Os criminosos têm de ser encontrados e julgados. Infelizmente, este não é o único crime do género na Rússia. Nós faremos tudo para encontrar os criminosos.
De facto, a jornalista Anna Politkvskaia era uma crítica das actuais relações de força. Em geral, este é um traço típico dos representantes da imprensa, mas ela tinha posições radicais. Nos tempos mais recentes, a sua crítica dirigia-se em especial ao poder oficial na Chechénia. Contudo, a sua influência política no país não era muito grande. Ela era mais conhecida nos mass media ocidentais.

SZ: A quem interessa a sua morte?

Putin: O assassínio de Anna Politkovskaia traz muitos mais danos aos dirigentes russos e sobretudo chechenos que qualquer peça jornalística poderia alguma vez provocar. Este crime horrível causa à Rússia grandes danos políticos e morais. Atinge o sistema político que tentamos neste momento construir - um sistema que garante a liberdade de expressão para todos, e também para os mass media.

SZ: Membros da oposição russa acreditam que o primeiro ministro Ramsan Kadyrow, o seu mais importante aliado em Grosny, está por trás deste assassínio. Pensa que isto é possível?

Putin: Não. Também lhe posso explicar porquê: os artigos dela nem atingiram a sua política nem prejudicaram a sua carreira política. Ramsan Kadyrow foi um dos que inicialmente lutou contra a presença das tropas federais na Chechénia. No orgãos de segurança e nas instituições chechenas podem trabalhar hoje pessoas de todos os quadrantes - independentemente da sua opinião ou do seu passado. As actuais relações de forças políticas na Chechénia são complicadas, mas isso não é motivo para um assassínio. Um certo azedume contra a acção da jornalista seria possível, mas não consigo imaginar que uma pessoa com cargos oficiais fosse capaz de planear um crime tão terrível.

SZ: Há dúvidas sobre a liberdade de imprensa na Rússia, que não são suscitadas apenas por este assassínio recente. Na televisão russa quase não se encontram críticas ao Presidente. Na classificação mundial da liberdade de imprensa publicada pela organização Repórteres sem Fronteiras, a Rússia aparece quase no fim, no 140º lugar. Pensa que os media russos são livres?

Putin: A Rússia está numa fase de transição. Os mass media estão a desenvolver-se. No país trabalham vários milhares de canais televisivos. Por muito que os detentores do Poder, a todos os níveis, o desejassem - é impossível controlar um sistema tão gigantesco. O número de média escritos é ainda maior. São mais de 35.000, e mais de metade deles tem participação estrangeira. No entanto, se nós pretendermos entrar nos mercados dos média ocidentais, isso é quase impossível. Devido a pretextos de ordem burocrática, o processo arrastar-se-á por vários anos.

SZ: Durante a sua visita à Alemanha, será confrontado com questões sobre direitos humanos, liberdade de imprensa e democracia. Incomoda-o receber lições de fora?

Putin: Não, já me habituei a isso. Parece-me sobretudo que não temos tido o devido cuidado de informar sobre a situação real na Rússia. Um exemplo: acusam-nos de concentrar o poder em Moscovo. Na Alemanha, em contrapartida, foi feita uma reforma do federalismo que reduz substancialmente os plenos poderes do Conselho Federal. Foram retirados muitos direitos às Laender - e em troca, o que lhes deram? Têm o direito de decidir sobre os horários comerciais. Na Rússia, isso é feito a nível municipal. Mas nem por isso nós dizemos que a Alemanha se está a afastar da Democracia e que há uma concentração excessiva do poder em Berlim. De fora, é muito difícil perceber o que é bom e o que é mau para um país.
Mas posso-lhe dizer uma coisa: não temos o menor desejo de regressar ao sistema soviético de centralismo e totalitarismo. Veja-se um mapa da Rússia: é um imenso território, o maior país da terra. Há centenas de grupos étnicos diferentes. Não é possível aplicar um carimbo à Rússia, por muito bonito que ele fosse. Nós vamos fazer todos os possíveis para respeitar os princípios do mundo civilizado - da Democracia - e os direitos e liberdades dos nossos cidadãos.

10 outubro 2006

Anna Politkovskaia - ouçam a sua voz

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A Süddeutsche Zeitung publicou ontem de novo uma versão sintetizada do artigo encomendado à jornalista e publicado nesse jornal em 27 de Maio de 2005.

Aqui vai a tradução (rápida, rápida), como homenagem à coragem daquela mulher.



- Czar Vladimir - infalível e messiânico -

O presidente da Rússia já abandonou há muito o caminho para a Democracia que Boris Yelzin tinha iniciado


A Rússia de Boris Yelzin estava a caminho de se tornar uma Democracia; hoje, o nosso Estado combina oligarquia e autoritarismo. Na economia, o presidente Vladimir Putin substituiu os amigos de Boris Yelzin pelos seus próprios; os seus aliados fiéis do tempo dos serviços secretos foram premiados não apenas com a oferta das partes mais lucrativas das propriedades dos antigos protegidos de Yelzin, como também com altos cargos do Estado. Como resultado, já não se reconhece bem a fronteira entre grandes empresas e sistema económico estatal, entre business e serviço do estado. Deste modo surgiu um sistema corrupto que invadiu todas as instâncias da Administração, as estruturas de protecção da ordem legal e o conjunto do sistema jurídico. Os tribunais, que com Yelzin se tinham começado a tornar instituições para defesa dos direitos dos cidadãos e da sociedade perante o Estado, são hoje de novo um departamento do Kremlin. O mesmo se aplica à Procuradoria da República. E até os media, a quarta coluna de uma Democracia saudável, estão mudos.

A tudo isto se sobrepõe a guerra da Chechénia, que mudou a totalidade da sociedade russa. Há muito deixou de ser um conflito local, tendo-se tornado num instrumento para a militarização do país. A razão para a continuação desta segunda guerra da Chechénia, denominada "guerra anti-terror", passados já 5 anos, é simples: Putin e a Chechénia estão inseparavelmente ligados. O presidente deve o seu cargo antes de mais a uma guerra que surgiu no norte do Cáucaso em Setembro de 1999, menos de 6 meses antes das eleições. Só uma guerra poderia fazer do funcionário Putin, absolutamente desconhecido, sem programa e sem visão, um sério candidato à presidência. Do mesmo modo que a guerra fez de Putin presidente, fez o presidente Putin a guerra.

Durante os primeiros anos da guerra, muitos - entre os quais, eu - tinham ainda ilusões: talvez o presidente não faça ideia do que está a acontecer lá? Talvez o exército se tenha descontrolado e esteja a agir por própria iniciativa ao tratar os chechenos como pessoas de segunda classe, sujeitando-os a humilhações, torturas prepotentes, roubos, violações, martírios? Há muito que este tipo de explicação perdeu fundamento. Tudo o que o exército russo até hoje perpetrou na Chechénia, na Inguchetia e no Daguestão está sob o controle de Putin. A Constituição da Federação Russa faz dele, como mais alto comandante das forças militares, o actor principal neste inferno russo-checheno. É a política de Putin, a sua guerra pessoal, uma Blitzkrieg atolada, com características racistas claras e a terrível estratégia da "chechenização" do conflito: o governo instalou em Grosny um regime fantoche leal a Moscovo, e faz a corte aos personagens mais tenebrosos e sem escrúpulos da Chechénia.

Se os serviços secretos russos continuam a raptar pessoas, a torturar e a executar as suas vítimas sem investigação policial nem processo judicial, então trata-se de um caso simples de terrorismo de Estado dirigido pelo Kremlin. Esta política faz com que a resistência chechena se radicalize cada vez mais; que cresça o número de pessoas dispostas a vingar com violência a morte ou o desaparecimento dos seus familiares; que se pratiquem na Rússia terríveis actos de terrorismo. Durante todo o seu período de soberania, e em especial após a tomada de reféns do teatro "Nordeste" em 2002 e na escola de Beslan em 2004, Putin recusou decididamente toda e qualquer proposta de terminar o conflito da Tchetchenia. Putin, que toma cada vez mais os traços de um czar messiânico, aceita unicamente o seu próprio plano, já há muito desacreditado. E o Ocidente não apenas aceita Putin, como até o apoia.

No dia 8 de Março de 2005, Putin bloqueou todas as vias que poderiam conduzir rapidamente à Paz na Chechénia. Forças dos serviços secretos russos, enviadas propositadamente de Moscovo, liquidaram Aslan Maschadow, chefe da resistência chechena e legalmente eleito presidente do país em 1997. Por indicação de Putin, todos os participantes nesta operação foram condecorados.

Porque é que Putin deixou matar Maschadow justamente neste momento? Por dois motivos principais, o primeiro derivado de cálculo político e o segundo ligado à pessoa de Putin. Durante muitos anos, Maschadow foi o chefe da resistência chechena, e era nesse papel que servia melhor os interesses de Putin. O presidente não se cansava de repetir perante os media que Maschadow não passava de uma nulidade, insignificante e sem seguidores. No entanto, desde o outono do ano passado, Maschadow começou a desenvolver esforços para conseguir uma solução pacífica para o conflito, e o Ocidente começou a reparar nele. Em Janeiro de 2005 declarou uma trégua unilateral. Durante todo o período de guerra nunca acontecera algo assim. E, segundo a vontade de Putin, não devia voltar a acontecer. O antigo funcionário não suporta que alguém lhe roube a iniciativa e por isso seja até aplaudido. Putin entende isto como uma tentativa de o humilhar.

Quanto mais dura o período de soberania de Putin, menos lhe convém o simples papel de sucessor de Yelzin. Putin quer ser, ele próprio, o czar, e até maior que o "czar Boris Yelzin". Por isso começou a desfazer-se de todos aqueles que sabem que à sua soberania falta a substância de um czar bom.

E que papel desempenha aqui o povo russo? Como reage a opinião pública? A sociedade civil? Os intelectuais? A parte da sociedade russa com cargos políticos está dividida entre dois lados: o do povo e o do poder. E os adversários de Putin continuam presos em lutas de trincheiras, incapazes de se entenderem sobre a base de um partido democrático unido. Se deflagrasse amanhã na Rússia uma revolução como a da Kirgísia ou a da Ucrânia, isso não aconteceria nas cidades principais, mas na província. E à cabeça da oposição ao regime de Putin não estariam democratas, mas nacionalistas russos de extrema direita.



***

E mais um artigo, no Guardian. Para que a sua voz não se apague.

Pequeno detalhe: Eduardo Pitta refere que ela fez a cobertura do massacre de Beslan. Tanto quanto sei, ela bem queria, e até já ia a caminho de Beslan, quando foi impedida - por um misterioso caso de envenenamento...

06 outubro 2006

Tag der Republik

Hoje passei mais uma etapa no meu processo de Weimarização: fui convidada para um café na casa de uma das mães da turma da Christina. Para falar das filhas das outras (imagino o que dirão sobre a minha quando estou ausente), de projectos para a escola e a turma, do que é preciso contar ao médico para conseguir uma recomendação para o sistema público de saúde nos mandar com os filhos a banhos três semanas pensão completa e mais quem se ocupe das nossas crias tudo incluído, coisas assim.

E às tantas:

- Que dia é hoje?
- Seis de Outubro.
- Ah, então amanhã é Sete de Outubro!
- Sete de Outubro? O que é que isso tem? (era eu, que não percebo nada destas coisas)
- Tag der Republik.
- Mas que república? O fim da monarquia? (outra vez eu, claro)
- Não. O nascimento da RDA.
- E o três de Outubro, o que significa? (era uma delas)
- Ah, isso sei (era eu, hehehe): dia da reunificação alemã, data da assinatura do tratado da reunificação.
- Não tenho nenhuma ligação emocional a esse dia. Se fosse o nove de Novembro...
- Esse não poderia ser, por causa do Pogrom de 1936. (esta foi em coro)
- O nove de Novembro foi numa quinta-feira, não foi? Eu morava em Berlim, e na sexta-feira, pois, foi na sexta-feira, encontrei uma colega que me contou "Ontem à noite bebi sekt no Ku'damm", e eu pensei "daqui a nada vai-me dizer que bateu com a mão na mesinha de cabeceira", mas ela contava e contava, e o sonho nunca mais acabava. Pouco depois chegou uma outra, que contava histórias semelhantes, e eu comecei a desconfiar, porque não era possível terem sonhado ambas o mesmo, e nunca mais batiam na mesinha de cabeceira. Demorei algum tempo a perceber que tinha realmente acontecido. Acompanhei-as no caminho para casa, e ao passar na Warschauerstrasse apercebi-me pela primeira vez que havia um portão no muro. É estranho como passei tantas vezes naquela rua, e nunca me dei conta da existência do portão. Estava escancarado. Resolvi tentar passar também. À medida que me aproximava, a multidão ia ficando mais densa, até parecia as manifestações de Maio. Quase nem chegava com os pés ao chão, ia sendo arrastada pela massa. Só pensava "de certeza que quando chegares à passagem a porta se vai fechar, de certeza que não consegues passar para o lado de lá, isto não pode estar a acontecer, isto não te vai acontecer, não vais ter essa sorte". Junto ao portão havia um polícia, enfim, um tipo fardado, que gritava "mostrem os documentos de identificação". Nós tirávamos o cartão do bolso, mas nem o conseguíamos abrir, nem o polícia conseguia ver alguma coisa. Do lado de lá do muro havia duas alas enormes de Wessis, que aplaudiam sem parar e nos ofereciam bananas e laranjas. Eu, que sabia a quantidade de pessoas que ainda vinha a caminho, pensei "vocês vão-se cansar depressa, daqui a nada começam a doer-vos as mãos". E desatei a chorar. Ao meu lado, e também entre os Wessis, havia muita gente a chorar. Passeei pelas ruas, e - logo eu, que não sou nada de me ligar a cheiros, - ainda me lembro da descoberta das lojas de flores. Na RDA também havia flores, crisântemos e assim, mas não era aquela variedade e aquela profusão. Passei o dia à procura de floristas, entrei em todas as lojas para saborear aqueles aromas, se alguma vendedora solícita perguntava "precisa de ajuda?" eu dizia que não, que só estava a ver, e continuava a cheirar - deslumbrada. Depois comprei algumas flores e um saco de tangerinas, lembro-me como se fosse hoje. E ainda hoje, se entro numa loja de flores, lembro-me dessa descoberta que fiz quando o muro caiu. Como é lógico, ao fim de alguns dias os Wessis cansaram-se de tantas emoções fortes, e começaram a mostrar má cara. Estavam fartos de continuar a dar os cem marcos de boas-vindas e de serem assim invadidos por pessoal sôfrego de comprar e ver. Mas os primeiros momentos, ninguém me tira aquela sensação incrível.
- Ninguém esquece (dizia outra). Ainda agora me arrepio com o que contas (e limpou uma lágrima).
- Eu esperei até sábado. No sítio onde atravessei a fronteira as pessoas já estavam fartas de tantos Ossis. Senti-me indesejada, foi muito desagradável.
- Para a minha família (contou a quarta), esse nove de Novembro foi um dia muito especial. O meu irmão tinha pedido autorização para abandonar o país, e ao fim de vários anos conseguiu-a. Ia sair no dia onze de Novembro. No dia nove, a família reuniu-se para se despedir. Estávamos num restaurante, todos tristíssimos por não sabermos quando e se o voltaríamos a ver, e de repente um dos empregados disse "abriram a fronteira!" e nós, chateados, "ah, sim, engraçadinho, conta outra..."

E depois mudaram de assunto, antes de começarem todas a chorar.
Quer dizer: começarmos.

pior que província...

...só mesmo província da ex-RDA.

Vinha no jornal regional de hoje:

Danos no valor de 2500 euros

Na esquina da Vorwerksgasse com a Schloßgasse um condutor de Mercedes não respeitou a prioridade e chocou contra um VW Golf.

***

Parece brincadeira mas é muito sério.
Conheço uma "ossi" que ainda hoje tem ódio aos condutores "wessis" em geral e aos condutores de Mercedes em particular porque, pouco depois da queda do muro, ia ela extremamente grávida pela zona de peões no centro da cidade, um "bruto Mercedes" com matrícula de Munique apitou para ela se desviar e o deixar passar.

05 outubro 2006

nós, propênsicos

No Sabine Christiansen do domingo passado estavam a falar outra vez (começa a ser hábito) do diálogo entre as culturas.
Um dos convidados, representante de uma organização muçulmana na Alemanha, passou o tempo a tentar explicar que o mundo muçulmano não cabe nas nossas simplificações, e que temos (nós = ocidentais e cristãos - também é uma simplificação, mas adiante) uma certa propensão a confundir coisas muito diferentes.

Por exemplo, dizia ele, ninguém se lembrou de dizer que os assassínios em massa imputados ao Milosevic tinham algo a ver com o facto de ele ser ortodoxo. Mas se fosse muçulmano...


***

Sabine Christiansen, para quem não sabe: grande dama dos debates televisivos no primeiro canal da televisão alemã. Tem um programa no horário nobre de domingo que leva o nome dela.

dúvida quase existencial

Havia uma anedota sobre o Cunhal que dizia que aquela combinação de cabelos brancos com sobrancelhas pretas era sinal de ele pensar muito e ver pouco.

Alguém me passa uma fotografia do Pedro Arroja?

***

E outra dúvida quase existencial:
ontem vi um bocadinho do Prós e Contras (sim, agora temos RTPi : é dois canais antes da al Jazeera) - alguém faz o favor de me dizer quem era a moderadora? Lembro-me vagamente daquela cara.
Como já não vejo televisão portuguesa há quase 20 anos, fico como aqueles povos primitivos a quem mostram um filme: não sei quem são os actores, nem o que estão ali a fazer, e só reparo nos detalhes colaterais. De modo que reparei que a moderadora tentava dominar a discussão mas continuavam a falar por cima da voz dela e ela deixava, e que tratava as pessoas pelos apelidos e depois corrigia, acrescentando o senhor doutor da praxe. Era muito engraçado.

04 outubro 2006

ao correr do teclado

Cúmulo da burrice seria um ladrão usar o escadote (do ingénuo expediente) para assaltar a minha casa pela janela.

Não fiz, mas pensei.
Eu há dias assim.

(Sim, a propósito: será só a mim que acontecem aqueles dias em que parece que uma pessoa está a fazer de propósito para tudo lhe correr mal, e chega mais ou menos ao princípio da tarde e decide que o melhor é voltar para a cama e esperar que amanhã seja outro dia?)

(Quase me acontecia outra vez ontem, por causa de um armário IKEA demasiado grande para o nosso engenho e arte. Sim, a propósito: será que a taxa de divórcios aumentou em Portugal desde que a IKEA se instalou aí? Ando cá com um pressentimento que tem tudo a ver.)

(Aqui, tudo está bem quando acaba bem: os amigos do clube de modelismo do Joachim vieram jantar a nossa casa, e entre o aperitivo e a sopa montaram o armário todo ao contrário - porque ao direito já estava todo esboroado. Ficou muito catita, e quem não sabe não nota. Não faço foto porque não me cabe na máquina fotográfica. Até me lembra, mal comparado, a China: também não me cabia na máquina fotográfica.)

(Vou dizer ao Joachim que devíamos comprar uma máquina fotográfica maior.)

(Movida por um ímpeto de gratidão, abri para eles uma das minhas melhores garrafas de vinho do Porto. Anotem, que ainda me vai dar um prémio Nobel qualquer: quanto mais velho o vinho, mais tempo demora até começar a fazer efeito. Eu, por exemplo, provei-o ontem - várias vezes, que estava a fazer uma experiência sobre oxidação - e, 24 h depois, olhem para este post que estou aqui a escrever: cqd!)

02 outubro 2006

ingénuo expediente

O carpinteiro veio buscar a nossa porta da rua para a arranjar na oficina.
Deixei um escadote na entrada, a fazer de escudo invisível *:

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Deveria acrescentar um papel tipo "particular - entrada proibida"?
Ou talvez: "cuidado, o gato morde" **.


* Escudo invisível: funcionava às mil maravilhas quando eu tinha 6 anos e brincava ao D. Afonso Henriques com os meus irmãos.

** E por falar em animais domésticos: este fim de semana vi um casal de ricalhaços que andava a passear um cão rafeiro. Adoro quando o pessoal não tem necessidade de exibir uns mil ou dois mil euros na forma de 4 patas.


PS. A entrada esteve assim sem porta desde as 7 da manhã até às 4 da tarde. Sem chatices.